quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

O Pálido Olho Azul

Acabo de encontrar O Pálido Olho Azul, na Netflix, estimulado pela informação de que uma das personagens é inspirada no poeta americano Edgar Allan Poe. A trama, “suspense gótico de Scott Cooper, baseado no best-seller de Louis Bayard”, diz a sinopse, envolve assassinatos misteriosos e vingança.


Edgar Allan Poe

Mas a crônica não é sobre isso, é sobre um momento, e é sobre “Nunca mais”.

Menino – menino mesmo, em idade da qual meus três filhos já passaram de sobra –, adorava as histórias de terror contadas em um livro de capa preta, que eu não sabia ler. Nem ele nem outro. Meu pai lia para mim.

Tempos analógicos, distantes da geração dos computadores, da Internet, dos celulares e das redes sociais, quando o entretenimento virtualizado ficava por conta da TV Verdes Mares, de Fortaleza. O sinal da emissora cearense era retransmitido – não até muito tarde – sob os auspícios da prefeitura de Mossoró. 

A primeira vez que assisti à televisão de madrugada, permita-me o registro, foi em Rui Barbosa, Bahia, na casa de um tio, lembrança cujos detalhes reservo para depois. Adianto apenas que, logo na estreia, deitado no chão da sala, com almofadas de apoio, tive o privilégio de ver o épico Gengis Khan. 

Na “rádio cabeça”, só para não dizer que não falei de Chico Buarque, você mais velho talvez esteja ouvindo The Fevers cantar que o sanguinário guerreiro mongol “conquistou a China, o Afeganistão e o Irã”, além de derrotar a tropa russa e se apossar do Império Turco. 

Tá escutando aí, não tá?... 


“Gengis, Gengis, Gengis Khan

Deixa na História uma página de dor

Era o Gengis, Gengis, Gengis Khan

Foi ditador, foi herói, foi bandido

E a todos que encontrava (oh ho ho ho)

Matava e queimava (ah, ha, ha, ha)

Era o mais temido dos mortais”.




Surpreendente. Em Mossoró, acesso a filmes de maior relevância, só no Pax, no Cid e no Caiçara, se a classificação permitisse, porque os comissários de menores marcavam cerrado nas portarias dos cinemas. Lá dentro, a galera aplaudia freneticamente e festejava – Êêêêêêêêêê! – na hora da reação do mocinho contra o bandido. Se a fita do projetor se partisse, o coro troava: “É roubo! É roubo! É roubo!”.

Enfim, com o seu perdão por haver enfiado tantas narrativas no meio do caminho, a quase me perder, verdadeira encheção de linguiça, as tramas de terror que tanto adorava eram lidas em voz alta por papai. Cada dia, um capítulo de Edgar Allan Poe. Eu ficava vidrado em Histórias Extraordinárias, edição que passou a integrar o meu acervo bibliográfico. Herança de gente viva, felizmente.

Talvez o garoto nem compreendesse a complexidade dos contos. Talvez o pai nem falasse exatamente o que estava escrito ali. Imagino que retraduzia e suavizava palavras, frases, orações, transformando o português adulto em português infantil.

É, não sei ao certo, e isso não me aflige. A exatidão é o de menos. Depois dos 50, o importante é a cena imperfeita reconstruída a partir de lampejos que, embora aos trapos, preservam a essência da casa, do quarto, do menino, do homem, da voz grave, calma, pausada, terna.

São alumbramentos que passeiam entre o que havia de fato e o que se projetou por capricho das convulsões cerebrais, um tanto diferentes da percepção de Manuel Bandeira, na Última Canção do Beco. Idêntico, contudo, no critério eternidade.


“Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar.

Não como forma imperfeita

Neste mundo de aparências:

Vai ficar na eternidade,

Com seus livros, com seus quadros,

Intacto, suspenso no ar!


Muitos anos depois das Histórias Extraordinárias, adulto, morando em Natal, contratei Charles Phellan para me dar aulas de inglês. No segundo ou terceiro encontro, o professor, imediatamente convertido em amigo, presenteou-me com uma cópia xerográfica de The Raven – O Corvo – e uma fita K-7 com alguém recitando o dito poema de Edgar Allan Poe, publicado na American Review, de Nova Iorque, em 1845, antes de ganhar fama mundial.

Os primeiros tradutores de The Raven para a língua portuguesa foram ninguém mais ninguém menos que Machado de Assis, em 1883, e Fernando Pessoa, em 1929. Preciso falar mais alguma coisa? Não, mas falo de enxerido: O Corvo é referenciado em músicas, quadrinhos, séries, e conta com várias adaptações cinematográficas. Lembra do nome da escola de Wandinha Addams? Vem dele. Os Simpsons, por sinal, têm sua própria versão, com Homer entoando o eu lírico.



Eu lírico, eu poético ou sujeito lírico é a voz que sai das entranhas do poema para enunciar sentimentos, sensações. É quem fala no verso, correspondendo ao narrador no território da prosa. É como se o Grilo Falante largasse Pinóquio e se infiltrasse em Cecília Meireles para declamar O Menino Azul aos sentidos do leitor.

O eu lírico de The Raven é o viúvo pesaroso, desesperado “P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais”. O homem alucinado a conversar com um “velho corvo emigrado lá das trevas infernais”, que pousa no busto de Atena, posto nos umbrais da loucura, e se apresenta com o nome de “Nevermore”.

O texto não é leve, não é fácil. Parece ser, de qualquer maneira, uma boa porta de entrada para a obra de Edgar Allan Poe, a mim preciosa, sem demérito à genialidade do autor, pelo exato instante da infância que evoca. Espero aproveitá-lo enquanto fragmento de memória até que a ave “agoureira dos maus tempos ancestrais” se achegue aos meus ouvidos “Com aquele ‘Nunca mais’”.

Microconto nº 8


Razão e Paixão digladiavam-se nas redes antissociais. Razão não empolgava a torcida, enquanto Paixão parecia jogar em casa, em final de campeonato. Hora e meia depois do início do embate, surrada e humilhada, Razão entregou os pontos. Paixão, eufórica, correu pra galera. Razão, senhora de seus limites, sabe que jamais derrotará Paixão, por mais que vença.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Lou

A porta da redação do O Mossoroense se abre e meu amigo Luciano Lelis da Silva, maior repórter fotográfico do Rio Grande do Norte de todos os tempos, anuncia por debaixo dos vastos bigodes: “Visita para você. Doutor Lou, de Assú”. Como eu ainda apurava, redigia e editava notícias policiais, suponho que estávamos no final da década de 1980.

Foi o primeiro de três ou quatro brevíssimos encontros que tive com o lendário João Marcolino de Vasconcelos, o Lou, advogado, poeta, boêmio, escritor, jornalista, político e um dos grandes oradores a que assisti no Tribunal do Júri Popular de Mossoró, embora os processos específicos não me venham à superfície da lembrança.

Como diria Emery Costa, meu mestre e amigo, com quem tanto aprendi, “lá se vão” trinta e tantos anos, de modo que nem me sinto na obrigação de pedir desculpas por não conseguir me debruçar sobre detalhes. O importante, aqui, são os fragmentos preservados do momento, do aperto de mão, das conversas sobre jornalismo e direito penal.

Não precisa ninguém me dizer de sua generosidade intelectual. Eu a conheci. Revirando estas memórias um tanto quanto vagas, revejo aquele homem com seus 60 anos, de cultura vastíssima, conversando com um adolescente burro, rebelde sem causa e com fama de doido, posto a trabalhar no jornal da família por ser um caso perdido.

Talvez a loucura nos aproximasse. A loucura e a sensação de que a sobriedade é um porre, como me leva a crer o ex-prefeito e ex-deputado estadual Ronaldo Soares, ao afirmar que nosso amigo “não pertencia a um mundo chamado normal”, era um “Dom Quixote” a enfrentar moinhos de vento com as armas da prosa e o escudo da poesia. 

Jeová Liberado Júnior, proprietário do LaLua, bar mais astral da cidade, jornalista filho de outro jornalista, Jeová Liberato, que manteve a Tribuna do Vale em circulação por mais de 20 anos, o descreve como “figura simpática, amiga e simples” que “não escondia o inventor, poeta, escritor, radialista, advogado, escoteiro e mais uma centena de coisas”.

O artista plástico Gilvan Lopes, por sua vez, revela que Lou compôs os hinos das cidades de Areia Branca, Carnaubais e Alto do Rodrigues, além de haver atuado no teatro e publicado o livro Pé de Escada, em coautoria com Renato Caldas. Aproveitando a deixa, queria ser dono de um muro no meio do mundo para Gilvan Lopes pintar.



Juntando tudo isso, e depois de ler Crônica que Escrevi para Você, obra póstuma de João Marcolino de Vasconcelos, em exemplar raro pertencente a José Tarcísio de Sá Leitão Soares, só tenho a lamentar a insensibilidade que me impediu de conviver com ele para lá dos esbarrões no O Mossoroense e no Fórum Silveira Martins.

De consolo, réstias de recordações, a convivência com a obra e, pelo que leio, a sensação de que poderíamos ter sido bons amigos, bebido juntos e varado noites no Assú, como, aliás, tenho feito de vez em quando, nas oportunidades em que o bolso permite ou Germário abre o coração e me oferece um vale no botequim.

Evoé, Lou!


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Sobre os atos em Brasília e o crime de terrorismo

Não costumo retrucar comentários feitos em meus perfis de redes sociais. Em regra, apenas curto o que me escrevem, seja elogio ou crítica, concorde ou não concorde com o que está posto. Esse é o meu modo de agradecer pelas participações e de deixar todo mundo bastante à vontade.

Hoje, entretanto, sinto-me na obrigação de fazer alguns esclarecimentos, e começo afirmando que a postagem objeto deste texto não tem, nem de longe, o desejo de minimizar a gravidade dos atos criminosos praticados contra a democracia brasileira nesse domingo.


Postagem que deu origem a este texto.

Os golpistas responsáveis pela depredação dos prédios dos Três Poderes devem ser investigados pela polícia, denunciados após análise do Ministério Público e, se a Justiça assim o entender, condenados. Mas dentro do devido processo legal, com direito a contraditório e ampla defesa, mesmo que esses sejam mecanismos da democracia, regime que os ditos vândalos abominam.

Os rigores da lei devem ser impostos a todo aquele que, de qualquer modo, concorreu para as transgressões apuradas, na medida de sua culpabilidade, como determina o art. 29 do Código Penal (CP). Isso, logicamente, inclui coautores (executores diretos) e partícipes (sujeitos que ajudaram sem aparecer).

Em publicação anterior, enumerei uma série de delitos que podem estar configurados: dano qualificado (art. 163, parágrafo único, inciso I e III, do CP), incitação ao crime (art. 286, caput e § 1º, do CP), abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L do CP) e golpe de Estado (art. 359-M do CP).

Se o noticiário estiver correto, alguns baderneiros podem ser responsabilizados, ainda, por porte ilegal de arma de fogo (arts. 14 e 16 do Estatuto do Desarmamento), furto qualificado (art. 155, parágrafo 4º, inciso I e IV, do CP), lesão corporal (art. 129 do CP), associação criminosa (art. 288) e maus tratos a animais (art. 32 da Lei nº 9.605/1998).

Com o aprofundamento das investigações, quem sabe, as lideranças ocultas arquem com acusações de organização criminosa, nos termos da Lei nº 12.850/2013, vindo a ser constatada a existência de estrutura ordenada e divisão de tarefas, como uma “empresa antidemocrática”, com atuação em bloqueios de estradas, manifestações nos quartéis e atos violentos na capital da República.

O “patriota cagão”, merecedor de destaque especial, por representar a índole do movimento antidemocrático, pode ser responsabilizado por ato obsceno (art. 233 do CP), além dos atos de vandalismo eventualmente apurados contra ele.

O crime de terrorismo, no entanto, não me parece configurado, embora leia na Folha de S.Paulo a manchete “Presidentes dos três Poderes chamam atos de terroristas e pregam união”.

O jornal, a propósito, chegou a divulgar que cerca de 1.200 bolsonaristas que se recusaram a sair do acampamento montado nas imediações do QG do Exército seriam autuados em flagrante por terrorismo e abolição violenta da democracia. A matéria, contudo, parece ter saído do ar. “Desobedecer a ordem legal de funcionário público”, até onde aprendi na faculdade de direito, é desobediência (art. 330 do CP). 

Na perspectiva semântica, tudo bem. Concordo: são terroristas!

Embaso tal afirmação em simples consulta aos dicionários. O Houaiss define terrorista como “pessoa partidária do terrorismo ou que pratica atos de terrorismo”; enquanto o Michaelis registra terrorismo como “atitude de intolerância por parte de indivíduo ou grupo de indivíduos com aqueles que não compartilham suas convicções políticas, artísticas, religiosas etc”.

O problema é que, na perspectiva do art. 2º da Lei Antiterrorismo – Lei nº 13.260/2016 –, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em quem votei duas vezes, “terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.

A propósito, o citado art. 2º é o que se chama de norma penal explicativa, espécie que não serve para proibir condutas nem estabelecer penalidades, limitando-se a esclarecer conceitos necessários à aplicação de determinado conteúdo jurídico. Pois bem ou pois mal, a exata interpretação desse dispositivo define se a Lei Antiterrorismo se aplica ou não ao caso concreto. 

Nesse processo analítico, por mais repulsivo que seja o ato criminoso, é inviável extrair uma expressão do contexto da norma. Assim, o substantivo “religião” não pode ser isolado para abarcar o lema fascistóide “Deus, pátria e família” nem mesmo as falações “em línguas” ou as orações ensaiadas entre os destroços.

Para facilitar a compreensão, prometendo fugir do tecnicismo jurídico, separarei o art. 2º da Lei nº 13.260/2016 em quatro partes. Vamos ler juntos? 

“[1] O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, [2] por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, [3] quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, [4] expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.

Percebe qual trecho não se enquadra dos atos nefastos praticados pelos radicais bolsonaristas, em Brasília? Se não percebeu eu digo: a [2] “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, que são requisitos causais, motivos ensejadores da prática delituosa.

Não confunda. Uma coisa é a religião estar de algum modo presente nos discursos de vários dos que atacaram os Três Poderes, outra é o ataque ser motivado por discriminação ou preconceito religioso.

Por essas razões, desculpo-me pela interferência no debate e reafirmo: os “patriotas” que depredaram os Três Poderes não são terroristas à luz do direito penal, são golpistas perigosos que devem responder criminalmente pelo que fizeram, nos limites e com as garantias da Lei, em nome da democracia.


domingo, 8 de janeiro de 2023

O VALOR QUE O PEIDO TEM

Aguardava por atendimento diante do balcão da farmácia. Precisava comprar os cachetes que tomo desde os 25 anos de idade para controle da pressão arterial e do colesterol. Herança genética, segundo o cardiologista.

A fila estava parada porque uma senhora elegante, com sinais externos de hipocondria, a considerar as três cestinhas apinhadas de medicamentos, vitaminas, fitoterápicos, monopolizava a única funcionária disponível. Até Emulsão de Scott – eca! – a dondoca separara. Suspeito que este item, em especial, serviria de instrumento de tortura contra algum filho ou neto.

E eu ali, puto da vida, já pensando em mudar de fornecedor de drogas, comecei a ler anúncios colados nas prateleiras na expectativa de abstrair, quando, de repente, encontro o Luftal em promoção pela bagatela de R$ 46,00.

Inevitavelmente me veio à lembrança “O Valor que o peido tem”, de Celso da Silveira, de quem fui quase vizinho quando morei em Natal pela segunda vez, a partir de 1999. O título do livro, na verdade, é “Peido – O traque... O valor que o peido tem”, uma ode à emancipação do pum. Palavras dele:


“O peido de um general 

não pode ser comparado 

com o peido de um soldado

Que em tudo é desigual

Tem gente que peida mal,

há outros que peidam bem

Eu não conheço ninguém

que ainda não tenha peidado

Mas o povo não tem dado,

o valor que o peido tem”.


Com o Luftal em gotas ou comprimidos, de marca ou genérico, por quase 50 contos, eu mesmo já reconheço a grandiosidade da flatulência espontânea. 

Lógico, quem peida bem talvez saia por aí peidando e andando para o semelhante que vive entourido – chique, não é? Entourido! Prefiro o popular “inturido” –. Há, de fato, pessoas sádicas que não se importam com o sofrimento do pobre coitado – nada de Menino Pobrezinho, pela caridade – que sente as dores do parto sem parir, no exato instante em que a bufa resvala do tórax ao vazio, na transversal, sem encontrar a luz no fim do túnel.

Feliz era a musa de uma das mais célebres glosas fesceninas do Rio Grande do Norte, de autoria atribuída a Moyses Lopes Sesyom. De acordo com o poeta, a figura não passava tempo ruim, bastava fastar a perna de lado para fazer a terra balançar que nem os terremotos de João Câmara e Caraúbas. Diz assim:


“MOTE

O peido que a doida deu

Quase não cabe no cu


GLOSA

Isto ontem aconteceu

Debaixo da gameleira,

Foi um tiro de ronqueira

O peido que a doida deu.

A terra toda tremeu,

Abalou todo o Assú,

Ela mexendo um angu,

Puxou a perna de lado

Deu um peido tão danado

Quase não cabe no cu”.


Francisco Augusto Caldas de Amorim, na 3ª edição de “Eu conheci Sesyom”, que me foi presenteada por Fernando Tavares, atesta a autoria dos versos. A inspiradora, conforme Chisquito, foi Bandeira, mulher que habitava à sombra de um pé de gameleira que havia defronte onde veio a ser construído o Cine Pedro Amorim, em Assú/RN, nas décadas iniciais do século XX. O escritor João Ramalho, contudo, acusava Sesyom de plágio. A glosa ou o mote seria de um sujeito de Campo Grande cujo nome não recordo, embora o autor de “O beato da serra de João do Vale” sempre me falasse a respeito.

Debates à parte, e seja lá de quem for o peido da doida, só peço a Deus que me livre e guarde do entourimento – outra vez –, mas também do peido público, principalmente em tons denunciadores, ofensivos, humilhantes, que, confesso, já me pegaram desprevenido. 

Você fala e o bicho escapa semitonando. Exagero? Não! Pergunte a Deltan Dallagnol, que, em mensagem interceptada pela Vaza Jato – não é trocadilho – escreveu a frase “foi o tom do meu último peido”. Na época, a internauta Lívia Prata postou no Twitter que estava em dúvida se Deltan peida em “lá sustenido” ou “dó menor”.

Bom, o cara era procurador da República de Curitiba, renunciou para não ser punido e se elegeu deputado federal mais votado do Paraná, com quase 345 mil votos. Autarquia dessas, arrisco dizer, peida grave e grosso, em mi maior.

Pode parecer implicância. Jamais! Dou maior valor. Ruim é a sensação de querer e não poder peidar livremente. A liberdade precisa ser valorizada, tanto a dos patriotas quanto a dos esquerdistas, como também defende o grande Otacílio Batista:


“O peido é bom toda hora

Sem peido não há quem passe

A criança quando nasce

Tanto peida como chora

Um peido ao romper da aurora

Eu não troco por ninguém

Há noites que eu solto cem

Peidos grandes e pequenos

Já conheço mais ou menos

O valor que o peido tem”


Jurava que esses versos eram de Celso da Silveira. Não vou brigar com o Google, o pai de todos os burros. Ele certamente tem razão, considerando que 90% das minhas memórias são falsas e os outros 10% eu invento. De qualquer maneira, vou checar a informação em livros de “mermo-mermo”, em que a tinta sangra no papel, quando fizer bom tempo e puder entrar no quartinho em que está a minha singela biblioteca. Pode ser que os dois, Celso e Otacílio, tenham se servido do mesmo mote.

Abre parênteses.

Fiquei confuso com algo que escrevi parágrafos antes e que volta ao pensamento provocando a interrogação: bufa é manifestação da esquerda ou da direita? 

Ao alcance da mão, tenho o Houaiss, melhor dicionário da língua portuguesa da atualidade, conforme especialistas. Para ele, peidar significa “disparar peidos involuntários e repetidos”. Ou seja, um ato inconsciente coletivo que ignora a livre iniciativa, a existência e o prazer da porção unitária de gases. 

O peido, assim anunciado, só pode ser comunista, e o preço da simeticona um instrumento de exploração capitalista, mas vamos esquecer as ideologias. Deixa para lá, como diria o professor e advogado Charles Phelan, alter ego de Melissa Hofman, amante psicodélica do jornalista Jacson Damasceno.

Fecha parênteses.

Resumindo a ópera bufa – sem trocadilhos, repito – prefiro morrer entourido – ha, ha, ha, ha... ha... muito engraçado escrever desse jeito – do que pagar R$ 46,00 num frasco de Luftal. Domingo, também conhecido como hoje, amanheci na feira em busca de hortelã-pimenta, cidreira, erva-doce, camomila, louro e boldo. Estoque para dois meses garantido por menos de R$ 10,00.

Vou experimentar agora. Você não está convidado, não apareça. Quem avisa amigo é.



sábado, 7 de janeiro de 2023

Microconto nº 7

Meio quebrantado, mais ou menos capiongo, um tanto quanto bafejado pela Papary, olhou o espelho no fundo dos olhos e filosofou: “Não é fácil explicar o belo a quem só consegue enxergar o feio”.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Microconto nº 6

Deu duro o ano inteiro, com fé, obstinação, perseverança e atributos mais que se exigem da pessoa padrão, incluindo a resiliência, por ser da moda. Da última vez, comeu porco – ou suíno, na liturgia dos espetinhos –, traçou 12 uvas, engoliu um naco de romã, sem mastigar, e, trepado na mesa da sala, encheu o bucho de lentilhas. Vestia branco, é claro, e, depois dos fogos ecologicamente corretos, pulou sete ondas. Fará tudo de novo, por via das dúvidas. Quem sabe um dia...!


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

MADRUGADA


Era tarde, eu vagava pela rua 
Naquele tempo incerto, irresoluto,
Em que a hora se esvai em um minuto 
E o Sol se reencontra com a Lua.

Buscava o bar, a dose que atenua 
A ilusão que nem quero nem refuto, 
Quando diante de mim – como tributo – 
A jovem madrugada se fez nua.

Por mera displicência ou fantasia,
Trocava, ali, a tez de noite escura
Pelos trajes dourados de outro dia.

Assim, virei boêmio e, sem tabu,
Só desejo que a flor da formosura,
Da próxima, também me faça nu.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Microconto nº 5

Véspera do Natal. Acordou por volta das 6h00 da manhã chuvosa. Mesmo com aquele sem vontade, desvencilhou-se dos lençóis e da cama. Tirou as remelas dos olhos com os indicadores, mijou, cagou, jogou água no corpo, escovou os dentes, penteou os cabelos, perfumou-se, trajou-se de sábado. Saiu de casa rumo a Cheila, no Mercado Central. Em lá chegando, tomou duas talagadas de café preto, comeu uma terrina de cuscuz ensopado em graxa de galinha caipira e foi feliz pelo resto do dia.


Microconto nº 4

Trabalhar... Trabalhar... Trabalhar... a vida sem feriados, sem fins de semana, sem descanso, sem paradas... Trabalhar... Trabalhar... Trabalhar... acautelar-se, pois o tempo devora os próprios filhos... trabalhar... trabalhar... trabalhar... inadiável lidar com a impaciência dos vencimentos... trabalhar... trabalhar... trabalhar... e mais ainda trabalhar... até que a morte proporcione o merecido descanso.

Microconto nº 2

Enganava-se com dois ou três apagões de breve eternidade. Cada sensação de queda parecia-lhe uma noite inteira profundamente bem dormida. A insônia, fingindo-se de amiga, consolava-o madrugada adentro: “Deita no meu colo, bom rapaz, que te protegerei dos pesadelos”. E o bom rapaz, ingênuo, cedia devotando olheiras sinceras à terrível companheira.

Microconto nº 3

No tempo de eu menino, a cidade cabia nos meus olhos. Um dia, entretanto, ela dobrou a esquina do Rabo da Gata com trejeito de quem pretende comprar cigarro e desembestou no meio do nada. Ninguém sabe aonde foi ou se continua indo. Mesmo à noite, aqui do 19º andar, a visão se desencontra das luzes que desfilam no espinhaço do infinito. Parece que a cidade se perdeu de mim para ganhar o mundo.

Microconto nº 1

 Surgiu do nada, no meio de uma escadaria onde nunca estive. Parecia quase tão vivido quanto eu. O mesmo sorriso e os mesmos olhos, entretanto. Iluminados! Reconheci na hora, a pesar do tempo enorme. Disse que veio por obra e graça da saudade, mas não podia ficar muito. Desapareceu enquanto me abraçava.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

SABOTAGEM

E assim nasce a boemia...

O sujeito sai de casa de manhã rumo ao trabalho, em pleno feriado de Santa Luzia. 

- Espere! Você não está em Assú?

Tem razão, mas carrego Mossoró aonde vou e não perco o costume do 13 de dezembro nem por cem e uma cocada.

- Hunnn! E agora é religioso? 

Bobagem, a virgem de Siracusa é patrimônio imaterial dos mossoroenses, acima dos credos e das descrenças. 

Enfim, como dito, sai para trabalhar. De repente, minha amiga Fernanda Cristina Cosme de Sá Leitão Soares, colega de escritório de advocacia, poetisa tão grande quanto o próprio nome e ainda por cima imortal que nem o compadre Caio César Muniz, anuncia a provável chegada de Grimaldi Zacarias ao número 912 da rua Sinhazinha Wanderley. 

E chegou mesmo, certeiro igual a poesia fescenina de Sávio Tavares, de violão em punho, sabotando por completo o expediente. Aí, meu bom e minha boa, veio Chico Buarque, saiu Belchior, desceu Cartola, Gal caetaneou-se de acordes e Marisa Monte se balançou para entrar no repertório. 

Grimaldi, para constar, é dos grandes violonistas que conheço, honrando a tradição dos “ança” do Vale do Açu – Carlança, Miltança, Belinhança –, do patamar de Antero, que não é de Quental, mas é José e é dos Santos, do naipe de Mirabô Dantas e Lázaro Amaro, cabras de Areia Branca, sem dizer de Genildo e Geová Costa, esse povo maravilhoso de Grossos, e de Jacson Damasceno, baiano que Natal tomou de Catu. 

Pois bem ou pois mal, precisei beber antes de chegar aos 85 quilos. É a dieta! Prometi que só tomaria uísque novamente quando caísse de 87 para 85. Ou seja, Fernanda e Grimaldi me levaram a queimar o expediente em vez de gordura. 

Okay, Okay, Okay, confesso! A culpa é toda minha. Amanheci com o feriado de Mossoró fervilhando no Assú do meu juízo, cutucando-me as costelas, doido pra debandar largando guardanapos no Dom Pedro, em Gemário, no Bode, no La Lua, no Baronesa, na rodoviária e no Mercado do Peixe, tomando as últimas das últimas com Diá e Canarinho.

Só não completei o percurso imaginado porque, lá pelas não sei quantas, ao levantar as vistas tocadas pela pureza do malte das Terras Altas – pasmem! –, a madrugada estava nua diante deste reles mortal que vos atormenta com escrevinhações tolas.




Flagrei-a sem querer no extado instante em que ela trocava o vestido iluminado de Lua pelas vestes douradas de Sol. Completamente nua, a danada, em luz e sombras, do jeitinho que veio ao mundo. 

Acredita? 

Creia ou não, desviei o olhar para não ser indelicado com a dama que se deixou ver por acidente – suspeito inclusive que Renato Caldas fez também assim ao vislumbrar “os seios da lua amamentando uma estrela” –. Contudo, a brevíssima cena percebida sem maldade já estava tatuada em minhas retinas com pigmentos de deslumbre e decepção. 

É que sempre encarno Florbela Espanca no ódio eterno à luz e na revolta incontida contra a claridade, a não ser a dos olhos de Clarisse.

Ah! Se eu conhecesse o segredo das tintas de Rogério Dias, Laércio Eugênio, Airton Cilon, Túlio Ratto e Gilvan Lopes. Se talvez Aluísio Barros, Marcos Ferreira, Antônio Francisco ou Nildo da Pedra Branca me emprestasse um versinho, o mais piquititinho que fosse. 

Tivesse eu algum talento, a madrugada nua ganharia cores, prosa, verso, como se fosse uma noiva de Habner encantada na eternidade digital do retrato. Todavia, nem palavra seduzo mais a esta altura dos acontecimentos etílicos. As que me restam depois da curva do fundo da garrafa tropeçam nos próprios sentidos tentando acompanhar o redator cujas pegadas não encontram sequer os próprios passos.

E assim morre a crônica.



domingo, 26 de junho de 2022

In vino veritas


Falando sobre enjoos com formalidades, discursos, paletós, gravatas, fardas, fardões e camisolas de dormir, minha sensorte, Clarisse Tavares, interrompe:


- Triste do poder que não pode!


- Annhh! Como assim?, pergunto.


E a resposta, outra dúvida:


- Qual a vantagem de ser um imortal que morre?


Tomei logo um gole de uísque, embora, segundo Plínio, o Velho, a verdade esteja no vinho.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Não tenho nexo nem título

 Bárbara,

lembrei-me agora do poeta, cronista, músico e jornalista Antônio Maria, que teve o disparate de compor aquela música horrorosa “ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém de chama/ de meu amor”.

De lascar!

Puta merda!

Valei-me, Nossa Senhora.!

Bangalô três vezes!

Deus é maior!

Se bem que o cara tomou a mulher de Samuel Wainer, dono do Última Hora, jornal importante da época.

Quando me olho no espelho, as banhas rompendo os umbrais da calça, testa sebenta de gordura, só me lembro do velho Maria, meu cronista predileto.

Deveria lembrar de Eneida, sempre nua. Livre!

Tivesse ao menos o talento dele, mas não.

Um troço, uma dor de cotovelo infernal – volto ao debate sobre a música –, mas o cara era sensacional. Leiam “Diário de Antônio Maria” e “Benditas Sejam as Moças” para conferir. Obrigatório.

Dia qualquer, entrevista de emprego nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, seu conterrâneo do Pernambuco, Chatô, o Rei do Brasil, propôs o teste:

- Escreva sobre Jesus Cristo!

Maria, sem tomar fôlego, respondeu interrogativamente:

- Contra ou a favor?

Foi contratado sem a necessidade de escrever linha sequer.

Quem diabos argumentaria contra Jesus Cristo? Nem eu, ateu, graças a Deus, faria isso em circunstâncias cotidianas.

De vez em quando, convenhamos, até o cristão mais devoto pragueja contra a divindade. Faz parte.

Mas a vida – quem sabe a profissão – coloca o sujeito em circunstâncias desconcertantes que desafiam princípios.

Agora, por exemplo, aparece o diabo de um trabalho de faculdade. Tema desagradável, vago – Porra de pandemia!

E a educação nisso?

Permanecerá como antes ou a experiência dramática valeu necas de pitibiriba?

 Saltamos de 2019 para não sei quando ou qualquer dia a gente pousa na realidade?

Vou tomar dois ou três goles uísques para espantar a insônia e mergulhar nas dúvidas.

Respostas nunca me importaram.

Só delírios me conquistam.

Os seus.

"Desesperada e nua", como disse Chico a seu respeito.

domingo, 27 de março de 2022

BREVE EXERCÍCIO SOBRE ARGUMENTAÇÃO

 A argumentação é capacidade inata do ser humano. Ao nascer, instintivamente, a criança dá sinais claros sobre o que precisa, deseja, gosta, detesta, teme. Argumenta, por meio do choro, do riso, de movimentos corporais, que, embora inconscientes, não deixam de ser recursos lógicos capazes não apenas de levar o adulto à compreensão de algo, mas também de o convencer a respeito de alguma coisa.

Inicia-se ali, nas relações mais instintivas da existência, o exercício cotidiano de uma dialética que acompanha o indivíduo até o fim da vida. E mesmo além da morte, como se dá com grandes pensadores, a exemplo de Sócrates, Platão, Karl Marx, Bakhtin, Foucault, cujas ideias sobrevivem aos limites do corpo físico e se mantêm em latente dialogismo, despertando sentidos, geração a geração.

Percebe-se que a argumentação é essencial à vida em sociedade, em caráter indissociável. Naturalmente, ela ganha complexidade com o desenvolvimento das linguagens que integram a pessoa ao meio, com o apuro de marcas e mecanismos retóricos – silogismos, paradoxos, ironias, metáforas –, não sendo exagero afirmar que a experiência comunitária é um ato argumentativo por excelência.

Tudo o que faço ou deixo de fazer direciona-se ao outro, ao convencimento do outro. Eu, na verdade, arremedando Mário de Sá-Carneiro, “sou qualquer coisa de intermédio... que vai de mim para” a multidão de outros que me constituem sujeito. Mesmo na aparente concordância, eu e esses tantos outros – de mim e de além – estamos em luta infinita para estabilizar ou desconstruir enunciados.



Nas práticas acadêmicas, tais operações cognitivas ganham dupla importância: a da argumentação em si, em pleno uso, trabalhado com rigores intelectuais e certo grau de consciência retórica em prol do convencimento da comunidade científica; e a do ato ou efeito de argumentar enquanto objeto de estudo de diversos campos teóricos, como direito, filosofia, linguística, história, comunicação social.

Isso não significa que os letrados detenham a primazia da razão – a maioria, aliás, não chega à sola da apragata do repentista analfabeto –, até porque, nas democracias, em tese, a todos assiste o direito fundamental de se expressar, sem distinção de qualquer natureza, nos limites da lei, como forma de equilibrar as relações de poder. Na falta do argumento livre e plural, proliferam-se as tiranias.


sábado, 12 de março de 2022

QUALQUER PRAÇA TEM QUATRO PAREDES QUANDO O AMOR É URGENTE

Minha solidariedade aos amantes filmados na varanda do Teatro Dix-huit Rosado, em plena e benfazeja antropofagia cultural, e expostos nas redes antissociais. A mulher, dizem, com maior veemência, realçando a evolução da mentalidade do povo que se gaba de haver alistado a primeira eleitora brasileira.

Sem querer defendê-los, suponho que se imaginavam ocultados pelos tapumes que embelezam o Corredor Cultural da Rio Branco, desprovidos da vontade de ultrajar o pudor de quem publicizou a cena, insensível ao amor improrrogável, ao amor de improviso, que não sabe, não faz hora, mas teima acontecer.

Quiçá enredados por Nelson Rodrigues, percebiam-se invisíveis em “uma selva de epilépticos”; ou desejavam aplicar a tese de Jabor segundo a qual “o sexo sonha com proibições”. Para rompê-las, é claro. Talvez tenham se tornado valencianos: “cão vagabundo” e “onça-pintada” gozando metáfora na realidade.



Alguém dirá que esta crônica de meia pataca exorta a imoralidade, o pecado capital da luxúria e até o crime. Não se trata disso, e sim de expressar a sensação de que a imprudência peculiar dos amadores, se ofende alguém, ofende bem menos que a malícia do voyeur que grava e faz circular cenas de tal ordem.

É, “o Grande Irmão está de olho em você”. Há câmeras por todo lado, em todas as mãos, a serviço do público e do privado. George Orwell teria noção de que o seu Big Brother romperia os limites de Oceânia para dominar o mundo? Seria a realidade, depois de 1984, uma refração vulgar de lentes desfocadas?

Na falta de respostas, só posso dizer que transar em tempos de guerra soa como anúncio de paz, não desaforo, apesar do exibicionismo dos enamorados e da psicose dos espectadores. Além disso, qualquer praça tem quatro paredes quando o amor é urgente. E, se for a do teatro, sexo é pura expressão da arte.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

O poeta e a amiga insensível

Foto: Caio Muniz


Meu compadre Caio César Muniz, poeta que Iracema deu de mão beijada a Mossoró, desabafa no Facebook contra aparente gesto de insensibilidade literária. Ao abrir o exemplar de certo livro da autoria dele, descoberto via Google e adquirido com vistas à recomposição do próprio acervo, percebeu que o danadinho estava autografado para uma amiga. A desalmada, embora o tenha recebido de graça, pelos Correios, trocou o presente por alguns tostões.

É, Muniz, isso acontece. Tenho aqui para contar a história, a obra Assu – Gente Natureza e História, do saudoso amigo Celso da Silveira, que adquiri aos 31 de julho de 1999, em Natal. Só não lembro se no Sebo Balalaica, de Ramos; no Sebo vermelho, de Abimael Silva; ou no Sebo Lisboa, de Lisboa. Aos sábados, quando residia na capital, gostava de garimpar rarezas nas livrarias de usados antes de me abancar lá em Nazaré, no Beco da Lama.

A dedicatória enobrece o livro porque o individualiza. Aquele “Assu” destinava-se a Beltrano, “companheiro de outras jornadas”, com “o abraço do admirador” Celso. Pensei em não mostrar ao autor, com receio de parecer enredo, mas, que droga, eu também queria um oferecimento para chamar de meu. Ficou assim: “Ao grande amigo e poeta maior, Cid Augusto, com um forte abraço, agradecendo o resgate, finalmente em boas mãos”. Generoso e meio.



Outra vez, agora com certeza no Sebo Lisboa, quando ainda funcionava na Praça Padre João Maria, encontrei uma plaqueta dedicada ao mestre Raimundo Soares de Brito, na prateleira de escritores do Rio Grande do Norte. Achado surreal, pois Raibrito – quem o conheceu sabe – não se desfazia dessas coisas. Por isso, adquiri o livreto desgarrado e, dias depois, ao pisar em solo mossoroense, cuidei de reconduzi-lo são e salvo à rua Henry Koster, 23. 

Não recrimino o desapego aos livros, afinal eles foram feitos para correr de mão em mão e, quanto mais correm, mais cumprem o objetivo de semear palavras, mais fazem “o povo pensar”, como o “germe – que faz a palma” de Castro Alves. Conheço pessoas assim, que, logo após a leitura, doam ou vendem o exemplar. Carlos Drummond de Andrade, se não me fraqueja a memória, fazia isso, com a delicadeza de tirar e guardar a folha de autógrafo. 

Havia na Espanha, o Libera Libros, projeto de fomento à circulação de escritos. Seus adeptos consumiam e depois deixavam os volumes em lugares públicos. Antes, porém, colavam etiquetas fornecidas pelo site do grupo nas contracapas, com código de monitoramento, como anilhas em aves migratórias, e instruções a quem os encontrasse. Os felizardos eram impelidos, no tal rótulo, a informar onde os localizou e a deixar que seguissem o fluxo.

Então, não se ofenda com o desprendimento da moça, “Poet! My Poet!” – roubo a expressão de Charles Phelan, advogado, bardo e professor, que costuma me cumprimentar assim, brincando com o “O Captain! My Captain!”, de Walt Whitman. Ela, decerto, quis compartilhar o deslumbre de seus versos. Faça o mesmo, devolva ao seu livro as rédeas do destino. Ele ainda tem muitos olhos para ler e muitas almas para encantar pelo meio do mundo.



sábado, 12 de fevereiro de 2022

TOME O RUMO DA VENTA, CRIATURA!

 Frequento redes sociais desde o começo delas no Brasil. Tive IRC, Orkut e circulava pelos bate-papos do UOL. Muito antes, ouvia conversas no 145, o “disque-amizade”, fui PX e radioamador. Aprendi até a telegrafar com o professor Eugênio Silva Filho, no QRV Clube, ao lado de dois gênios daquela arte, Xavier Júnior e Emerson Azevedo Júnior. Sempre gostei de confabular, e alguns mecanismos facilitavam a vida do menino tímido.

A contar dos primórdios, especialmente depois que a Internet superou o grito, o tambor, a fumaça e o satélite, nunca invadi o espaço das pessoas ligadas a mim por esses elos invisíveis para falar ou escrever algo que não fosse edificante. Se discordo, não avanço o território alheio dizendo desaforos ou tentando impor meu modo de enxergar as pessoas, a religião, a política. No máximo, ofereço elementos para um debate saudável.



Minhas idiossincrasias nascem e morrem em ambiente próprio. Quem chega ao que produzo por estas bandas, vem de livre e espontânea vontade, suponho, porque gosta do que escrevo ou me tem por gente boa – Entre os tipos de jornalistas, segundo andei lendo por aí, há bons repórteres que são redatores sofríveis, ótimos redatores que são péssimos repórteres, os privilegiados que dominam as duas artes e os que são só gente boa.

Nunca temi críticas nem me ofendem pontos de vista discordantes. Do contrário, parodiando Drummond, não me contaria de peito aberto como quem grita, como quem despe a alma em praça pública. Alegro-me quando o leitor reage e fico triste, à moda Manuel Bandeira, se não tem “motivo nenhum de pranto”, de riso, de reflexão, de indignação. A única coisa exigida, em um ambiente civilizado, é a cordialidade no debate.

Em regra, não discuto comentários. Limito-me a “curti-los” em reverente agradecimento, sejam positivos ou negativos. Deixo para cada leitor a tarefa de garimpar as ideias em debate e formar sua opinião. Nunca, em hipótese alguma, vou a redes sociais de terceiros destilar impropérios. Quando surgem temas polêmicos sobre os quais desejo me posicionar, faço isso por aqui, com o zelo de não entrar na esfera pessoal de ninguém.

Mesmo assim, tenho me deparado com indivíduos que rompem as fronteiras imaginárias da Web e, embora sem vinculação às minhas mídias sociais, alguns escondidos por trás de identidades falsas, tentam me constranger com indelicadezas. Certa feita, vi-me obrigado a “privatizar” o Instagram e o Facebook, pois, além de agressões gratuitas, robôs passaram a disparar contra mim e meus amigos, a ponto de fazer eu me sentir na Matrix.

Estranho. Freudiano, talvez. Se fulano ou beltrana não gosta de quem sou, do sobrenome que tenho, da minha descrença ou ideologia, do que penso, da prosa e do verso que entorno pelos bares, da coragem de quebrar tabus e da louca paixão pela liberdade, por que cargas d’água perde tempo comigo? Crie tenência, criatura, tome o rumo da venta, porque a única resposta que terá de mim será a eloquente explosão do silêncio.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

LÁ VEM O SOL ou TERÇA-FEIRA, 1º DE FEVEREIRO DE 2022

 Não devo reclamar da vida. Afinal, se passo por dificuldades financeiras, isso se deve a incompetência de minha parte, por nunca haver me preocupado com cargos, bens e valores. Desde que resolvi caminhar com as próprias pernas, lá pelos 17 anos, raros foram os períodos de tranquilidade financeira. Também, com as minhas inconstâncias matrimoniais e suas repercussões econômicas, como diabos alguém prosperaria?

O fato é que estou aqui, às 4h02min, segundo me diz o relógio do computador, sem conseguir dormir, apavorado com as contas do início do mês, o vencimento do cartão de crédito e o estouro do cheque especial. A solução talvez fosse vender alguns livros e discos. Não, Cascudo, Florbela, Manoel de Barros, Dante, Foucault não têm nada a ver com isso. E os Beatles? Chico Buarque muito menos, no vinil que ainda toca com açúcar e com afeto.

Podia ter tomado uns tragos para entorpecer as ideais. Ontem foi segunda-feira e creio haver um restinho de Ypioca prata no congelador. Não deu. Acabo de sair da covid-19, após 13 dias de molho, completados hoje, e, apesar de já assintomático, optei por protelar o retorno às atividades etílicas até o final de semana. Além disso, não pareceu que cachaça cairia bem, porque é só pensar na garrafa para a saliva descer gritando “u-ís-que”!

A grana por enquanto não dá para o uísque, cuja idade diminui a cada ano. Privilegiemos a Cosern, que mensalmente nos assalta com suas bandeiras amarelas e vermelhas, que chegam a aproximadamente 20% do valor da fatura. Ah, nem vou dizer da gasolina, que não demora vai bater os R$ 8,00 – oito contos, como afirmaria Abimael do Sebo Vermelho. O carro está na garagem e só circula em momentos necessários ou especiais.

Quando concluí o curso de direito e superei o Exame da OAB, pensei que os tempos incertos do jornalismo transformar-se-iam em lembranças engraçadas – fiz até essa mesóclise para intercalar a saudade que sinto dos salários atrasados do O Mossoroense –. A advocacia é uma gangorra para quem não tem clientes fixos nem desenvolveu o espírito empreendedor, a exemplo deste indivíduo que vos escreve, ainda insone, já às 5h00min.

Tudo bem. Não me queixo. Ainda jovem, no verdor da adolescência, li Francisco Otaviano e decidi não passar pela vida em branca nuvem.  Se me faltam tostões a esta altura do campeonato, sobram-me lembranças de amores e madrugadas, patrimônios imateriais da boemia, sem dizer do talento para cultivar ilusões no terreno seco dos desenganos. Espera! Deixa abrir a janela. É, o Sol nasceu pálido, mas os pássaros garantem a claridade.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ASSÚ É BOM, EU POSSO AFIRMAR!

Testemunhei certa vez, logo que me transferi para morar um tempo em Natal, no fim da década de 1990, início dos anos 2000, o debate acalorado entre os poetas Pedro Grilo Neto e Celso da Silveira, ambos meus amigos queridos, sobre a grafia de “Assu”, na visão deste; e de “Açu”, na perspectiva daquele. 

Grilo continua lúcido, ostentando seu elegante sombreiro mexicano, produzindo e esbanjando poesia aos 85 anos de idade. Dia desses, passando pela escadaria de Mãe Luiza, desejei subir até a rua Guanabara para abraçá-lo. Recuei, entretanto, para não o colocar em risco. Tempos de pandemia.

Celso morreu em 2005, no comecinho de janeiro, período no qual deixava sua residência, na Alexandrino de Alencar, e tomava o rumo de Tibau, o “de Mossoró” ou “do Norte”, como dizem para distinguir de Tibau do Sul. A casa de veraneio ficava no Centro e tinha uma piscina que mal o cabia dentro.

Voltando ao diálogo dos vates, Pedro Grilo defendia a grafia Açu, a exemplo de muita gente boa e devota da Irmã Lindalva, centrado em fatores gramaticais. Celso da Silveira, assuense – ou açuense – da gema, recorria à lei de criação do município, carinhosamente emoldurada e pregada na parede.


Pedro Grilo Neto (Fonte: Facebook)


Deífilo Gurgel e Celso da Silveira (Foto: Alex Gurgel)

Detalhe interessante: nos seus livros, Celso grafa Assu, com dois esses, sem acento agudo na letra “u”, enquanto a Lei nº 24, de 16 de outubro de 1845, a da parede, eleva “à categoria de Cidade a Vila Nova de Princeza, com a denominação de Cidade do Assú”, redigido desse jeito, com “ú” acentuado.

Fórmula idêntica pode ser observada na Lei nº 13, de 11 de março de 1835, aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e sancionada pelo presidente da província, o pernambucano Basilio Quaresma Torreão. Por meio dela, criou-se a “Comarca do Assú” há quase 187 anos.




Já a Lei Orgânica Municipal, promulgada aos 30 de março de 1990, no rasto da Constituição Federal de 1988, tentou oficializar Assu, por meio de emenda proposta por Domicito Soares Filgueira, presidente da Câmara de Vereadores, seguindo a sugestão de ninguém menos que Celso da Silveira. 

O debate me remete à teoria de um antigo colega de trabalho, dos bons tempos do jornal O Mossoroense. O rapaz afirmava ter aprendido na aula de Português que a aposição de acento circunflexo em Antônio dependeria da idade do sujeito. Abaixo dos 30 anos seria Antonio e, depois disso, Antônio.

Brincadeiras à parte, a polêmica pode ser fruto do acordo ortográfico celebrado entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, em 1931. Levanto a hipótese porque tal deliberação também suscitou questionamentos sobre Mossoró com “ss” ou Moçoró “simplificado” com “ç”.

Talvez remonte há um pouco antes, 1911, ano em que a Academia de Ciências de Lisboa fez a primeira reforma ortográfica da língua portuguesa visando normalizar o idioma. Apesar de unilateral, o documento serviu de base para todas as convenções do gênero que se seguiram na comunidade lusófona.

“Como regra geral”, diz a proposta portuguesa, “ce, ci, -ç- correspondem a ce, ci, ti latinos, a ce, ci, za, zo, zu do castelhano actual, a ss arábicos, ou pertencem a vocábulos de origem americana indígena, transcritos pelos autores peninsulares”, formalismo reconhecido e utilizado até a atualidade.

Sem querer me alongar nesse aspecto, parece de bom alvitre esclarecer que o acordo ortográfico de 1931 – com perdão do trocadilho – resultou em desacordo, considerando que Portugal em 1940 e Brasil em 1943 tiraram dele interpretações divergentes que só vieram a ser unificadas em 1945.

Segundo as regras de padronização e simplificação estabelecidas pelo acordo de 1931, consolidado para nós no formulário ortográfico de 1943, realmente teríamos de escrever Moçoró, como chegaram a fazer expoentes do jornalismo e da cultura norte-rio-grandenses, nas décadas de 1960 e 1970.

Situação intrigante envolve o título de um conto do poeta Carlos Drummond de Andrade, que aparece como “Lavadeiras de Mossoró” na edição de 17 de julho de 1979, do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro; e se transforma em “Lavadeiras de Moçoró” no livro Contos Plausíveis, datado de 1981.


O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou o conto as “Lavadeiras de Moçoró” na edição de 17 de julho de 1979 do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. O texto foi reproduzido no livro Contos Plausíveis, de 1981, em que aparece também o “Lavadeiras de Moçoró – II”.


Ocorre que, segundo a versão tupiniquim, “topônimos de tradição histórica secular não sofrem alteração alguma na sua grafia, quando já esteja consagrada pelo consenso diuturno dos brasileiros”. O termo “secular”, por sinal, não remete a período de 100 anos, e sim a coisa bastante antiga. 

Desse modo, venceu Mossoró pela mesma razão do Assú. Este, dizem, após consulta do então prefeito Ronaldo Soares a Luís da Câmara Cascudo, nos anos 1980. Para o historiador oficial do Natal, a escrita correta seria aquela contida na lei de criação da cidade, por ser a certidão de nascimento do lugar.

Na falta de intimidade para perguntar a Ronaldo, e sem poder sair de casa por estar com covid-19, pedi ajuda ao jornalista, historiador e poeta Ivan Pinheiro, o Oráculo do Assú. Sem demora, ele me respondeu por WhatsApp que o alcaide submeteu de fato a dúvida a alguém, só não sabe se a Cascudo.

Indaguei ainda se havia emenda à Lei Orgânica acrescentando o acento no “ú”, posto que o texto de 1990 oficializava a escrita Assu. Na ótica de Ivan, esse dispositivo específico da legislação municipal é inválido, considerando que nomes de municípios somente assembleias legislativas podem modificar.

E tem razão. Basta lembrar o processo por meio do qual Augusto Severo voltou a ser Campo Grande. A Assembleia do RN pediu ao TRE que realizasse plebiscito e, pelo desejo de 95,75% do eleitorado local, aprovou a Lei Ordinária nº 10.501, sancionada em abril de 2019 pela governadora Fátima Bezerra.

De toda sorte, a lição atribuída a Cascudo aplica-se igualmente a nomes e sobrenomes. Os Escóssias, por exemplo, mantêm os dois esses desde o século XIX, obedientes ao registro de João da Escóssia, o primeiro de nós, assim como “Sid” ou “Cid” será definido pela grafia averbada em cartório.


Livro de minha autoria sobre a família Escóssia


Abre parêntese. Aproveito a citação a meu nome, tirada de um exemplo de Ivan Pinheiro, nas críticas aos originais deste artigo que se pretendia crônica, para dizer que, na dicção escorreita do acordo de 1945, “o d é sempre pronunciado” no “antropónimo Cid”. Chique, não? Fecha o parêntese. 

Em Mossoró não se fez tanto barulho a favor do “ç”, apesar do registro da Wikipedia de que que, pelas “atuais regras de ortografia da língua portuguesa, a grafia correta é Moçoró, pois prescreve-se o uso da letra ‘ç’ para palavras de origem tupi”. Na verdade, para as palavras indígenas, de modo geral.

Em Assú, a peleja continua. O município fechou questão com “ss” e acento no “ú”, a despeito de os adeptos do cê-cedilha terem apoio de outros órgãos públicos, entre os quais o poderoso Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que registra o topônimo “Açu” e indica “açuense” como gentílico. 

O Houaiss, meu dicionário predileto, a exemplo do Aulete Digital, define “açuense” como “relativo a Açu RN”. Por outro lado, ao ocupar-se da etimologia, esclarece haver anotações da forma histórica “assuense” desde o longínquo 1845, ao passo que o primeiro registro de “açuense” só aparece em 1948.

Há quem diga não se tratar de mero capricho linguístico, e sim de respeitar a melhor tradição, uma vez que, antes mesmo da Vila Nova da Princesa, o lugar era chamado pelos índios, seus primeiros habitantes, de “taba-açu”, que muitos se aventuram a traduzir, com amparo no tupi, como “aldeia grande”.


Dicionário Houaiss


Vejo com descrença qualquer esforço de tradução dos topônimos do sertão do RN com base nas línguas dos troncos tupi e guarani, inerentes a indígenas do litoral, porque aqui viviam tribos tapuias. O verbete “tapuia”, a propósito, é tupi e era usado por seus falantes para se referir a “índios bárbaros”.

Também não tenho certeza se os ditos “autores peninsulares” referidos nas normas traçadas para o português de Portugal em 1910, a maioria com atuação no século XVII, grafavam “taba-açu”, “taba-assú”, “taba-assu”, e se tinham por base o tupi, porquanto “língua geral”, ou algum idioma exclusivo. 

O fato é que as várias práticas linguageiras dos povos do interior, com repertório, gramática e fonologia próprios, não foram preservados. Conforme o mestre Olavo de Medeiros Filho, apenas alguns lexemas foram catalogados, de modo esparso. Mossoró e Assú, infelizmente, não integram esse rol.

A título de curiosidade, ainda de acordo com Olavo, nosso maior historiador na concepção do professor Vingt-un Rosado, “o acampamento principal do rei Janduí ficava localizado no rio Otschunogh (Açu), cujo vale recebia o nome de Kuniangeya”. A lagoa do Piató, por sua vez, era chamada Bayatagh.

Não devia tomar partido, mas, com as licenças de Grilo e de Celso, fico com Assú, pela “certidão de nascimento”. E o faço sem remorso, pois, com “ç” ou “ss”, com ou sem acento no “u”, Sinhazinha tem razão: “Assú é bom, eu posso afirmar!”. E viva a Terra dos Poetas!... Epa, não seria a Terra da Poesia?






domingo, 23 de janeiro de 2022

O SABIÁ

Sabiá da Costa é um talentoso percussionista mossoroense, lá do Rabo da Gata, que vive há anos na Alemanha.

Sempre em dezembro, pousa por aqui para participar dos festejos de Santa Luzia. No dia 13, vai à procissão da padroeira tangendo o cortejo de meninos e meninas aos quais ensina carinhosamente sua arte, como forma de inclusão social.

Certa vez, sabedor de que estava por Mossoró, fui abraçá-lo. Sai da casa dele maravilhado com os sons, os ritmos, as sensações, as imagens, e escrevi um poeminha em homenagem ao velho amigo, retratando nosso reencontro.


O SABIÁ

vi o Sabiá

da Costa

do Mar

do Norte

pousar no Rabo da Gata

um trem

de tambores

de apitos

de caxixis

reger baobás

no meio

do mundo

tanger os moleques

pra Santa Luzia

plantar vendavais

na Praça “Pedão”

colher oceanos

em ondas gigantes

do chão sertanejo

do velho quintal

de dona Teresinha.


De repente, logo depois da publicação no Facebook, entrou em cena outro grande músico, Geová Costa, que deu melodia àquelas letrinhas acanhadas.

Já estava bastante satisfeito com o resultado, mas, há pouco, recebi de Geová um vídeo em que ele e Sabiá tocam e cantam juntos os ditos versos. 

Agora, além de feliz, estou emocionado e divido com você este momento.




domingo, 16 de janeiro de 2022

UMA CACHAÇA NO INFERNO


O professor José Ricardo da Silveira esteve sexta-feira no meu escritório. Papo vai, papo vem, lembramos de Raimundo Nonato da Silva, talvez o maior escritor do nosso Estado. Nonato nasceu em Martins, mudou-se para Mossoró ainda menino, na condição de retirante da seca, e viveu muitos anos no Rio de Janeiro, mas sem nunca perder o liame telúrico com o sertão potiguar.

Vinha habitualmente à Terra de Santa Luzia para os festejos do 30 de Setembro, em homenagem à libertação dos escravos cinco anos antes da Lei Áurea, resultante dos eventos de 1873. A redação do O Mossoroense era pouso obrigatório, sempre na companhia do mestre Raimundo Soares de Brito. Os dois foram colaboradores do secular jornal de Jeremias da Rocha Nogueira.

Guardo com carinho o retrato em preto e branco feito pelo amigo Luciano Lellys, no qual aparecemos os três no sofá da sala da editoria. Da esquerda para a direita, Raibrito, Nonato e eu, que ainda usava barbicha, um bigodinho cafona e óculos de psicopata americano. Quanto às roupas, continuo a me vestir do mesmíssimo jeito, de calças jeans, camiseta sem detalhes e tênis.



No dia da foto, conversamos a manhã toda. Pouco antes das 12h00min, saímos a pé, atravessamos o beco da casa de Seu Elizeu, pai de Emery Costa, ali por trás da agência central dos Correios; contornamos a Praça Vigário Antônio Joaquim pela calçada da Livraria Independência, da Rádio Rural, da Banca de Zé Maria, do Oitão, e fomos tomar umas depois do adro da Catedral.

Esqueci o nome do quiosque, um trailer, na verdade, estacionado na Praça Dix-sept Rosado, sem mesas ou cadeiras, exceto os bancos altos juntos ao balcão. Jamais esquecerei, entretanto, do suor frio descendo pelas costas, do pescoço ao mucumbu, em resposta imediata ao copo de pinga entornado goela abaixo, em pé, com o sol do Centro de Mossoró dando de paulada na moleira.

Desconheço a razão de Mário Cesariny haver traduzido como Uma cerveja no inferno, o título do livro Une saison en enfer, de Arthur Rimbaud, visto que saison, ao pé da letra, seria temporada. Aliás, se não divago na memória, li certa vez que a expressão remeteria ao modo de servir cerveja em Charleville, cidade natal do poeta francês que comercializava café e traficava armas de fogo.

Fosse Uma cachaça no inferno, diria que o tradutor lusitano andou bebendo aguardente por aqui, no mesmo lugar e nas mesmas condições climáticas que enfrentei lá pelo final da década de 1980. Depois daquilo, passei a me furtar de aventuras etílicas matinais ou vespertinas e me apaixonei pela noite, que me embriaga sem pressa, com a ternura das estrelas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

JORNALISMO "PEI BUFO"


Às vezes penso que o desejo de escrever “já se apagou em mim”, como “a luz do cabaré” no Tango pra Tereza, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Nada do que lembro, vejo ou sinto parece caber nas palavras, que talvez tenham se esgotado quando me perdi do jornalismo e caí no silêncio engravatado de um escritório. Sinto falta do frenesi das redações, do barulho das pessoas e das máquinas, do cheiro único de quando a tinta sangrava da impressora sobre o papel e o engravidava de ideias.

Por outro lado, não me enxergo no jornalismo “pei bufo” das redes sociais. Sinal de velhice, talvez, afinal nasci no século XX, sou membro da Geração X, além de, aos 50 anos, haver me tornado cringe – vergonhoso, para os “Z” e os “millenials” – por gostar de café, sexo, drogas lícitas e Rock and Roll. Para completar, estou 15 quilos mais gordo, motivo pelo qual, por maior que seja a ginástica semântica, os atuais contornos dessas mídias não me abarcariam a cinturinha sem fustigar a consciência.

Tirando honrosas e felizes exceções, a notícia ganhou a proporção de um pires de lágrimas, mas com profundidade suficiente para afogar a verdade, que agora é espancada, espezinhada, violentada, quando não assassinada a sangue frio e sua morte repercutida com alarde, ene vezes, com especulações tanto sacanas quanto escrotas. A velocidade e a extensão disso, só sente quem sofre a danação eterna. É o fogo do inferno queimando a honra, a alma e os ossos de culpados e inocentes.


Imagem gratuita do Pixabay









Imagem gratuita fornecida pelo Pixabay


Imagine abrir o celular após longa noite de sono e se deparar com o relato da própria morte estampada em perfis de redes sociais e blogs. Mesmo dormindo, as informações dão conta de que você integrava gangue de perigosos ladrões de banco cujos integrantes sucumbiram em confronto com a polícia há poucas horas, a quilômetros de distância de sua cama. Seu papel na associação criminosa era o de “explosivista”, embora não tenha destreza sequer para soltar chumbinho no São João.

Para piorar, vem a descoberta de que vários incautos repostaram a barrigada sem o menor senso de responsabilidade – barrigada, registra-se, significa erro grosseiro na linguagem jornalística do século anterior –. A fake news deu cria, ganhou o mundo. A partir de agora, o tempo todo, você precisará provar duas coisas a conhecidos e estranhos: que não é criminoso e que o interlocutor, confuso, não está de conversê com a alma penada do cabra defuntado no bala-vai-bala-vem com forças estatais.

Fico logo enjoado. Sorte que Lázaro Amaro arrastou o violão antes de eu começar a dizer como mentiras midiatizadas podem literalmente matar. Ouço o dedilhado de “Zará Tempo”, samba que vem por aí; e a onomatopeia do uísque meando a caneca. Lázaro e eu fazemos uns troços juntos na poesia, na música, na boêmia. Temos ainda o privilégio de defender o bom jornalismo advogando para profissionais éticos que buscam a realidade e fazem da crítica uma arte. E assim, a luta continua.


 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

JARARACA


No sertão, quando os céus não choram chuvas

E o vento espalha o pó dos boqueirões,

Chovem balas e brotam Lampiões

Dos túmulos dos olhos das viúvas.

 

Há sujeito que é gente e é serpente,

Matador diabólico, infernal,

Que despacha culpado ou inocente

No veneno do brilho do punhal.

 

Jararaca rebenta as terras mortas

Por veredas um tanto quanto tortas

No seu rastro de sangue, ferro e fogo.

 

Se ele morre, renasce em outro canto

Ou então vai ao céu e muda o jogo

Volta aqui, faz milagre e vira santo.

sábado, 8 de janeiro de 2022

ZARÁ TEMPO!


Antes de tudo e bem pra lá do nada,

Quando sequer no mundo havia gente,

O tempo já regia, onipresente,

A evolução da orquestra alucinada.

 

Maestro de tambores e destinos,

Dos raios, dos trovões, dos evangelhos;

No seu passo, meninos nascem velhos

E velhos, de repente, são meninos.

 

Rei dos ventos, senhor das estações,

Criador de alegrias e aflições,

Que tanto fere quanto regenera.

 

Zará Tempo! arquiteto de universos,

Rogo a ti um senão de primavera

Para florir o outono dos meus versos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

SEM MEIOS-TERMOS


Meu sonho é ler você sem meios-termos,

Captar seus pensamentos cabeludos,

Colher com dedos longos e desnudos

O arrepio escondido em versos ermos.

 

Se deixar, falo! Roubo-lhe as ideias,

Marco páginas, grifo as entrelinhas

Que nos levam a mares, odisseias,

A ninfas tanto putas quanto minhas.

 

Quero também beber daquelas prosas,

Feitiços de palavras e sentidos,

Metáforas devassas, sinuosas.

 

E na literatura dos seus “ais”,

Misturar rimas pobres com gemidos

Seduzindo canções nos vendavais.

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

DE ONTEM PARA HOJE

O cheiro morno e pálido de urina,

O fumo enlouquecendo a vizinhança,

Uma vala escavada na lembrança,

Tantos sonhos jogados na latrina.

 

Talagada de chumbo na garganta,

A cachaça descendo pela espinha,

O traste de calcinha amarelinha,

O satanás passando-se por santa.

 

A noite ministrada pela veia,

Madrugada em azul bossa-novista,

O sol assassinando a lua-cheia.

 

A cidade está clara, está vazia,

Apagaram-se as cores de um artista,

Mundo não é mais mundo. Já é dia!

sábado, 25 de setembro de 2021

101 ANOS DE 21 ROSADO

 Nunca me lembro dos aniversários das pessoas, apesar dos avisos do Facebook. E isso inclui pai, mãe, irmãos, mulher e filhos. Beirando meio século de vida, às vésperas do exame anual de próstata, até a minha data natalícia tenho feito questão de esquecer.

Portanto, não vou mentir dizendo que recordei assim, do nada, como que tomado por uma epifania. Foi Caio César Muniz quem me escreveu ontem: “Poeta, lembrando: amanhã 101 anos de Vingt-un”.

Todo mundo elege um “braço direito”. Vingt-un, pela deficiência auditiva acentuada, precisava, na verdade, de um “ouvido direito”, que era o bom e velho Muniz, versejador inspirado, jornalista competente, editor, boêmio e mais um monte de coisa.

Tenho o privilégio de os haver apresentado, um ao outro. Depois conto essa história, que, de tão maravilhosa, merece espaço próprio.




Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, caçula dos 21 filhos de Jerônimo e Isaura Rosado, foi quem inventou a expressão “País de Mossoró”, inspirou a criação da Esam – hoje Ufersa –, da Biblioteca Ney Pontes Duarte, do Museu Lauro da Escóssia e de tantas outras instituições culturais, sendo a maior delas a Coleção Mossoroense, com milhares de títulos publicados.

Era meu tio-avô e, apesar da diferença de idade, fomos grandes amigos. Tanto que, certa vez, mandou deixar um livro para mim, na redação do jornal O Mossoroense, com uma dedicatória que demorei a decifrar – porque a letra dele, como afirmava Cascudo, era ruim até escrita à máquina –, mas que dizia: “Quem disse que eram 21? Você é o 22”.

Saudade de você, meu tio, meu mestre, meu amigo. E meu irmão.