sábado, 8 de fevereiro de 2014

GALO DO ALTO


Nada de velho esta noite.
Tudo novo,
assustador.
Sem felinas,
sem azuis e acácias,
sem o povo.
Mulheres sérias
no 305 do edifício x.
O álcool da cerveja
evaporou,
levando consigo
o lirismo dos bêbados
para o sexto dos infernos.
Pelo menos o galo é do alto
e a cantora, linda,
embora com notas
mais graves que as minhas.
 A conta, por favor!


sábado, 18 de janeiro de 2014

Falta de absurdo


Falta de absurdo. O poeta Caio Muniz, governador de Iracema, botou um bar em Mossoró, ali na esquina da Frei Miguelinho com a Princesa Isabel, em sociedade com meu amigo Cário Sheves. Chama-se Camaroon e substituiu o alternativo Bom Bar, se é que isso é possível.

Dizem que a convivência de Caio e Cário com o bar é simbiótica, as raposas e o galinheiro com um monte de garrafas empoleiradas. Eles negam, e eu creio, pois na madrugada de sábado ambos estavam impressionantemente sóbrios, apesar das tentações e das queixas.

O velho Muniz, por exemplo, repetia a frase "A sobriedade é um porre", que inventei quando eu era, como diria o mestre Apolônio Cardoso, "poeta boêmio sem felicidade,/ que canta a saudade aos raios da lua", antes de me quebrarem as asas tortas de anjinho barroco.

Quanto ao resto, valho-me de Oscar Wilde para garantir que "resisto a tudo, menos às tentações". Meus amigos, até onde os conheço, idem. Mas suponhamos que resistam, aí estará provado que a propriedade do bar é o túmulo do boêmio. No sentido figurado, claro.

A festança de inauguração foi arretada. Músicos, escritores, poetas, loucos. Sobrou gente e faltou interferência. Para quem não sabe, interferência era o que nós da Poema - Poetas e Prosadores de Mossoró fazíamos há 15 anos, recitando versos onde não éramos chamados.

Quadros de Rogério Dias e balcões de Escravo ilustram o ambiente. Contudo, repito, faltou interferência. Até me convidaram, e obviamente rejeitei, afinal a coisa deve ser espontânea e partir de onde menos se espera, à la Torquato, de maneira a desafinar o coro dos contentes.

Não somos mais aqueles caras que declamavam poemas em feiras, sinais de trânsito, ônibus, escolas, cabarés. Tempos bons, apesar das não raras hostilidades. Laércio Eugênio chegou a "contratar" o grande Sotopá no Búzio como segurança, após sofrer uns catiripapos.

Lembro da vez em que chamaram a polícia porque Muniz leu sonetos na Cobal. Afastei copos, pratos e me pus de pé sobre a mesa, recitando Florbela, em protesto contra a tentativa de prisão que não ocorreu por muito pouco. Onde estava o Gordinho da Mercatto?

Estamos velhos, bem-comportados, entregues à comunicação preguiçosa das redes sociais, que nos afastam do humano e nos aproximam das musas virtuais. Estamos rendidos à palavra vegetal que se escreve, mas não se grita. Valei-me, Nossa Senhora das Bicicletas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

"Destinos" de Sulla Mino




Ouvi de um professor no curso de jornalismo, que o texto, para sem bom, tem de ser como um soco no estômago: surpreender, inquietar, intrigar o leitor. Sulla Mino consegue nos envolver de tal modo, que, do abismo, da queda sem fim, damos de cara com a planície. Segura. E, de repente, a terra inviolável abre-se no turbilhão de fonemas.

Puxo da memória a primeira leitura, um conto multimídia, lido por ela com ilustração de alguém cujo nome, desculpem-me, não recordo. Diferente, inovador. O sotaque carioca emoldurando as sílabas, o uísque, o copo quebrado, e Alice, menina arteira que adorava ler, caiu num buraco, contou três ou quatro causos, seduzindo o coelho.

Neste livro autodenominado "rascunho", "rabisco", guardam-se sorrisos muitos que se dizem poucos, confissões tantas que nem se contam. Claro, jura-se escuro porque as letras de Sulla são iluminadas sem renegar a força geradora das sombras, com aquele modo hipnótico de nos arrastar ao fundo das narrativas, tipo a sereia e o náufrago.

Não vejo Gilka, Augusto dos Anjos, Cecília Meireles, muito menos Drummond, o Carlos. Neruda? A Pessoa de Lispector? Vejo Alina, eu, você, a porra do vidro de calmante. Kélia? É um de nós no pesadelo do amor (im)possível? A roda-gigante, horas por cima, horas por baixo, aqui e acolá no solo, no horizonte. O espinho, a rosa, corpo caído.

Nutro o maior tesão por ruivas. Mentira, não tenho preferência, mas Lícia no tango é de lascar. Queria que ela gozasse. Sulla bota pra moer, o leitor quer e não sabe, sabe e não quer. Ela consegue enredar o cotidiano numa trama de sentidos. Consegue passear por temas conhecidos, amor, vida, morte, sem cair na mesmice nem parecer piegas.

A janela sem vistas do "Sexto Andar", porque "Levaram os olhos e já não se pode ver nada", abre-se ao som de Beethoven para uma metáfora inquietante da memória, bem como o "Ritual de Espera" embalado por Ravel. A música, o ritmo, a imagem, o cheiro, a voz da narradora, a pele arrepiada, tudo, o tempo todo, desafia-nos a sonhar.

Livro povoado de gente. Cada indivíduo, desde Lívia e sua carta, Alina, Bebel, Cibele, Leandra, até a moça que não faz muito desfilava as curvas e os cabelos pelo jardim, tem o livre-arbítrio de fazer-se história, de modo que, às vezes, parece repetir o dia a dia perante nossos olhos, como se estivesse bem aqui, contando-se num corpo verbal.

Há anos leitor de Sulla Mino, em prosa e verso, ainda me surpreendo com seu talento de persuadir a realidade a se vestir de ficção. Prefácio, francamente, é troço desnecessário para ela, no máximo ritual, pois suas personagens desvelam-se nos próprios atos e apresentam a autora com quem dividem a magia da criação literária.

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Eis o link para quem desejar adquirir o livro em formato digital:




sábado, 28 de dezembro de 2013

Senhor Alguma Coisa


A arqueologia filosófica de Michel Foucault, um dos grandes pensadores do século XX, destrói o poder como algo onipotente, onisciente, monolítico, exercido do centro para as extremidades por força soberana implacável, única, o senhor frente aos escravos, o governo que domina cidadãos por meio de seus aparelhos repressores e ideológicos.

Segundo ele, as relações de poder são heterogêneas e se realizam em níveis complexos atravessados por outros níveis coletivos e particulares. A imagem que me vem à mente, lendo Michel Foucault, é a de uma teia de aranha, ou melhor, de uma teia social em que todo fio e cada conexão são pontos instáveis de reflexo e refração de vários poderes.

Há, no entanto, quem se deixe iludir pela interpretação errônea do poder absoluto e tente exercê-lo pela força institucional dos cargos, até perceber - se tiver sorte - a ingenuidade da pretensão. O poder é cachaça envelhecida em barril de sândalo, que domina tanto pelo cheiro quanto pelo álcool, e embriaga até os homens que se declaram sóbrios.

Conheço excelentíssimos camaradas de fino trato, equilibrados nas feições, fiéis à palavra de Deus, que, contrariados, encarnam a besta-fera. Os menos tarimbados lançam mão do relho, e batem, e berram, e berram, e batem, enquanto as raposas fustigam sem perder a serenidade, mas com o mesmo objetivo de humilhar demonstrando quem manda.

A propósito, ouvi de Ariano Suassuna, numa aula espetáculo, como é triste a redução do indivíduo à condição de autoridade. Meu avô materno, passado na casca do alho na lida com seres humanos em "estado de cargo", prevenia quem arrotava intimidade com figurões, para ter cuidado com as mudanças que a giroflex promove no espírito do sujeito fraco.

Quando me deparo com um tolo inebriado pelo poder que exerce, estilo Luís XIV, incorporando-o como algo intangível, lembro-me na hora de Pateta. Pateta, aquele cachorro Bloodhound do desenho animado de Walt Disney, no episódio inspirado na obra "Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde", para nós "O Médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson.

Brilhante metáfora das mudanças de comportamento das pessoas, conforme os aparelhos de poder disponíveis, a animação descreve os conflitos morais da personagem central. É a história do Senhor Andante, cidadão honrado, gentil, incapaz de machucar uma mosca, que, ao entrar no carro, vira o Senhor Volante, um monstro infernal, incontrolável.


Igual Pateta na armadura automotiva, muita gente se transforma no Senhor Alguma Coisa no breve e efêmero contato com instrumentos de exercício de poder, até ser consumido e desmoralizado. Aprendi com Foucault que o poder não existe, sendo a figura do plenipotenciário uma falsa percepção da realidade, e aqui digo eu, que embriaga os idiotas.

Diante de criaturas dessa ordem, recomendo a humildade destemida, pois, voltando às lições do meu saudoso avô, por vezes precisamos abrir os braços para não sermos engolidos. Na maior parte do tempo, contudo, basta observá-las piedosamente, enquanto, a exemplo do catoblepas, animal da mitologia etíope, comem os próprios pés. E caem.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O colecionador de imagens


Permanecemos aqui, trinta e tantos anos depois. Eu e minha irmã. Quando não mais estivermos, nem eu nem ela, aquele instante capturado na fotografia – quem a terá feito? – continuará vivo, pulsante, na imaginação de quantos nos virem crianças naquele cenário onde ensaiamos nossos primeiros passos.

Rua Meira e Sá. Portão largo, coqueiros altos, cisterna, choro antigo de menino besta, queda, dentes quebrados, cheiro de sopa, dos pães de Kiko. Nas imediações, Mercado Central, Beco das Frutas, Catedral de Santa Luzia. A casa de doutor Vingt e dona Lourdes... de dona Alice... de dona Treze... Hotel Caraúbas...


Lara nem lembra, nem poderia, e ainda brinca: “Deixe de conversa, Cid Augusto!”. Juro, eu lembro. Em pedaços, mas lembro. Dessas e de outras coisas. Detalhes, apenas flashs, nada completo, somente o bastante para enxergar, com olhos do hoje, a esperança estampada nos olhinhos da eterna criança do ontem.


Há outras fotos. A de um beijo, por exemplo. Não exatamente a do beijo, a da moça do beijo que evoca a trama, a saliva, o desejo. O desencontro. O reencontro. Maravilha de destino! Dorme, a mesma criatura de olhos castanhos, a poucos metros de mim, enquanto a madrugada, devassa, abre as pernas para o Sol.

Quantas lembranças! Coisas do tempo do “Do Bumba” revividas graças a Caby da Costa Lima, nosso Camaradinha, colecionador de amigos que, de tempos para cá, resolveu também juntar imagens. Imagens de amigos e de alguns ilustres desconhecidos, para, por meio delas, contar a História humana de Mossoró.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Viva Madiba!


Corriam os anos 1980, quando ouvi em Salvador um artista de rua entoar no Pelourinho "Libertem Nelson Mandela", espécie de lema internacional contra o apartheid na África do Sul. Para ser sincero, não sabia de quem o sujeito falava, mas fiquei impressionado e comovido.

Busquei respostas na biblioteca de casa, já que não existiam as facilidades da Internet, o "professor" Google, essas coisas todas. E nela estava uma referência a Madiba, a partir da qual passei a ler tudo o que fui encontrando sobre ele, especialmente textos jornalísticos.

Naquele tempo, a "Grande Imprensa" vencia com dificuldade as barreiras geográficas do País e pouco nos chegava. Meu avô, que se revezava entre Brasília e Mossoró, costumava presentear-me quinzenalmente com edições da Folha de S.Paulo e do Correio Braziliense.

Sabedoras dessa admiração, algumas pessoas, sempre que encontram, mandam para mim publicações, souvenirs. Guardo com o maior carinho a camisa com a caricatura e a coletânea com discursos dele, que meus pais compraram e me trouxeram de Joanesburgo.

Livros, tenho por aqui "Os caminhos de Mandela", "Nelson Mandela - conversas que tive comigo" e "Longo Caminho Para a Liberdade", os dois últimos dele próprio e o primeiro de Richard Stengel. O segundo é prefaciado por Barack Obama. O derradeiro já virou filme.

Li que ele gostava de um trecho de "Júlio César", de Shakespeare, sobre a perplexidade frente a morte. Selecionara-o a pedido de um colega de cárcere, na cela onde passou quase os 27 anos de sua prisão política, lugar tão pequeno que o obrigava a dormir curvado.

"Covardes morrem muitas vezes antes de suas mortes.
O bravo sente o gosto da morte uma única vez.
De tudo que vi
O mais estranho é que os homens tenham medo,
Já que a morte, um fim necessário
Vem quando vem".

Recorro então a Shakespeare e garanto que a morte veio, mas não veio para Nelson Mandela, pois nem ela teria o poder de sepultar a memória de quem, na luta contra dominadores brancos e dominadores negros, fez-se história como sinônimo de humanidade. Viva Madiba! 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

COM OS OLHOS


Teus sorrisos de vinho não respondem
Nada disto ou daquilo o que desejo.
Quando muito se mostram, mais se escondem
E se penso que enxergo, menos vejo.

Tenho notado, a noite está contigo,
Encobrindo as mentiras que me fala.
A julgar a verdade que em mim cala,
Parece que ela está também comigo.

Imagino o que posso e o que sonhei:
Entre luzes e sombras, as certezas;
Entre cruzes e espadadas, já não sei.

Por isso, não me atiça que eu te tomo,
Despido de pudores, sutilezas,
Te como com os olhos, mas te como.

sábado, 5 de outubro de 2013

Feofó iluminado


Mulher odeia cantada, 83% delas, pelo menos. É o que afirma pesquisa do OLGA, grupo que se define como "um think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje". Think tanks, para constar, são entidades destinadas a difundir conhecimento e estimular o debate sobre áreas que elegem como estratégicas, a fim de promover-lhes transformações ideológicas.

As cantadas mais ouvidas, de acordo com participantes da sondagem, são "Linda" - 84%, "Gostosa" - 83%, "Delícia" - 78%, "Fiu fiu" - 73%, "Princesa" -  71% e "Nossa senhora" -  64%. A maioria se dá na rua, embora muita gente relate assédios inconvenientes por parte dos colegas de trabalho. Quem reage é chamada de "Metida" - 45%, "Baranga" - 16%, "Gorda" - 13%, "Feia" - 23% e "Mal-comida" - 25%.

A timidez me deixa praticamente fora das estatísticas. Pelo que lembro, cometi duas imposturas, a primeira por questões de ordem linguística e a segunda depois de beber apaixonado, e com celular na mão, por uma mulher linda e inalcançável. Quanto a esta, sem delongas e sem abrir parágrafo, pedi mil desculpas e aprendi a lição: se se apaixonar, não beba! Se beber, esbagace o celular no chão.

No tocante àquela, estava eu em Brighton, interior da Inglaterra, quando, dentro de um ônibus à caminho do Eurocentres, escola onde estudei por três meses, deparei-me com uma jovem suíça de seus 25 anos, com o par de olhos mais azuis da face da Terra. Azuis, redondos, enormes, hipnotizantes, arrasadores... que nada prometiam - parodiando aqui Drummond -, embora tudo permitissem imaginar.

De repente, o ônibus parou na North Street, a moça desceu, caminhou alguns metros e entrou no edifício número 20, justo o meu destino. Naquele dia, perdi a aula divagando em pensamentos românticos e tentando decorar a cantada que, na condição de analfabeto universal, havia rascunhado para a figura, com auxílio do dicionário: "Your eyes are like the sky light" ou "seus olhos são como a luz do céu".

"Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... Repeti a frase mentalmente dezenas de vezes, durante horas. Reescrevi-a à exaustão no caderno... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... Apesar de piegas, lugar-comum, cafona, imaginei que o galanteio renderia um beijo, um sorriso.

No final do primeiro turno, texto decorado, avistei olhos azuis sentadinha num canto do refeitório, com irresistível jeitinho de maior abandonada, lendo "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Areia demais para o meu fusquinha 1971. De toda forma, como já estava ali mesmo, enchi os pulmões, trinquei os dentes e me aproximei todo prosa. Desejei bom-dia, pedi para sentar. Ela sorriu, autorizou. Sentei-me.

Ainda nervoso, mas resoluto, aqueci o juízo fazendo aquele exercício respiratório de mulher grávida na hora do parto - uf! uf! uf! - e soltei o verbo em alto e bom som. Todo mundo ouviu. Penso que hoje eu teria até visto permanente na Suíça se, em vez de "Your eyes are like the sky light", eu não tivesse trocado os olhos ao declarar "Your ass is like the sky light", algo como "seu feofó é como a luz do céu".

sábado, 14 de setembro de 2013

Alô, é o Papa!


O papa está telefonando aos fiéis. O Vaticano confirma, por exemplo, a ligação dele para uma jovem pecadora italiana grávida de um namorado desalmado que tentou forçá-la a abortar. Jorge Mario Bergoglio a tranquilizou e até se comprometeu em batizar a criança.

A Santa Sé registra que o pontífice igualmente levou palavras de consolo a certa vítima de estupro na Argentina e a determinado sujeito da cidade de Pesaro, Itália, cujo irmão foi assassinado. Nega, no entanto, contato com o sírio Bashar al-Assad e com um gay de Paris.

Desacreditem os homens de pouca ou de nenhuma fé, morram de inveja os fanáticos, regozijem-se os elevados de espírito, pois chegou a hora de revelar que também recebi o telefonema do Sumo Pontífice. Faz muitos anos, era sábado e todos na redação testemunharam.

Tudo começou com o sumiço de Edson Soares, grande jornalista, escritor, compositor, cantor, ator, à época assinando a editoria do "Caderno 2" do O Mossoroense, hoje "Universo" por inspiração de Emerson Linhares, diretor de jornalismo e programação da Rádio Difusora.

Trabalhamos até as duas da madruga e saímos certos de voltar às 10 horas para concluir a edição do domingo. Meio-dia, uma, duas, três horas. E nada de Edson. De repente, o telefone da redação toca. Atendo. Do outro lado da linha, o desaparecido balbuciava explicações.

Tentou sem sucesso, porque eu, emputecido, não deixei. Entendi apenas que havia sido teletransportado ou abduzido para Caicó, sua terra natal, a fim de ajudar um amigo em apuros com a mídia. Edson, para constar, é dos melhores assessores de comunicação do RN.

Minuto seguinte, outra chamada, e a voz grave: "Alô! Quem fala?". Respondi apenas "Cid". O interlocutor identificou-se: "Cid, aqui é o Papa!". Dei o goto e festejei: "Pronto, o Vaticano descobriu os milagres que venho fazendo na merda deste jornal e resolveu me canonizar".

A gargalhada do homem, marca registrada, deixou-me perplexo. Era mesmo o Papa, o "Papa Jerimum", como é conhecido o ex-governador Vivaldo Costa, à época prefeito caicoense, que intercedia para explicar a razão que o fez "sequestrar" meu editor em plena madrugada.

Amém!

sábado, 7 de setembro de 2013

TEORIA DO HOMEM TRISTE


Hoje, quero medir, saber quantas linhas um homem triste é capaz de escrever sem se envenenar, e sobre o que lhe sobra escrever sem autobiografar a teoria.

Homem triste!

Resto do resto, sobejo do nada, poema cafona, prosa desgrenhada, parceiro de porra nenhuma.

Homem triste!

Gota de veneno no mar de felicidade que transborda num brinde ao passado, abre aspas, maldito, fecha aspas.

Criatura monolítica, quebrantada em parágrafos, empachada de vírgulas.

De pontos. De vistas. De pontos. Cegos. De pontos. Mudos. De pontos. Moucos. De pontos. Insípidos. De pontos. Inodoros. Ponto.

Exclama tanto que soluça, perde a voz, engasga-se na confusão do lusco-fusco do texto meio noite meio dia.

Pergunta-se.

O que aconteceu entre nós, com sorte?

Quem deu o golpe fatal?

Quando virá a misericórdia?

Onde enterrarão a sombra do cadáver insepulto?

Como o diabo aproveitará uma alma em frangalhos?

A geografia do homem triste é uma ilha na lama.

Sua história, o mal do século, a hemoptise.

Homem triste!

Pulsos cortados, navalha de absinto, tédio, ódio, a puta que pariu, o corno que apanhou.

Aquele que vaga entre os vivos carregando o estandarte do purgatório.

O cafona, o ultrapassado que ouve Nora Ney cantar Antônio Maria: "Ninguém me ama/ Ninguém me quer".
Cansaço de tudo.

Cansaço.

Fim!

O túmulo do homem feliz.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Currículo de pescador


Minha vida tange a vela
da jangada navegante
em mar revolto.
Sou velho pescador,
mas nunca descubro,
ao romper
o horizonte das ondas,
se voltarei em breve,
tarde ou jamais.
E, em voltando,
se a pescaria
renderá peixe bom
ou apenas novas milhas
na lida das marés.
Aprendi ainda menino:
só calculo a pesca
quando as minhas mãos
engelhadas de água e sal
sonham, finalmente,
tocar a areia da praia.

Depois, então, eu acordo.

sábado, 24 de agosto de 2013

À flor da pele


Você mexe comigo de um jeito que não deveria. Ou deveria? O fato é que mexe com a suavidade de um soneto de Florbela Espanca. Sabe aquele?... "Sou talvez a visão que alguém sonhou/ Alguém que veio ao mundo prá me ver/ E que nunca na vida me encontrou"... Lembra?

Difícil resistir à ocasião de se fazer ladrão quando, na covardia, sacode os cabelos e me arrasta da memória uns versinhos franzinos alinhavados timidamente em estrofes juvenis que mal cabem em si de tanta insensatez. A vontade é a de assaltar-lhe mísera dúzia de beijos.

Ainda mais se abre a boca num vendaval de doidices e entorna sem cuidado o caos nos meus ouvidos, acusando-me de saber, de me fazer mouco, doido, algo assim. Logo eu, criatura, sempre incriminado do contrário, de ouvir e promover delírios no lirismo restante da embriaguez.

Às vezes me enrosco em sua língua numa luta sem tréguas, à caça de gemidos. Outras, minhas mãos violam seu vestido e se perdem na multidão dos próprios dedos. Certas horas lambuzo suas coxas, suas costas, a barriga, até desmaio à sombra de estrelas invisíveis. Sente?

Eu mexo com você, diz você, de um jeito que não poderia. Ou poderia? Talvez seja a pele, só pode ser. Coisa de pele não se explica e muito menos se prova. A arquitetura do arrepio desconstrói a espinha, espalha o sangue e infla de repente os pulmões, mas nunca deixa rastro.

Não precisa escancarar a janela, a musa só espera uma brecha para invadir o ambiente nas patas de um gato pardo desses que vivem por aí, sem eira nem beira, sobrevivente do amor com hora marcada. Não fará barulho nem incomodará os anjos caídos pela sala de estar. Creia.

sábado, 17 de agosto de 2013

Resistência


 Sou do tempo em que jornalista diplomado era persona non grata nas redações de Mossoró. Os primeiros que chegaram à cidade comeram o pão que o diabo amassou para se estabelecer, exceto os que frequentavam o meio antes de conquistar o canudo.

Durante 16 anos, até me graduar na UFRN, atuei como "provisionado", espécie de repórter sem formação acadêmica específica que exerce o ofício com autorização expressa do Ministério do Trabalho, algo em desuso desde a derrubada da exigência do diploma.

Muitos colegas da velha guarda protestaram quando passei no vestibular. Canindé Queiroz, um dos maiores polemistas da mídia norte-rio-grandense, telefonou parabenizando-me pela aprovação, mas não sem lamentar meu “rebaixamento de profissional a estudante”.

Pouco antes, em agosto de 1998, levei ao reitor José Walter da Fonseca a proposta de se criar um curso de comunicação na Uern. Isso, na condição de menino de recado do saudoso amigo Rogério Bastos Cadengue, que nos deixou aos 11 de setembro daquele ano.

O reitor anuiu e logo em 2002 o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão oficializou o sonho que Rogério infelizmente não viu realizar-se. Na verdade, Walter fez mais, porque além da habilitação em jornalismo estendeu o processo seletivo para publicidade e rádio e TV.

De lá para cá, o Curso de Comunicação da Uern vem evoluindo e mudando a cultura das nossas redações, onde os diplomados já superam em número os práticos, com destaque para a excelência dos professores que, embora sem estrutura, conseguem formar bacharéis de alto nível.

Semana passada, eu que percebo essa evolução acadêmica no dia-a-dia, graças à convivência com colegas formados ali, fiquei emocionado ao testemunhar outro exemplo de amadurecimento do curso: o documentário "Resistência", que narra a história d'O Mossoroense.

O vídeo feito pelos alunos Cleania Silva, Francinaldo Rafael, José de Paiva Rebouças, Ramon Vítor, Rayane Medeiros e Rosalba Moreira, orientados pela professora Márcia Pinto e com apoio de Edileusa Martins e Oziel Peixoto, tem padrão de mercado.

Só não digo que ficou impecável, por causa de minha presença entre os entrevistados.

De qualquer modo, resta a nós do jornal de Jeremias da Rocha Nogueira, primeira escola de jornalismo desta província, agradecer pela homenagem e registrar nosso reconhecimento à importância do Curso de Comunicação da Uern para o desenvolvimento da imprensa potiguar.

sábado, 10 de agosto de 2013

Mestre Picasso



Conto biográfico baseado em mentiras reais.


Mestre Picasso das Virgens costumava tomar umas lamboradas de cana no meio da madrugada, no Beco das Facas, junto ao Mercado do Peixe. Entrava sem dar palavra, erguia a mão, o dedo indicador estendido, no que Zé Maria, o dono do bar, já lhe servia aquela dose de Rainha das antigas, com respeitáveis 53 graus de teor alcoólico.

A primeira, ele virava para espalhar o sangue e juntar as ideias, como se fosse na veia. Da segunda em diante, degustava junto ao estranho tira-gosto de pimenta malagueta cortada em rodelas pelo próprio Zé, o dono do estabelecimento, que conhecia as manias do freguês e amigo de longos anos. Um gole, uma rodela de pimenta, nenhuma careta.

Somente depois da quarta ou quinta, Picasso relaxava e se dirigia individualmente aos presentes.

- Bom-dia, Fulano!

- Bom-dia, Beltrano!

- Bom-dia, Sicrano!

Aí, calava-se, contando com o respeito dos amigos circunstanciais que evitavam importuná-lo com perguntas vagas ou respostas que não eram pedidas.

Nasceu no Santo Antônio, filho de Maria Enorme e Antônio das Virgens, e, diferente do que muitos ainda hoje imaginam, não foi a mãe, dona de uma badalada casa de recursos nos tempos áureos do Alto do Louvor, quem resolveu dar ao filho o nome Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso... das Virgens.

A escolha adveio do pai, cafetão doido por rapariga, dinheiro e artes plásticas. Nem precisa dizer, o espanhol era seu ídolo. Não à toa, as paredes do cabaré de Maria Enorme eram ornamentadas com réplicas de obras das fases azul, rosa, africana, analítica, cubista sintética e surrealista do pintor ídolo de seu, digamos, marido.

Havia, aqui e acolá, reproduções de cartazes de Toulouse-Lautrec, para garantir a sofisticação do ambiente com toques de Art Nouveau. Lautrec chegou a disputar a denominação do menino. A mãe interferiu apenas para dizer que, se era para batizar a criança com palavra esquisita, que fosse Picasso, de maior simbologia e enquadramento temático.

O herói cresceu entre prostitutas, rufiões e outras figuras do alto meretrício de Mossoró. Não caiu na gandaia nem se deixou seduzir pela noite porque não quis. Tornou-se mestre de obras dos bons por esforço próprio, altamente requisitado e recomendado, a ponto de o ofício tornar-se prenome. Seus únicos pontos fracos eram a aguardente que o arrastava ao beco e um temperamentozinho polido que nem macambira.

Fazia relativo sucesso com a mulherada, a começar pela alcunha. A maioria, sem compreender a homenagem ao gênio de Málaga, desejava conferir se o instrumento correspondia à propaganda. Pelo que se sabe, nunca houve queixas. Seja pelas proporções ou pela qualidade da mexida, sobravam-lhe suspiros apaixonados.

Tudo isso fazia de Mestre Picasso um indivíduo confiante, mesmo antes do terceiro engasga-gato, quando qualquer sujeito alcança as fronteiras da alegria. Quem o estragou, deixando-o daquele jeito, macambúzio, foi Mocinha, quenga independente que prestava assistência domiciliar aos meninos do Nova Betânia.

Mocinha amoleceu Picasso e depois o abandonou. Fugiu para a Inglaterra, a desalmada, com um alemão de sotaque paraibano que conheceu numa praia entre Icapuí e Canoa Quebrada.

Naquela manhã, Picasso tinha nas mãos motivos de sobra para beber até se destroncar. No envelope com o carimbo do Royal Mail, os correios ingleses, o convite do casamento entre Mocinha e Thomas Kuderrã da Silva, que a megera enviara de sacanagem, como golpe de misericórdia.

E funcionou, pois Mestre Picasso sucumbiu no democrático balcão de Zé Maria instantes depois de erguer o copo de Rainha e esfolar a garganta no berro ouvido até na lanchonete de Zé Leão:  

God save the queennnnnn! Aquela vagabuuuuuuunda!

Ninguém entendeu o francês, mas todos responderam ao brinde que inaugurou a manhã e deu prumo ao dia no Beco das Facas.

domingo, 4 de agosto de 2013

Vista do terraço


Em consequência do pé quebrado, venho dedicando mais tempo do que o habitual à leitura e aos pensamentos. Passo horas na varanda do quarto, sentado na cadeira de rodas, viajando em livros e boas lembranças.

Domingo último, no fim daquela tarde estranhamente calma, deparei-me com o trecho de um livro que tratava do assunto sobre o qual, momentos antes da leitura, eu falava aos meus pacientes botões.

Não! Por favor, não pensem que foi algo mediúnico. Satisfaço-me com a explicação simplória de que tudo foi apenas feliz coincidência entre meus devaneios e o texto, cujo nome do autor trataram de apagar.

Escrevo desse modo, porque aprendi a valorizar as coisas pelo ângulo humano, porque descobri que a beleza de certos momentos está exatamente no fato de eles apenas acontecerem ou não, sem explicações.

Penso mesmo que foi à toa que, após idealizar a minha Marília no cenário de mar e coqueiros, encontrei um apaixonado e apaixonante relato sobre Tomaz Antônio Gonzaga e sua musa, Marília de Dirceu.

Coincidência, sim. Afinal, todas as Marílias, inclusive as que inventamos para passar o tempo ou como motivo daqueles tolos mas deliciosos poemas de amor, são iguais, sempre distantes, inalcançáveis.

Muitas vezes, é melhor que as musas permaneçam afastadas para não assassinar a poesia. É comum, nessa arte de malucos e sonhadores, a personagem idealizada ser morta por suas feições reais.

Se Gonzaga a tivesse possuído, talvez Marília desaparecesse, a exemplo de tantas outras que passaram. Por isso, contento-me com a simplicidade da vista do terraço, pois, somente assim, a fantasia será eterna.

(Tibau-RN, 22.1.2002)


sábado, 27 de julho de 2013

O papa é pop


Dizem que os Engenheiros do Hawaii venderam 400 mil cópias, em 1990, do álbum "O Papa É Pop". Eu tinha um em vinil. Músicas como "O Exército De Um Homem Só", "Era um Garoto Que, Como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones" e "Pra Ser Sincero", além daquela que intitula o projeto, são ouvidas até hoje em casas noturnas do Brasil, de Norte a Sul.

O carro-chefe do disco, aqui para nós, numa interpretação ultrapessoal, critica a massificação dos fatos e das pessoas pela mídia, a ponto de tudo e todos se tornarem alvos do bem e do mal. Nem o papa João Paulo II, que "Deus deu de Graça", conforme Gonzação, foi poupado de manchetes e de "um tiro a queima roupa", afinal "o pop não poupa ninguém".

Karol Wojtyla era querido e respeitado. Ocupou o trono de Pedro por quase 27 anos, a partir de 1978. O nome dele reverberava nos templos como a do santo a que será elevado. Foi estadista, falava 13 idiomas, influenciou o fim do comunismo na Europa, aparou arestas com judeus, islâmicos, ortodoxos e anglicanos. Visitou 129 países, só o Brasil por quatro vezes.

O hino dos Engenheiros, da autoria de Humberto Gessinger, é o que vem à mente com as transformações históricas às quais assistimos desde a fumaça branca do último conclave. O chefe supremo dos católicos no Twitter, igual a qualquer cidadão, tirando onda com a brasilidade do Todo-Poderoso - "Deus é brasileiro e vocês queriam um papa?". Quem diria!

O papa Francisco é pop, muito mais que os antecessores. Sua mensagem ao Brasil foi ouvida com simpatia até por seguidores de outros credos, agnósticos, ateus. O Vaticano, acostumado a impor dogmas goela abaixo e a proteger pedófilos sob batinas, ganhou líder capaz de trazer a instituição à realidade do terceiro milênio e frear a debandada de fiéis.

Justiça seja feita a Bento XVI, que, no corajoso ato de renúncia, revelou a humildade que ninguém enxergava nele e pôs fim à ideia faraônica da infalibilidade. A humanização, no entanto, está na carne e no sangue latino de Jorge Mario Bergoglio, cujo grande desafio será colocar a instituição mais rica do Planeta a serviço dos pobres. Tomara que consiga.


sábado, 20 de julho de 2013

Bolseta Família


Um membro duro da sociedade baiana tentou pagar uma garota de programa com o cartão do Bolsa Família, em Itapetinga, cidadezinha de aproximadamente 70 mil habitantes situada a 500 e tantos quilômetros de Salvador. Aflita e se sentindo lesada, a profissional do sexo pediu ajuda aos funcionários do motel, aos berros de "Golpe! Golpe!".

O sujeito não fez por maldade, estava precisado, a perigo, matando cachorro a grito. A moça, no entanto, esclareceu que sua maquineta não serve nem para passar cartão de crédito, quanto mais de programa social do governo; e que o bacalhau, a exemplo da sacanagem que fizeram com o camarão, foi vetado enquanto possível ingrediente da cesta básica.

Não adiantou o caboclo mencionar o caráter educativo do ato, as posições ideológicas do Kama Sutra e a eficácia fisioterápica dos alongamentos noturnos. Estado de necessidade, legítima defesa, protesto contra o orgasmo supostamente fingido pela jovem, a irresignação do povo brasileiro, nada sensibilizou a interlocutora.

O recepcionista do motel, na dúvida quanto aos honorários da trabalhadora e na suspeita de que o estabelecimento ficaria no prejuízo, chamou a Polícia Militar, que, de pronto, mandou guarnição ao local. O camburão teria entrado no estabelecimento,  com sirene ligada e luzes vermelhas piscando, só para criar aquele clima fetichista.

O herói da história ainda pediu que experimentassem seu Cartão do Cidadão, aquele emitido pela Caixa Econômica para a galera consultar saldos e sacar FGST, PIS, seguro-desemprego, abono salarial, essas coisas. A dona, contudo, revelando-se antenada com as transações - bancárias! - cortou-lhe o barato sem dó nem piedade: "Na poupança não entra!".

Sobrou para o som do carro, empenhado como garantia do pagamento das duas despesas, instante em que o membro da classe operária, ainda rijo, partiu em busca de socorro financeiro. Normal, tenho notícias de amigos que, além do insucesso nas projeções, precisaram deixar relógio, celular e pneu de estepe como caução do todinho.

Não se ria, meu amigo, pois a coisa é gravíssima, virou matéria na Folha de S. Paulo, e com destaque. Até a gloriosa Polícia Civil entrou no caso com unhas e dentes. O delegado quer explicações urgentes sobre o fato de os militares não terem formalizado a ocorrência nem prendido o meliante, autor da tentativa sabe-se lá de quê.


Espera! De repente, cai-me feito farelo de telha no cocuruto, um baião das antigas: "Tem mala, malinha e maleta/ Tem bolsa, bolsinha e Bolseta". Elementar, meu caro, o crime do indigitado está em recriar um diminutivo que a sabedoria popular acata, mas o dicionário não reconhece. Delito gramatical: Tem Bolsa, Bolsinha... e Bolseta Família.


sábado, 13 de julho de 2013

A mulher do próximo


Perdoai-me, Senhor, pois eu pequei. Mas também, não cobiçar a mulher do próximo, mesmo correndo riscos, já que o próximo estava realmente próximo, seria impossível a qualquer homem que se deparasse com a dama a quem meus sentidos despiram.

Além da penumbra do ambiente sob a lua nova, a taça de vinho tinto seco e a brisa marinha, vieram aquela boca devassa e aqueles olhos malditos desafiar a insônia dos seiscentos diabos que me devora a cada domingo. Se foi uma provação, convenhamos, exagerastes na dose.

Felizes os homens que conseguem dormir aos domingos, sem precisar sair por aí, tomando uns goles para entorpecer o juízo, atrapalhando a sinfonia das corujas, ouvindo o lamento dos desgraçados, desfiando sozinho o seu próprio rosário de desejos.

Desejos que nem sempre são puros, desejos de trair o paladar misturando cachaça com coca-cola e de se apaixonar louca e alucinadamente por mulheres sem nome cujos rostos serão esquecidos ao cair do primeiro raio de Sol, na hora de voltar pra casa.

Bem-aventurados os que não se esquecem da noite passada nem perdem beijos na neblina. Malditos os que desprezam as conquistas, desgraçada aquela noite, desgraçada aquela mulher que se foi sem legitimar o meu pecado para morrer no esquecimento.

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Texto originalmente publicado no O Mossoroense, aos 5 de dezembro de 2002.

sábado, 6 de julho de 2013

QUE SORTE!


Mossoró se vê de longe. Antigamente - o antigamente da minha infância e adolescência -, a cidade só se manifestava quando o viajante cortava o lombo do Alto de São Manoel. Isso, se viesse das bandas de Assú, pois, na procedência de Tibau ou de Aracati, pelo outro lado da BR-304, as vistas alcançavam a área urbana na linha do Puxa-Boi.

Quem chegasse de Areia Branca, de Governador Dix-sept Rosado, de Apodi, de Baraúna, praticamente despencava em nossas ruas, sem aviso prévio. De Apodi, na verdade, a fábrica de cimento, que era tão longe, tão distante, tão afastada, antecipava de certa maneira o encontro, espécie de anteclímax da penetração na faixa habitada do velho município.

A geografia nos reservou um vale sem montanhas, à margem do rio hoje perene, mas poluído por todas as pessoas de todas as localidades pelas quais ele tem a má sorte de passar. Menino, escondido de meus pais, fazia festa nas águas das chuvas de verão: Barragem de Genésio, Ponte de Ferro, Centro, Paredões, e sítios de parentes e amigos.

Bem ou mal, os tempos mudaram, as coisas avançaram. A "cidadona", como a classificou o historiador Raimundo Nonato da Silva em 1919, ano de sua mudança para cá, aos 12 de idade, encaixou-se nessa definição, ganhando ares e problemas de metrópole. Cem homicídios em seis meses bastam para revelar o quanto a tribo dos monxorós "evoluiu".

Mossoró virou uma senhora exibida, cujas luzes projetadas no céu escuro parecem próximas a qualquer observador. Mesmo sob o sol nordestino "de dois canos, de tiro repetido", na expressão de João Cabral de Melo Neto, as silhuetas dos arranha-céus, aglomerados especialmente no bairro Nova Betânia, mostram-se no rastro de quilômetros.

Certa feita, passeando de bicicleta com meu filho no calçamento infernal da Amaro Duarte, para fugir do trânsito da Duodécimo e da João da Escóssia, contei-lhe, a despeito deste tema, que, na idade dele, eu brincava ali, em ruas de barro, onde acabava a cidade, onde havia matas, lagoa, currais. E ele, olhos baixos, exclamou: "Que sorte a sua!".

sábado, 29 de junho de 2013

Viva la revolución!


Protesto! Não sei o motivo, mas... protesto!

Por tudo.

Por nada.

Para entrar na moda.

Para ser phoda.

Legal.

Protesto porque a rebimboca da parafuseta, desgastada pelas elites reacionárias, afolotou-se no eixo meridional do pino da grampoula.

Em razão do endireitamento perpendicular da esquerda.

Protesto por Mossoró não ter nem ônibus para eu protestar contra o preço da passagem.

A prefeitura de todos não contratou as bailarinas do Faustão para o Mossoró Cidade Junina. Protesto.

Protesto porque o jornal, o PIG, deu conta de bombas e prisões num protesto, afinal jornal bom é jornal que diz amém e mostra o fundo das calças, sem protesto.

Pela constatação de que pimenta na democracia dos outros é refresco. É claro e escuro que protesto.

Contra o Johnnie Walker falsificado, burguês, decadente. Falso!!!

As minissaias que prometem, mas não mostram.  Pro-tes-tô! Pro-tes-tô!

A morte, que não deixa as pessoas viverem em paz.

A extinção da Família Dinossauro, a censura ao último episódio da Caverna do Dragão e o fim da Sociedade do Anel.

Comida macrobiótica, Coca-Cola diet, guaraná do amazonas light, suco de Solanum agrarium industrializado.

Lula, FHC, Marina Silva, Sarney, Renan Calheiros. Ah, Collor!

Os carapintadas, os carapálidas, os cara...

Protesto em prol de alterações filosóficas no curso do rio Apodi e pela urgente transposição da Bacia da Bosta.

Aquele batom naquela boca. Pro  tes   to.

Protesto porque Lampião nunca vence um Chuva de Bala e Jararaca vive se fazendo de santa na cidadela.

Contra as ereções involuntárias e a masturbação intelectual.

Protesto porque quero.


E pronto!

sábado, 8 de junho de 2013

"Para você não se esquecer"


Frequento o Colégio Diocesano para deixar ou pegar o caçula. Não consigo traduzir em palavras a felicidade de entrar ali, rever antigos mestres, ex-colegas cujos filhos são amigos de meus filhos, abraçar Tia Mundinha, observar Padre Sátiro orando na capela.

O contato com a escola da infância é sempre aquela festa que, na sexta-feira, ganhou dimensão especial. Tia Edina, professora de meus irmãos mais novos, aguardava-me com uma encomenda e um recado: "Mundinha disse que isto é para você não se esquecer".

Dentro do envelope branco, imediatamente aberto, a cópia xerográfica da página 5 do jornalzinho "Diocesano Informa", onde publicaram o artigo "O Diocesano do meu e de outros tempos", que escrevi há 12, 15 anos, com divulgação também no O Mossoroense.

Textozinho fraco, mas rico em sentimentos que se renovam nas gerações atuais de alunos, característica que o mantém fora da lixeira. Além disso, o carinho de Tia Mundinha, em guardá-lo tanto tempo, dá-me a ilusão de que eu não escrevia tão pior naquela época.

Impossível esquecer o Santa Luzia, 112 anos de juventude. Mesmo se não estivesse ali, em tijolo, concreto e telhas, na Doutor João Marcelino, de frente à praça Dom João Costa, "tudo lá" me parece "impregnado de eternidade", como na evocação de Manuel Bandeira.

Os corredores, as salas, o sino, o pé de manga, o cheiro do café de dona Raimunda, os pátios, as salas, os primeiros alumbramentos, as traquinagens, a humanidade pulsante, enriquecem a arquitetura espiritual das gerações de cidadãos e cidadãs que ajudou a formar.

Sinto orgulho por haver estudado no colégio de meu bisavô, dos meus avôs, de meu pai, dos meus irmãos e de meus filhos. Por outro lado, é privilégio maior ser lembrado e receber o carinho de Tia Mundinha, uma das grandes educadoras deste país chamado Mossoró.



sábado, 18 de maio de 2013

Questão de estética



Meus avós paternos mudaram-se para Natal na década de 1960, a fim de acompanhar os filhos que já se encontravam por lá, estudando. Moraram na Deodoro e, por fim, na Cônego Leão Fernandes, logradouros coincidentemente transversais da rua Mossoró.

O velho se chamava Jerônymo Lahyre de Mello Rosado. Farmacêutico e inspetor de ensino, além de boêmio inveterado, tinha vastos conhecimentos gerais e uma memória prodigiosa. No aniversário de 90 anos, três antes de nos deixar, recitou poemas de Augusto dos Anjos e explicou as declinações do Latim. Tranquilo, conciliador, era dono de um senso de humor singularíssimo, entre a gaiatice e a ingenuidade.

A jovem atendia pelo nome de Francisca Gurgel da Frota Rosado. Dona de casa, dedicou dias e noites numa máquina de costura para ajudar a garantir a educação dos filhos. Nasceu em Pau dos Ferros e lamentava-se por não conhecer a própria terra, de onde saiu criança. Braba, austera, talentosa, assisti-a ministrar cursos de pintura de vitrais - até pintei uma arara sob sua orientação - e de congelamento de alimentos, coisa inovadora no Rio Grande do Norte da época. Deixou-nos aos 87.

Faz algumas semanas, conversei sobre os dois com Ernani Rosado, logo após receber do primo uma joia de família, da qual me nomeou guardião vitalício: o caderno original dos poemas manuscritos por Jerônimo Rosado Filho, avô de Ernani, meu bisavô, acompanhado da obrigação de romper seu ineditismo, missão a ser brevemente cumprida.

Rosadinho, só para ilustrar, foi o primeiro dos 21 "numerados" de Seu Rosado, embora não tenha recebido um número por nome. Médico humanitário, poeta, colaborador de vários jornais, autor da tese "Da Bacilemia", morreu no verdor dos 30 anos.

Disse-me Ernani, na mesma oportunidade em que me designou curador da obra, que, ao se mudar da Deodoro para a Cônego Leão Fernandes, dona Francisca plantou várias samambaias em jarros e xaxins.

As plantas eram tratadas a pão de ló - sol, adubo, água fresca -, mas não se desenvolviam nem por cem e uma cocada, enquanto as da vizinha, embora sem cuidados, eram enormes, pomposas, com aqueles galhos viçosos que pareciam "trançados de cordas", fazendo jus à origem tupi de sua denominação: çama-mbai.

Certa feita, à mesa do jantar, família reunida, ela desabafou. Disse, um muito amargurada, desconhecer por qual motivo suas "pteridófitas" não respondiam ao tratamento, enquanto as da casa ao lado só faltavam falar.

Eis que o velho Lahyre, meio sem jeito, fez uma inesperada confissão e pôs fim ao mistério. Quando as samambaias começavam a crescer, para impedi-las de ultrapassar a circunferência dos jarros, ele, na melhor intenção de agradar à mulher, passava-lhes a faca, por "questão de estética".

Moral da história: o gosto, já dizia Edgar Allan Poe, é o único juiz da beleza.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O sonho



O sonho que me habita a cada instante,
Não faz muito, vestia carne e osso,
Um menino sonhando ser gigante,
Sem perceber que já era um colosso.

Passamos longas noites nas estradas,
Tangendo mil rebanhos pra Morfeu;
Varamos juntos tantas madrugadas,
Esperando a manhã que não nasceu.

O visionário alegre e mais amado,
Motivo do meu grande desatino,
Dormiu cedo num berço iluminado.

Certo de não bastarem sonhos vãos,
Arrebatou as rédeas do destino
E se fez sonho pelas próprias mãos.

sábado, 20 de abril de 2013

Livros



Casa das Lâmpadas, de David Leite, e Futebol de Mossoró, de Lupercio Luiz, chegam-me praticamente ao mesmo tempo, ambos com a elevada qualidade gráfica que caracteriza as publicações da Sarau das Letras, editora capitaneada pelo escritor Clauder Arcanjo.

Faz poucos dias, no mesmo patamar estético, veio-me Gênese, de Leonam Cunha, jovem poeta de Areia Branca que descobri ser filho do meu amigo Manoel Cunha Neto, o Souza, mas não antes de lê-lo, de maneira que não se contaminou o juízo.

Cada qual me conta um punhado de histórias, personagens, lugares, imagens. A prosa e o verso a serviço da memória e da imaginação.

As lâmpadas da casa de David Leite abrem-me portas antigas e iluminam o caminho para reencontrar pessoas queridas, a exemplo de Marieta Lima, Raibrito, João Batista Cascudo, Vingt-un Rosado, Dorian Jorge Freire. Se não falasse dos frades carmelitas, não seria dele o trabalho. E fala muito bem, com a propriedade de sempre. Há, entre fatos e gentes, fragmentos dos anos 1980, maravilha para nós, criaturas do século passado.

Para um sedentário convicto e militante da minha espécie, tudo é novidade no Futebol de Mossoró, seja história pequena ou grande. Descobri, graças a Lupercio, filho de Luiz Bolão e Maria Neuza, que a primeira bola chegou a Mossoró em 1917, trazida do Rio de Janeiro por José Fernandes de Queiroz. Humaitá e Ypiranga, os primeiros times. O jogo Flamengo x Baraúnas, em 1985, por incrível que pareça, assisti bem de pertinho, na lateral do gramado. Ainda não encontrei o gol que Etevaldo fez de cabeça após bater o escanteio. Pode estar adiante.

A gênese da poesia de Leonam Cunha é tanta coisa, tanto de imagem,  que se pode começar de qualquer parte. Da ginga com tapioca, do torto e do moderno, do ornitorrinco. Quem sabe do princípio, num hino a Epicuro e sua busca filosófica por felicidade e prazer. É para ser lido com calma, em doses, afinal o poeta, garante ele, não vai sair por aí. Aguarda paciente que as metáforas se esparramem no papel. Evoé!

Três autores de estilos e ao menos duas gerações diferentes, três maneiras de enxergar o mundo, três experiências literárias dignas, que Clauder Arcanjo escalou para o time da Sarau das Letras.

E agora, com licença que vou continuar a leitura, aproveitando a inspiração da chuva.

domingo, 14 de abril de 2013

DESCULPA DE BÊBEDO

Augusto Floriano

Boêmio, criatura infeliz!
Carrega no peito vulcão
que até cochila,
mas sempre acorda.
E quando acorda,
jorra poesia e loucura
para iluminar a noite
enquanto a mulher amada
carrega nos ombros,
entre sono e vigília,
a longa espera do amanhecer.

sábado, 23 de março de 2013

O amor das duas



Ainda estou paralisado no entreolhar daquelas duas. Tanto que há cinco noites, o mesmo sonho erótico me invade a cama, instalando-se entre mim e a mulher amada, enquanto ela dorme inocente, sem desconfiar da traição incendiando o próprio leito. Tanto que os meus dedos, rendidos à embriaguez por espasmos hormonais, confessam ao teclado do computador essas lúbricas intimidades.

As duas se cruzando num olhar são faca mirando faca, enquanto a plateia vai ao delírio, delírio contido de voyeur que não deseja nem de longe ser notado, para não interferir no jogo das feras. Belas? De que valem as belas entre as feras? Melhor as feras, o coração das feras, o sexo das feras devorando as belas. Desde menino sei que amor entre feras é mais terra, é mais peixe, é mais planta, é mais humano.

Perdoem-me os ditos puros, mas a carne que me envolve é fraca – muito fraca! – e a liberdade dos meus pensamentos é indevassável, a ponto de eu dizer, sem o confortável recurso da metáfora profunda, que mulheres que gemem na cruz e na espada são o maior tesão, a fantasia mais ou menos secreta de todo cabra macho e de muitas fêmeas no cio, fogo que devora fogo na maciez de uma língua.

Mulheres que gemem na cruz e na espada são a reencarnação da tempestade. O entreolhar daquelas duas me contou. Tempestade capaz de arrasar plantações, de sacudir montanhas, de arrancar telhados, de estremecer o corpo, devorar suspiros e desferir uivos na boca do estômago. Tempestade prenúncio de calmaria, bonança que sucede o gozo, se o orgasmo é mútuo, profundo e se completa.

Abençoa-me, Deusa da Águas Doces, pois o amor das duas é pureza. É mão dupla. É paciência. É miragem. Perdoa-me, Mãe da Natureza, por quando o amor das duas for lábio, língua, peito, quando for tremelique, quando for sacanagem, quando for mais desejo do que agora e eu morrer de tesão e de inveja, contemplando o duelo das coxas que em minhas torpes viagens já escorregam na saliva.

O amor das duas, quem me dera a graça, o pão e o vinho de morrer por um instante na conjunção daqueles seios! Ah, que os ventos me guiem nas estradas da luxúria, pelos campos selvagens do espírito onde a salvação e o pecado não oprimem o ser humano, porque estão bem acima das verdades, onde eu possa ser o mar bebendo as águas de dois rios mágicos e fundos que habitam a mesma foz.

sábado, 16 de março de 2013

Naufrágio



A onda vem, os cascos se erguem palmo e meio. Depois, quando passa, descem nos movimentos ensaiados de um balé. Sonham romper as correntes e partir para o mais do longe, voltar a lugares onde nunca estiveram, pois cada viagem ao infinito é o mesmo déjà-vu.

Incrível ser o mar aquele de há tantos séculos e, ainda assim, causar espanto a quem traz limbo e conchas no leme, marcas do tempo na lida do oceano, das viagens entre a terra e até depois da linha do horizonte, onde as vistas dos homens sem alucinação poética não alcançam.


No continente, sobre dunas imprecisas, velas dobradas, mastros arreados, apenas a maresia consola outros tantos que, infelizmente, não alcançaram a graça de serem embalados nos braços invisíveis de Iemanjá. Estes olham, invejam que nem pessoa, sonham a precisão do navegar.

Nem âncora nem chão. Melhor viver à deriva do que morrer em porto seguro. Ao sabor incontrolável do fluxo e do refluxo das águas, pode-se ao menos tropeçar displicentemente no canto das sereias, afogar-se no ar, embriagar-se no olho do furacão e gozar nas coxas dos maremotos.

Tempos atrás, quando o mundo era quadrado e acalentava um abismo em cada lado do seu fim, todos amavam o perigo, as agitações. Hoje, entretanto, preferem a segurança do estaleiro. É que a maré não está para piaba e qualquer tentação de flutuar só pode resultar naufrágio.


sábado, 2 de março de 2013

SEM SENTIDOS



Vê-se a rua vazia
por retângulos verticais,
deserta e oprimida
entre ombros de calçadas.

Surda, não quer saber
destas palavras
que rompem o silêncio
e o abismo
da mão à caneta.

Muda, de pirraça,
não fala o que já se sabe
e se insiste dessaber.
Medo da eloquência
da língua adormecida
em outros berços.

Ah, o cheiro
que entrelinha os devaneios
faz lembrar a liberdade
que fugiu janela fora.
Era como?
Perfume de madrugada
amanhecida!

Toca com a ponta dos dedos
hesitantes
o aço da solidão
em volta do pescoço,
dos punhos e tornozelos.
No outro lado,
elo após elo,
a alma,
poema concreto,
arrasta o corpo
às profundezas.

E, como se não bastasse,
este gosto de anteontem
que só foi percebido
agora.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Velhas devassas



Velhas devassas
amamentam sombras
para enganar a fome
da palavra cheia de luz.

Veneno morno
que inunda o céu da boca
e afoga a goela seca
entre o gozo e o engasgo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ESSE BLUE



Para que olhos tão azuis, menina?
Nem mesmo o céu, na sua majestade,
Numa orgia de luz, de claridade
Derrama-se em cor mais cristalina.

Diante deles, dá calor, tontura,
A boca seca, a alma se arrepia,
O juízo incendeia, a mão esfria
E o peito desembesta na loucura.

Por Deus, se recaíssem sobre mim,
Fosse em noite de Sol, dia de Lua,
Esse índigo, esse blue, o mar sem fim!

Mergulharia já, sem hesitar,
No tom sutil que agita e apazigua,
Destinado a viver ou me afogar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Memória fotográfica



Velhas palavras não enchem o bucho de uma crônica. De qualquer maneira, revendo-me na fotografia antiga postada no "Feicibuqui" por Ricardo Lopes, retratista afamado em Oropa, França e Bahia, comecei a me recordar do tempo em que andava com a barba cheia e dura - cheia de falha e dura de crescer - recitando poesias nas ruas, nos bares, nos ônibus.

E aquele encontro, hein? Parece praia, talvez Tibau. É Tibau. Dois litros de Pitu quase vazios sobre a mesa, às vistas de Telma Gurgel, Amarildo Lima, Arlete, João Eugênio, Laércio Eugênio, eu, Mazinho Viana, Tércio Pereira, Lucas, Rapozinha e o próprio Ricardo Lopes, além da criatura por trás da máquina fotográfica.

Faz 14 anos, conforme cálculos do artista plástico, ufólogo e poeta Laércio Eugênio, presidente perpétuo do Instituto Intergalático de Recuperação de Pessoas Normais, entidade que fundamos mais ou menos na época, em meio às obras do campo de pouso para discos voadores que o referido calculista construiu na laje de casa.

Requentando o verbo e os fatos, percebi o acréscimo de uns 10 quilos  de gordura e 20 centímetros de circunferência abdominal de lá para cá, depois que um observador indiscreto afirmou, para delírio da redação do jornal O Mossoroense, "Vixe, Cid era magro!". Sem problema, pois, conforme o jornalista e publicitário Stenio Urbano, que parece um sebite, homem sem barriga é homem sem história.

Sou a favor de repetirmos o encontro, a pose, o bate-papo. E até a Pitu, desde que suavizada com limão, refrigerante... Eta, diacho, tô todo arrepiado!

Precisaremos fazer adaptações. Arlete, por exemplo, não aguentará mais João Eugênio no colo, pois o cabra, então com um ano de idade, está maior do que todos os envolvidos no episódio.

Por favor, levem o violão para Mazinho, orgulho da música nordestina, parceiro de Regina Casa Forte; e um gorro diferente para Ricardo Lopes. O azul-bebê saiu de moda após longos oito anos de perseguição contra veículos e profissionais de comunicação que não aceitaram lhes mostrar o fundo das calças.

Há 14 anos, muito provavelmente em janeiro, ainda não se pensava na compra de terras à margem esquerda da Gangorra, na expectativa da duplicação da estrada decuplicar o valor do patrimônio. A galera, mesmo assim, não tinha enfado em vencer os buracos do caminho estreito, sem acostamento e mal sinalizado para encher as vistas com o mar de Tibau.

Ainda havia morros de areias coloridas. Poucos, é verdade, mas havia, entre eles o das sete cores.

O labirinto onde os namorados se perdiam, os pingas, as vertentes, a Pedra da Sereia, as jangadas, as aventuras de Jeremias, Ananias, Tidó, o peixe fresco no balaio, tudo a que o tempo deu a dimensão onírica da casa do avô de Manuel Bandeira.

A Pedra do Ceará, penetrando o oceano com seu falo argiloso nas marés cheias, ostentava certa virilidade.

Eu, impregnado de juventude, escrevia sem dar por métrica, rima, estética, amava despreocupadamente na areia da praia e vencia quixotescas batalhas contra moinhos de vento.

Quanta saudade na memória de uma fotografia. Manda outra, Ricardo Lopes, que é pra gente lembrar. E sonhar.