sábado, 27 de julho de 2013

O papa é pop


Dizem que os Engenheiros do Hawaii venderam 400 mil cópias, em 1990, do álbum "O Papa É Pop". Eu tinha um em vinil. Músicas como "O Exército De Um Homem Só", "Era um Garoto Que, Como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones" e "Pra Ser Sincero", além daquela que intitula o projeto, são ouvidas até hoje em casas noturnas do Brasil, de Norte a Sul.

O carro-chefe do disco, aqui para nós, numa interpretação ultrapessoal, critica a massificação dos fatos e das pessoas pela mídia, a ponto de tudo e todos se tornarem alvos do bem e do mal. Nem o papa João Paulo II, que "Deus deu de Graça", conforme Gonzação, foi poupado de manchetes e de "um tiro a queima roupa", afinal "o pop não poupa ninguém".

Karol Wojtyla era querido e respeitado. Ocupou o trono de Pedro por quase 27 anos, a partir de 1978. O nome dele reverberava nos templos como a do santo a que será elevado. Foi estadista, falava 13 idiomas, influenciou o fim do comunismo na Europa, aparou arestas com judeus, islâmicos, ortodoxos e anglicanos. Visitou 129 países, só o Brasil por quatro vezes.

O hino dos Engenheiros, da autoria de Humberto Gessinger, é o que vem à mente com as transformações históricas às quais assistimos desde a fumaça branca do último conclave. O chefe supremo dos católicos no Twitter, igual a qualquer cidadão, tirando onda com a brasilidade do Todo-Poderoso - "Deus é brasileiro e vocês queriam um papa?". Quem diria!

O papa Francisco é pop, muito mais que os antecessores. Sua mensagem ao Brasil foi ouvida com simpatia até por seguidores de outros credos, agnósticos, ateus. O Vaticano, acostumado a impor dogmas goela abaixo e a proteger pedófilos sob batinas, ganhou líder capaz de trazer a instituição à realidade do terceiro milênio e frear a debandada de fiéis.

Justiça seja feita a Bento XVI, que, no corajoso ato de renúncia, revelou a humildade que ninguém enxergava nele e pôs fim à ideia faraônica da infalibilidade. A humanização, no entanto, está na carne e no sangue latino de Jorge Mario Bergoglio, cujo grande desafio será colocar a instituição mais rica do Planeta a serviço dos pobres. Tomara que consiga.


sábado, 20 de julho de 2013

Bolseta Família


Um membro duro da sociedade baiana tentou pagar uma garota de programa com o cartão do Bolsa Família, em Itapetinga, cidadezinha de aproximadamente 70 mil habitantes situada a 500 e tantos quilômetros de Salvador. Aflita e se sentindo lesada, a profissional do sexo pediu ajuda aos funcionários do motel, aos berros de "Golpe! Golpe!".

O sujeito não fez por maldade, estava precisado, a perigo, matando cachorro a grito. A moça, no entanto, esclareceu que sua maquineta não serve nem para passar cartão de crédito, quanto mais de programa social do governo; e que o bacalhau, a exemplo da sacanagem que fizeram com o camarão, foi vetado enquanto possível ingrediente da cesta básica.

Não adiantou o caboclo mencionar o caráter educativo do ato, as posições ideológicas do Kama Sutra e a eficácia fisioterápica dos alongamentos noturnos. Estado de necessidade, legítima defesa, protesto contra o orgasmo supostamente fingido pela jovem, a irresignação do povo brasileiro, nada sensibilizou a interlocutora.

O recepcionista do motel, na dúvida quanto aos honorários da trabalhadora e na suspeita de que o estabelecimento ficaria no prejuízo, chamou a Polícia Militar, que, de pronto, mandou guarnição ao local. O camburão teria entrado no estabelecimento,  com sirene ligada e luzes vermelhas piscando, só para criar aquele clima fetichista.

O herói da história ainda pediu que experimentassem seu Cartão do Cidadão, aquele emitido pela Caixa Econômica para a galera consultar saldos e sacar FGST, PIS, seguro-desemprego, abono salarial, essas coisas. A dona, contudo, revelando-se antenada com as transações - bancárias! - cortou-lhe o barato sem dó nem piedade: "Na poupança não entra!".

Sobrou para o som do carro, empenhado como garantia do pagamento das duas despesas, instante em que o membro da classe operária, ainda rijo, partiu em busca de socorro financeiro. Normal, tenho notícias de amigos que, além do insucesso nas projeções, precisaram deixar relógio, celular e pneu de estepe como caução do todinho.

Não se ria, meu amigo, pois a coisa é gravíssima, virou matéria na Folha de S. Paulo, e com destaque. Até a gloriosa Polícia Civil entrou no caso com unhas e dentes. O delegado quer explicações urgentes sobre o fato de os militares não terem formalizado a ocorrência nem prendido o meliante, autor da tentativa sabe-se lá de quê.


Espera! De repente, cai-me feito farelo de telha no cocuruto, um baião das antigas: "Tem mala, malinha e maleta/ Tem bolsa, bolsinha e Bolseta". Elementar, meu caro, o crime do indigitado está em recriar um diminutivo que a sabedoria popular acata, mas o dicionário não reconhece. Delito gramatical: Tem Bolsa, Bolsinha... e Bolseta Família.


sábado, 13 de julho de 2013

A mulher do próximo


Perdoai-me, Senhor, pois eu pequei. Mas também, não cobiçar a mulher do próximo, mesmo correndo riscos, já que o próximo estava realmente próximo, seria impossível a qualquer homem que se deparasse com a dama a quem meus sentidos despiram.

Além da penumbra do ambiente sob a lua nova, a taça de vinho tinto seco e a brisa marinha, vieram aquela boca devassa e aqueles olhos malditos desafiar a insônia dos seiscentos diabos que me devora a cada domingo. Se foi uma provação, convenhamos, exagerastes na dose.

Felizes os homens que conseguem dormir aos domingos, sem precisar sair por aí, tomando uns goles para entorpecer o juízo, atrapalhando a sinfonia das corujas, ouvindo o lamento dos desgraçados, desfiando sozinho o seu próprio rosário de desejos.

Desejos que nem sempre são puros, desejos de trair o paladar misturando cachaça com coca-cola e de se apaixonar louca e alucinadamente por mulheres sem nome cujos rostos serão esquecidos ao cair do primeiro raio de Sol, na hora de voltar pra casa.

Bem-aventurados os que não se esquecem da noite passada nem perdem beijos na neblina. Malditos os que desprezam as conquistas, desgraçada aquela noite, desgraçada aquela mulher que se foi sem legitimar o meu pecado para morrer no esquecimento.

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Texto originalmente publicado no O Mossoroense, aos 5 de dezembro de 2002.

sábado, 6 de julho de 2013

QUE SORTE!


Mossoró se vê de longe. Antigamente - o antigamente da minha infância e adolescência -, a cidade só se manifestava quando o viajante cortava o lombo do Alto de São Manoel. Isso, se viesse das bandas de Assú, pois, na procedência de Tibau ou de Aracati, pelo outro lado da BR-304, as vistas alcançavam a área urbana na linha do Puxa-Boi.

Quem chegasse de Areia Branca, de Governador Dix-sept Rosado, de Apodi, de Baraúna, praticamente despencava em nossas ruas, sem aviso prévio. De Apodi, na verdade, a fábrica de cimento, que era tão longe, tão distante, tão afastada, antecipava de certa maneira o encontro, espécie de anteclímax da penetração na faixa habitada do velho município.

A geografia nos reservou um vale sem montanhas, à margem do rio hoje perene, mas poluído por todas as pessoas de todas as localidades pelas quais ele tem a má sorte de passar. Menino, escondido de meus pais, fazia festa nas águas das chuvas de verão: Barragem de Genésio, Ponte de Ferro, Centro, Paredões, e sítios de parentes e amigos.

Bem ou mal, os tempos mudaram, as coisas avançaram. A "cidadona", como a classificou o historiador Raimundo Nonato da Silva em 1919, ano de sua mudança para cá, aos 12 de idade, encaixou-se nessa definição, ganhando ares e problemas de metrópole. Cem homicídios em seis meses bastam para revelar o quanto a tribo dos monxorós "evoluiu".

Mossoró virou uma senhora exibida, cujas luzes projetadas no céu escuro parecem próximas a qualquer observador. Mesmo sob o sol nordestino "de dois canos, de tiro repetido", na expressão de João Cabral de Melo Neto, as silhuetas dos arranha-céus, aglomerados especialmente no bairro Nova Betânia, mostram-se no rastro de quilômetros.

Certa feita, passeando de bicicleta com meu filho no calçamento infernal da Amaro Duarte, para fugir do trânsito da Duodécimo e da João da Escóssia, contei-lhe, a despeito deste tema, que, na idade dele, eu brincava ali, em ruas de barro, onde acabava a cidade, onde havia matas, lagoa, currais. E ele, olhos baixos, exclamou: "Que sorte a sua!".

sábado, 29 de junho de 2013

Viva la revolución!


Protesto! Não sei o motivo, mas... protesto!

Por tudo.

Por nada.

Para entrar na moda.

Para ser phoda.

Legal.

Protesto porque a rebimboca da parafuseta, desgastada pelas elites reacionárias, afolotou-se no eixo meridional do pino da grampoula.

Em razão do endireitamento perpendicular da esquerda.

Protesto por Mossoró não ter nem ônibus para eu protestar contra o preço da passagem.

A prefeitura de todos não contratou as bailarinas do Faustão para o Mossoró Cidade Junina. Protesto.

Protesto porque o jornal, o PIG, deu conta de bombas e prisões num protesto, afinal jornal bom é jornal que diz amém e mostra o fundo das calças, sem protesto.

Pela constatação de que pimenta na democracia dos outros é refresco. É claro e escuro que protesto.

Contra o Johnnie Walker falsificado, burguês, decadente. Falso!!!

As minissaias que prometem, mas não mostram.  Pro-tes-tô! Pro-tes-tô!

A morte, que não deixa as pessoas viverem em paz.

A extinção da Família Dinossauro, a censura ao último episódio da Caverna do Dragão e o fim da Sociedade do Anel.

Comida macrobiótica, Coca-Cola diet, guaraná do amazonas light, suco de Solanum agrarium industrializado.

Lula, FHC, Marina Silva, Sarney, Renan Calheiros. Ah, Collor!

Os carapintadas, os carapálidas, os cara...

Protesto em prol de alterações filosóficas no curso do rio Apodi e pela urgente transposição da Bacia da Bosta.

Aquele batom naquela boca. Pro  tes   to.

Protesto porque Lampião nunca vence um Chuva de Bala e Jararaca vive se fazendo de santa na cidadela.

Contra as ereções involuntárias e a masturbação intelectual.

Protesto porque quero.


E pronto!

sábado, 8 de junho de 2013

"Para você não se esquecer"


Frequento o Colégio Diocesano para deixar ou pegar o caçula. Não consigo traduzir em palavras a felicidade de entrar ali, rever antigos mestres, ex-colegas cujos filhos são amigos de meus filhos, abraçar Tia Mundinha, observar Padre Sátiro orando na capela.

O contato com a escola da infância é sempre aquela festa que, na sexta-feira, ganhou dimensão especial. Tia Edina, professora de meus irmãos mais novos, aguardava-me com uma encomenda e um recado: "Mundinha disse que isto é para você não se esquecer".

Dentro do envelope branco, imediatamente aberto, a cópia xerográfica da página 5 do jornalzinho "Diocesano Informa", onde publicaram o artigo "O Diocesano do meu e de outros tempos", que escrevi há 12, 15 anos, com divulgação também no O Mossoroense.

Textozinho fraco, mas rico em sentimentos que se renovam nas gerações atuais de alunos, característica que o mantém fora da lixeira. Além disso, o carinho de Tia Mundinha, em guardá-lo tanto tempo, dá-me a ilusão de que eu não escrevia tão pior naquela época.

Impossível esquecer o Santa Luzia, 112 anos de juventude. Mesmo se não estivesse ali, em tijolo, concreto e telhas, na Doutor João Marcelino, de frente à praça Dom João Costa, "tudo lá" me parece "impregnado de eternidade", como na evocação de Manuel Bandeira.

Os corredores, as salas, o sino, o pé de manga, o cheiro do café de dona Raimunda, os pátios, as salas, os primeiros alumbramentos, as traquinagens, a humanidade pulsante, enriquecem a arquitetura espiritual das gerações de cidadãos e cidadãs que ajudou a formar.

Sinto orgulho por haver estudado no colégio de meu bisavô, dos meus avôs, de meu pai, dos meus irmãos e de meus filhos. Por outro lado, é privilégio maior ser lembrado e receber o carinho de Tia Mundinha, uma das grandes educadoras deste país chamado Mossoró.



sábado, 18 de maio de 2013

Questão de estética



Meus avós paternos mudaram-se para Natal na década de 1960, a fim de acompanhar os filhos que já se encontravam por lá, estudando. Moraram na Deodoro e, por fim, na Cônego Leão Fernandes, logradouros coincidentemente transversais da rua Mossoró.

O velho se chamava Jerônymo Lahyre de Mello Rosado. Farmacêutico e inspetor de ensino, além de boêmio inveterado, tinha vastos conhecimentos gerais e uma memória prodigiosa. No aniversário de 90 anos, três antes de nos deixar, recitou poemas de Augusto dos Anjos e explicou as declinações do Latim. Tranquilo, conciliador, era dono de um senso de humor singularíssimo, entre a gaiatice e a ingenuidade.

A jovem atendia pelo nome de Francisca Gurgel da Frota Rosado. Dona de casa, dedicou dias e noites numa máquina de costura para ajudar a garantir a educação dos filhos. Nasceu em Pau dos Ferros e lamentava-se por não conhecer a própria terra, de onde saiu criança. Braba, austera, talentosa, assisti-a ministrar cursos de pintura de vitrais - até pintei uma arara sob sua orientação - e de congelamento de alimentos, coisa inovadora no Rio Grande do Norte da época. Deixou-nos aos 87.

Faz algumas semanas, conversei sobre os dois com Ernani Rosado, logo após receber do primo uma joia de família, da qual me nomeou guardião vitalício: o caderno original dos poemas manuscritos por Jerônimo Rosado Filho, avô de Ernani, meu bisavô, acompanhado da obrigação de romper seu ineditismo, missão a ser brevemente cumprida.

Rosadinho, só para ilustrar, foi o primeiro dos 21 "numerados" de Seu Rosado, embora não tenha recebido um número por nome. Médico humanitário, poeta, colaborador de vários jornais, autor da tese "Da Bacilemia", morreu no verdor dos 30 anos.

Disse-me Ernani, na mesma oportunidade em que me designou curador da obra, que, ao se mudar da Deodoro para a Cônego Leão Fernandes, dona Francisca plantou várias samambaias em jarros e xaxins.

As plantas eram tratadas a pão de ló - sol, adubo, água fresca -, mas não se desenvolviam nem por cem e uma cocada, enquanto as da vizinha, embora sem cuidados, eram enormes, pomposas, com aqueles galhos viçosos que pareciam "trançados de cordas", fazendo jus à origem tupi de sua denominação: çama-mbai.

Certa feita, à mesa do jantar, família reunida, ela desabafou. Disse, um muito amargurada, desconhecer por qual motivo suas "pteridófitas" não respondiam ao tratamento, enquanto as da casa ao lado só faltavam falar.

Eis que o velho Lahyre, meio sem jeito, fez uma inesperada confissão e pôs fim ao mistério. Quando as samambaias começavam a crescer, para impedi-las de ultrapassar a circunferência dos jarros, ele, na melhor intenção de agradar à mulher, passava-lhes a faca, por "questão de estética".

Moral da história: o gosto, já dizia Edgar Allan Poe, é o único juiz da beleza.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O sonho



O sonho que me habita a cada instante,
Não faz muito, vestia carne e osso,
Um menino sonhando ser gigante,
Sem perceber que já era um colosso.

Passamos longas noites nas estradas,
Tangendo mil rebanhos pra Morfeu;
Varamos juntos tantas madrugadas,
Esperando a manhã que não nasceu.

O visionário alegre e mais amado,
Motivo do meu grande desatino,
Dormiu cedo num berço iluminado.

Certo de não bastarem sonhos vãos,
Arrebatou as rédeas do destino
E se fez sonho pelas próprias mãos.

sábado, 20 de abril de 2013

Livros



Casa das Lâmpadas, de David Leite, e Futebol de Mossoró, de Lupercio Luiz, chegam-me praticamente ao mesmo tempo, ambos com a elevada qualidade gráfica que caracteriza as publicações da Sarau das Letras, editora capitaneada pelo escritor Clauder Arcanjo.

Faz poucos dias, no mesmo patamar estético, veio-me Gênese, de Leonam Cunha, jovem poeta de Areia Branca que descobri ser filho do meu amigo Manoel Cunha Neto, o Souza, mas não antes de lê-lo, de maneira que não se contaminou o juízo.

Cada qual me conta um punhado de histórias, personagens, lugares, imagens. A prosa e o verso a serviço da memória e da imaginação.

As lâmpadas da casa de David Leite abrem-me portas antigas e iluminam o caminho para reencontrar pessoas queridas, a exemplo de Marieta Lima, Raibrito, João Batista Cascudo, Vingt-un Rosado, Dorian Jorge Freire. Se não falasse dos frades carmelitas, não seria dele o trabalho. E fala muito bem, com a propriedade de sempre. Há, entre fatos e gentes, fragmentos dos anos 1980, maravilha para nós, criaturas do século passado.

Para um sedentário convicto e militante da minha espécie, tudo é novidade no Futebol de Mossoró, seja história pequena ou grande. Descobri, graças a Lupercio, filho de Luiz Bolão e Maria Neuza, que a primeira bola chegou a Mossoró em 1917, trazida do Rio de Janeiro por José Fernandes de Queiroz. Humaitá e Ypiranga, os primeiros times. O jogo Flamengo x Baraúnas, em 1985, por incrível que pareça, assisti bem de pertinho, na lateral do gramado. Ainda não encontrei o gol que Etevaldo fez de cabeça após bater o escanteio. Pode estar adiante.

A gênese da poesia de Leonam Cunha é tanta coisa, tanto de imagem,  que se pode começar de qualquer parte. Da ginga com tapioca, do torto e do moderno, do ornitorrinco. Quem sabe do princípio, num hino a Epicuro e sua busca filosófica por felicidade e prazer. É para ser lido com calma, em doses, afinal o poeta, garante ele, não vai sair por aí. Aguarda paciente que as metáforas se esparramem no papel. Evoé!

Três autores de estilos e ao menos duas gerações diferentes, três maneiras de enxergar o mundo, três experiências literárias dignas, que Clauder Arcanjo escalou para o time da Sarau das Letras.

E agora, com licença que vou continuar a leitura, aproveitando a inspiração da chuva.

domingo, 14 de abril de 2013

DESCULPA DE BÊBEDO

Augusto Floriano

Boêmio, criatura infeliz!
Carrega no peito vulcão
que até cochila,
mas sempre acorda.
E quando acorda,
jorra poesia e loucura
para iluminar a noite
enquanto a mulher amada
carrega nos ombros,
entre sono e vigília,
a longa espera do amanhecer.

sábado, 23 de março de 2013

O amor das duas



Ainda estou paralisado no entreolhar daquelas duas. Tanto que há cinco noites, o mesmo sonho erótico me invade a cama, instalando-se entre mim e a mulher amada, enquanto ela dorme inocente, sem desconfiar da traição incendiando o próprio leito. Tanto que os meus dedos, rendidos à embriaguez por espasmos hormonais, confessam ao teclado do computador essas lúbricas intimidades.

As duas se cruzando num olhar são faca mirando faca, enquanto a plateia vai ao delírio, delírio contido de voyeur que não deseja nem de longe ser notado, para não interferir no jogo das feras. Belas? De que valem as belas entre as feras? Melhor as feras, o coração das feras, o sexo das feras devorando as belas. Desde menino sei que amor entre feras é mais terra, é mais peixe, é mais planta, é mais humano.

Perdoem-me os ditos puros, mas a carne que me envolve é fraca – muito fraca! – e a liberdade dos meus pensamentos é indevassável, a ponto de eu dizer, sem o confortável recurso da metáfora profunda, que mulheres que gemem na cruz e na espada são o maior tesão, a fantasia mais ou menos secreta de todo cabra macho e de muitas fêmeas no cio, fogo que devora fogo na maciez de uma língua.

Mulheres que gemem na cruz e na espada são a reencarnação da tempestade. O entreolhar daquelas duas me contou. Tempestade capaz de arrasar plantações, de sacudir montanhas, de arrancar telhados, de estremecer o corpo, devorar suspiros e desferir uivos na boca do estômago. Tempestade prenúncio de calmaria, bonança que sucede o gozo, se o orgasmo é mútuo, profundo e se completa.

Abençoa-me, Deusa da Águas Doces, pois o amor das duas é pureza. É mão dupla. É paciência. É miragem. Perdoa-me, Mãe da Natureza, por quando o amor das duas for lábio, língua, peito, quando for tremelique, quando for sacanagem, quando for mais desejo do que agora e eu morrer de tesão e de inveja, contemplando o duelo das coxas que em minhas torpes viagens já escorregam na saliva.

O amor das duas, quem me dera a graça, o pão e o vinho de morrer por um instante na conjunção daqueles seios! Ah, que os ventos me guiem nas estradas da luxúria, pelos campos selvagens do espírito onde a salvação e o pecado não oprimem o ser humano, porque estão bem acima das verdades, onde eu possa ser o mar bebendo as águas de dois rios mágicos e fundos que habitam a mesma foz.

sábado, 16 de março de 2013

Naufrágio



A onda vem, os cascos se erguem palmo e meio. Depois, quando passa, descem nos movimentos ensaiados de um balé. Sonham romper as correntes e partir para o mais do longe, voltar a lugares onde nunca estiveram, pois cada viagem ao infinito é o mesmo déjà-vu.

Incrível ser o mar aquele de há tantos séculos e, ainda assim, causar espanto a quem traz limbo e conchas no leme, marcas do tempo na lida do oceano, das viagens entre a terra e até depois da linha do horizonte, onde as vistas dos homens sem alucinação poética não alcançam.


No continente, sobre dunas imprecisas, velas dobradas, mastros arreados, apenas a maresia consola outros tantos que, infelizmente, não alcançaram a graça de serem embalados nos braços invisíveis de Iemanjá. Estes olham, invejam que nem pessoa, sonham a precisão do navegar.

Nem âncora nem chão. Melhor viver à deriva do que morrer em porto seguro. Ao sabor incontrolável do fluxo e do refluxo das águas, pode-se ao menos tropeçar displicentemente no canto das sereias, afogar-se no ar, embriagar-se no olho do furacão e gozar nas coxas dos maremotos.

Tempos atrás, quando o mundo era quadrado e acalentava um abismo em cada lado do seu fim, todos amavam o perigo, as agitações. Hoje, entretanto, preferem a segurança do estaleiro. É que a maré não está para piaba e qualquer tentação de flutuar só pode resultar naufrágio.


sábado, 2 de março de 2013

SEM SENTIDOS



Vê-se a rua vazia
por retângulos verticais,
deserta e oprimida
entre ombros de calçadas.

Surda, não quer saber
destas palavras
que rompem o silêncio
e o abismo
da mão à caneta.

Muda, de pirraça,
não fala o que já se sabe
e se insiste dessaber.
Medo da eloquência
da língua adormecida
em outros berços.

Ah, o cheiro
que entrelinha os devaneios
faz lembrar a liberdade
que fugiu janela fora.
Era como?
Perfume de madrugada
amanhecida!

Toca com a ponta dos dedos
hesitantes
o aço da solidão
em volta do pescoço,
dos punhos e tornozelos.
No outro lado,
elo após elo,
a alma,
poema concreto,
arrasta o corpo
às profundezas.

E, como se não bastasse,
este gosto de anteontem
que só foi percebido
agora.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Velhas devassas



Velhas devassas
amamentam sombras
para enganar a fome
da palavra cheia de luz.

Veneno morno
que inunda o céu da boca
e afoga a goela seca
entre o gozo e o engasgo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ESSE BLUE



Para que olhos tão azuis, menina?
Nem mesmo o céu, na sua majestade,
Numa orgia de luz, de claridade
Derrama-se em cor mais cristalina.

Diante deles, dá calor, tontura,
A boca seca, a alma se arrepia,
O juízo incendeia, a mão esfria
E o peito desembesta na loucura.

Por Deus, se recaíssem sobre mim,
Fosse em noite de Sol, dia de Lua,
Esse índigo, esse blue, o mar sem fim!

Mergulharia já, sem hesitar,
No tom sutil que agita e apazigua,
Destinado a viver ou me afogar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Memória fotográfica



Velhas palavras não enchem o bucho de uma crônica. De qualquer maneira, revendo-me na fotografia antiga postada no "Feicibuqui" por Ricardo Lopes, retratista afamado em Oropa, França e Bahia, comecei a me recordar do tempo em que andava com a barba cheia e dura - cheia de falha e dura de crescer - recitando poesias nas ruas, nos bares, nos ônibus.

E aquele encontro, hein? Parece praia, talvez Tibau. É Tibau. Dois litros de Pitu quase vazios sobre a mesa, às vistas de Telma Gurgel, Amarildo Lima, Arlete, João Eugênio, Laércio Eugênio, eu, Mazinho Viana, Tércio Pereira, Lucas, Rapozinha e o próprio Ricardo Lopes, além da criatura por trás da máquina fotográfica.

Faz 14 anos, conforme cálculos do artista plástico, ufólogo e poeta Laércio Eugênio, presidente perpétuo do Instituto Intergalático de Recuperação de Pessoas Normais, entidade que fundamos mais ou menos na época, em meio às obras do campo de pouso para discos voadores que o referido calculista construiu na laje de casa.

Requentando o verbo e os fatos, percebi o acréscimo de uns 10 quilos  de gordura e 20 centímetros de circunferência abdominal de lá para cá, depois que um observador indiscreto afirmou, para delírio da redação do jornal O Mossoroense, "Vixe, Cid era magro!". Sem problema, pois, conforme o jornalista e publicitário Stenio Urbano, que parece um sebite, homem sem barriga é homem sem história.

Sou a favor de repetirmos o encontro, a pose, o bate-papo. E até a Pitu, desde que suavizada com limão, refrigerante... Eta, diacho, tô todo arrepiado!

Precisaremos fazer adaptações. Arlete, por exemplo, não aguentará mais João Eugênio no colo, pois o cabra, então com um ano de idade, está maior do que todos os envolvidos no episódio.

Por favor, levem o violão para Mazinho, orgulho da música nordestina, parceiro de Regina Casa Forte; e um gorro diferente para Ricardo Lopes. O azul-bebê saiu de moda após longos oito anos de perseguição contra veículos e profissionais de comunicação que não aceitaram lhes mostrar o fundo das calças.

Há 14 anos, muito provavelmente em janeiro, ainda não se pensava na compra de terras à margem esquerda da Gangorra, na expectativa da duplicação da estrada decuplicar o valor do patrimônio. A galera, mesmo assim, não tinha enfado em vencer os buracos do caminho estreito, sem acostamento e mal sinalizado para encher as vistas com o mar de Tibau.

Ainda havia morros de areias coloridas. Poucos, é verdade, mas havia, entre eles o das sete cores.

O labirinto onde os namorados se perdiam, os pingas, as vertentes, a Pedra da Sereia, as jangadas, as aventuras de Jeremias, Ananias, Tidó, o peixe fresco no balaio, tudo a que o tempo deu a dimensão onírica da casa do avô de Manuel Bandeira.

A Pedra do Ceará, penetrando o oceano com seu falo argiloso nas marés cheias, ostentava certa virilidade.

Eu, impregnado de juventude, escrevia sem dar por métrica, rima, estética, amava despreocupadamente na areia da praia e vencia quixotescas batalhas contra moinhos de vento.

Quanta saudade na memória de uma fotografia. Manda outra, Ricardo Lopes, que é pra gente lembrar. E sonhar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


LUGAR NENHUM

                                                      He's a real nowhere man
                                                                           (The Beatles)

Cid Augusto

Hoje! Quero partir hoje à noitinha.
Guia-me a estrela guia dos meus sonhos
Pela sombra que assombra e desalinha
Meus passos por espaços enfadonhos.

Destino? Nem Deus sabe o tal destino,
De próprio que meu próprio descaminho
Roda, roda, na roda de um moinho
E cai tonto num tonto desatino.

Assim, aonde vou é onde estou
Nos olhos com que olho o firmamento,
o mundo que no mundo se largou.

Fico aqui, sempre aqui, um vivo morto,
Indo e vindo nos ventos que invento,
Pois cada porto é sempre o mesmo porto.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O VESTIDO



Estava na vitrina, o tal vestido,
Branco com rosas brancas salientes.
Avistei-o com olhos displicentes
E me senti um tanto comovido.

O vestido comprado por quem ama
Para alguém a quem ama deve ter
Algo de sentimento, alguma trama,
Que desvele a beleza do prazer.

Cuidei a fim de que fosse embrulhado
De maneira elegante e condizente
Com papel bem sedoso e perfumado.

Entreguei em mãos - ela até sorriu! -
Disse um muito obrigado convincente,
Jurou, mas até hoje não vestiu.

sábado, 22 de dezembro de 2012

E o mundo, hem?



Estou com sérias dúvidas desde o último dia 21: o mundo não se acabou ou morremos e passamos a habitar o limbo numa espécie de realidade paralela, enquanto o criador decide como dar vencimento às almas de tantas criaturas.

Essas coisas levam tempo, compreendo, muito mais do que a apreciação dos recursos internos do Supremo Tribunal Federal (STF), pois os anjos encarregados da triagem devem apreciar caso a caso para evitar injustiças e julgamentos politiqueiros.

Além do trabalho em si, a “sopesagem” dos pecados e bem-aventuranças de acordo com a realidade socioeconômica, religiosa e cultural dos indivíduos, haverá de ser feita a ampliação das instalações celestiais e, sobretudo, as do inferno, significando que a incerteza dos seiscentos papa-figos persistirá pelo menos até o final das obras da Copa do Mundo de 2014.

Sugeriram-me uma sessão espírita, no que cheguei a pedir ajuda ao repórter fotográfico Luciano Lellys, guru espiritual da redação do O Mossoroense, exorcista, domador de almas sebosas e desfazedor de mandinga, mas desisti antes de chegarmos ao terreiro de Pai Akã da Jurema Grossa. Já pensou se eu baixo em alguém?

Oh, Céus!, Oh, vida! Oh, azar. O dilema “shakespeuruquiano” me consumirá enquanto não descobrir se este cara sou eu ou a mera representação de mim.

Ah, fiz uma breve pesquisa entre colegas de trabalho.

Argolante Lopes, nosso webmaster, sente-se em Matrix desde o penúltimo fim do mundo.

Walkiria, a diagramadora, disse que o dilema será irrelevante, afinal, se eu não entregar imediatamente esta crônica de meia pataca, morto ou vivo, serei linchado.

Bruno Barreto, editor de política, embora ateu militante e convicto, não descarta eventuais conjuminâncias post mortem entre a governadora e uma quase graças a Deus ex-prefeita para que o universo seja recriado através do Tribunal de Contas.

Márcio Costa, diante da celeuma, joga sobre a mesa um CD de Flávio Pizada Quente, o Pizada assim mesmo, com “z”, e manda que eu escute, por recomendação do empresário Alvanilson Carlos, a faixa denominada O Cara do Fiat Uno, na qual repousam respostas para todas as questões filosóficas que há séculos atormentam a humanidade.

A música começa: “Bruuunnnna! Bruuuunnnna!” E o mundo, se ainda existia, acabou de reacabar.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O fim do mundo



Tenho 41 anos, parte desperdiçada, parte muito bem vivida, mas, de qualquer modo, sentindo-me o Highlander, apelido conferido a Connor MacLeod, lendário guerreiro imortal das Terras Altas escocesas.

Melhor dizendo, para fazer jus ao meu nome, tenho por agora a sensação de encarnar o próprio El Cid, cognome de Rodrigo Díaz de Vivar, herói castelhano que venceu uma guerra contra os mouros depois de morto.

São as notícias do fim do mundo que me dão essa trágica sensação de imortalidade, associadas ao fato de que superei diversos acontecimentos dessa ordem e continuo aqui, labutando.

Agora são os Maias, ou melhor, novamente são os Maias. Seus intérpretes já nos mataram aos 11 de novembro de 2011, causando entre outras catástrofes o cancelamento do aniversário de Caio César Muniz, seis dias depois, no Bar Santa Luzia, referência etílico-cultural do Beco das Frutas.

Em 1980, sobrevivi à conjunção entre Saturno e Júpiter que destruiu o universo. Dois anos depois, aos 10 de março, venci um cataclismo detectado por astrônomos sabe-se lá de onde.

Atravessei ainda as previsões dos analistas de Nostradamus para agosto de 1999, dos fanáticos que promoveram um apocalipse em festejo aos 2000 anos de Jesus Cristo e de algum desocupado desses na virada entre o segundo e o terceiro milênio.

Somente em 2012, o mundo ferrou-se duas vezes e aguarda a terceira, tudo por obra e graça dos Maias.

Morremos em janeiro ou fevereiro, não me lembro bem, a partir de uma inversão de polos gerada em resposta tardia ao tsunami da Ásia; e pelo alinhamento numérico 12.12.12. Dia 21, a humanidade será devastada porque essa é a última data do calendário Maia e nela seremos tocaiados por um cometa ou um planeta assassino.

Sem querer aumentar a tensão, parece que desta vez a coisa é mais grave e o fim do mundo será mais fim do mundo. Soube que os Estados Unidos pronunciaram-se desmentindo os boatos fatídicos. É o mesmo governo que anunciou de pés juntos, mãos postas e olhos rútilos a existência de armas de destruição em massa no Iraque e jura, com os mesmos gestos, respeitar os direitos humanos em Guantánamo e Abu Ghraib.

De acordo com os cientistas da Nasa, devemos relaxar. A Terra tem prazo de validade de uns cinco bilhões de anos, até quando o Sol devasta-la-á numa mesóclise. Em seguida, congelar-se-á de desgosto linguístico por se sentir um reles pronome oblíquo átono jogado entre o radical e a desinência e decretará a própria extinção no futuro do presente ou do pretérito.

De toda sorte, inevitável sempre foi e sempre será o armagedom em suas diversas configurações. Por isso, verificando em consulta ao calendário de mulher pelada colado na carteira do editor Márcio Costa que a próxima hecatombe recairá na sexta-feira, prometo antecipar o fechamento da edição do O Mossoroense de sábado, de modo a não deixar ninguém sem jornal dia 22 em consequência do evento.

Fica desde já registrado junto à tesouraria da empresa o pedido de antecipação dos vales para a quinta-feira, quebrando a secular tradição das sextas, pois sem dúvida será feriado bancário no fim do mundo e, sem dinheiro, não se pode festejar a imortalidade.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Oráculo de Mossoró



Há na mitologia grega a figura do oráculo, uma divindade ou o sacerdote que a ela se reporta como intermediário dos mortais em busca de respostas. O mais famoso, imagino, é o Oráculo de Delfos, instalado no sopé do monte Parnaso, onde ninfas e musas reuniam-se para ouvir a lira de Apolo.

A exemplo de outros heróis, Hércules tomou ciência do seu destino em Delfos, em cujo templo estava a sentença "Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo", atribuída ao grupo dos Sete Sábios, o qual integraram Orfeu e Pitágoras.

Em Mossoró também tivemos um oráculo: Raimundo Soares de Brito, o Raibrito, morto aos 27 de novembro de 2012, quando resolveu dar descanso eterno ao corpo que, durante 92 anos, serviu de abrigo físico ao espírito iluminado pela inteligência generosamente compartilhada com quem o procurava em busca de conhecimento.

A casa de Raibrito e dona Dinorá, também de saudosa memória, situa-se no Alto de São Manoel, na rua que leva o nome do viajante Henry Koster, autor de "Travels in Brazil" ou "Viagens ao Nordeste do Brasil", na tradução interpretativa de Luís da Câmara Cascudo.

Lá e no "anexo" adquirido no mesmo logradouro, as paredes, inclusive as dos quartos e de boa parte da cozinha, são cobertas de prateleiras onde repousavam milhares de livros e documentos meticulosamente colecionados durante décadas.

As pastas de papelão reciclado, dispostas em ordem alfabética, foram fabricadas pelo próprio instituidor do acervo e por seu fiel escudeiro, sobrinho/filho, Marcos Oliveira.

Contribuí certa feita com meia tonelada de jornais que a Fundação Municipal de Cultura, entendendo que os periódicos e livros antigos enfeavam a Biblioteca Ney Pontes Duarte, vendeu para uma sucata então existente na avenida Rio Branco, ao lado da praça da Estação das Artes, lugar originário da feira do Vuco-Vuco.

Alertado por denúncia anônima chegada à redação do O Mossoroense, eu e o repórter fotográfico Luciano Lellys localizamos o acervo e o compramos. Trinta anos de história custaram-nos R$ 12,00, o mesmo valor, segundo o sucateiro, da negociação com o município.

Isso, os jornais. Os livros tiveram o destino das bruxas na Inquisição: a fogueira da ignorância acesa no descampado que havia por trás do Museu Lauro da Escóssia.

Lembro-me como se fosse hoje: carregamos uma camioneta fretada e entregamos tudo na casa de Raibrito, afinal ninguém melhor que ele para ser o guardião das relíquias.

Dona Dinorá, espantada com a quantidade de papel, não se conteve: "Cid, pelo amor de Deus, o que é que você tem contra mim?". Rimos muito deste episódio, pois, de fato, os dois imóveis do casal estavam abarrotados de papéis.

Ele foi sem dúvida a maior fonte para jornalistas, estudantes e pesquisadores do Rio Grande do Norte. Sempre recebeu a todos com carinho e generosidade, sem pedir nada em troca, embora a manutenção daquele patrimônio da maior relevância e utilidade pública corresse às expensas de sua minguada aposentadoria.

Meu amigo, a quem conheci ao lado do memorialista Raimundo Nonato da Silva, na década de 1980, aqui na redação do jornal, deixa além da saudade uma lacuna que jamais será preenchida. Raimundo Soares de Brito, Raibrito, era mais que um homem, mais que um sacerdote da História, era o próprio oráculo, o Oráculo de Mossoró.

sábado, 27 de outubro de 2012

LUZ



Noites perdidas
escondem dias infinitos.
Daí, as olheiras.

Tanta luz, meu Deus,
nos miolos de quem faz escuro
para não encarar
a superfície reversa
do espelho de metal.

De nada adiantam
palavras claras
à sombra
de lençóis frios.

Dos castelos de marfim,
corredores iluminados,
as ideais, ultimamente,
só frequentam masmorras.

A vontade que se tem
é enfiar os dedos na tomada
e apagar o Sol
num curto-circuito.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SEM SENTIDO


 Cid Augusto

Vê-se a rua vazia
por retângulos verticais,
deserta e oprimida
entre ombros de calçadas.

Surda, não quer saber
destas palavras
que rompem o silêncio
e o abismo
da mão à caneta.

Muda, de pirraça,
não fala o que já se sabe
e se insiste dessaber.
Medo da eloquência
da língua adormecida
em outros berços.

Ah, o cheiro
que entrelinha os devaneios
faz lembrar a liberdade
que fugiu janela fora.
Era como?
Perfume de madrugada
amanhecida!

Toca com a ponta dos dedos
hesitantes
o aço da solidão
em volta do pescoço,
dos punhos e tornozelos.
No outro lado,
elo após elo,
a alma,
poema concreto,
arrasta o corpo
às profundezas.

E, como se não bastasse,
este gosto de anteontem
que só foi percebido
agora.

sábado, 20 de outubro de 2012

A ILHA




Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
(Drummond)


Quando resolvi morar na ilha, larguei tudo, inclusive os livros, e me lancei ao infinito com o coração apertado e o peito aberto. Não quis ouvir ninguém, não pensei nada, não refleti sobre as consequências do gesto tanto heroico quanto idiota, para evitar o assédio de pensamentos negativos, embora largar o continente seja em si uma derrota, na linguagem dos marujos.

Tive medo, muito medo, especialmente ao encarar ondas gigantes que me consumiam o ânimo e a resistência física. Em determinado instante, sentia-me tão cansado que o oceano pacífico das noites índicas apresentava-se com a fúria atlântica das feras glaciais. Olhei para trás e quis voltar ao continente. Era tarde, muito tarde, e todas as luzes se apagavam desbotadas.

O caminho da ilha, tomado por qualquer origem, é percurso de águas gélidas, profundas e sem dono, reservado a criaturas despidas da condição humana. Somente alguém em inequívoco e irreversível estado de coisa sobrevive aos humilhantes sopapos das vagas, às cusparadas de espuma salobra na cara, aos caldos, ao destino que tange o indivíduo ao olho do caos.

Mesmo os velhos lobos do mar, colecionadores de aventuras náuticas, conhecedores das rotas desenhadas nas estrelas, perdem-se no recôncavo, sendo o lugar mais perigoso justamente o de atracamento. A ilha se avizinha de maremotos, buracos negros, monstros e navios fantasmas capazes de proceder ao golpe de misericórdia nas almas dos desiludidos.

Uma vez na ilha, é preciso cuidado para não se perder em si, não se ensimesmar agarrado a lembranças estragadas, cutucando feridas graves com a ponta enferrujada do punhal das decepções. “Ilhas perdem o homem”, alertou-me o anjo torto a quem Deus confiou guardar os descrentes, e aquilo no momento em que descobriu os preparativos do novo salto.

Voltar ao continente é possível, mas, por enquanto, não está nos planos. Talvez depois de longas e confortáveis eras, quando exorcizados os seiscentos mil diabos, quando as unhas das feras multiplicadas nas entranhas do lugar já não arranharem o juízo. Dia desses, quem sabe do nada, a ilha deixa de se habitar e volta a ser aquele homem de carne, osso e sentidos.

sábado, 29 de setembro de 2012

Larissa no O Mossoroense



Uma das pessoas mais importantes para O Mossoroense, nas últimas duas décadas, chama-se Larissa Daniela da Escóssia Rosado, tanto pela competência administrativa quanto pela visão de futuro e espírito democrático que marcaram sua gestão.

Chegou aqui com o desafio hercúleo de restaurar e manter um jornal em sérias dificuldades financeiras decorrentes das perseguições políticas, numa cidade onde ou se tinha acesso aos "favores" do poder público ou se quebrava no outro dia.

Dorian Jorge Freire escreveu certa vez que "fazer jornal no interior é peia". Sempre foi, tanto que, ainda hoje, tem-se notícia de órgãos com dois, três meses de atrasos salariais, mesmo contando com mesada líquida e certa do Palácio da Resistência.

Larissa iniciou o trabalho que deu sustentabilidade à empresa, lançou a proposta de contratar consultorias especializadas, delegou poderes, esforço que resultou num fato importantíssimo: O Mossoroense, há quase oito anos sem receber um centavo sequer da prefeitura, é o único veículo de comunicação da terrinha, além da FM-93 e da TV Mossoró, que se mantém, apesar das dificuldades, sem mostrar o fundo das calças a Gustavo Rosado.

Foi Larissa, por exemplo, quem fez desta uma das primeiras redações informatizadas do Nordeste. Sob sua direção, no período de 1992 a 1998, aposentamos as máquinas de escrever, os tipos móveis, a tesoura, a cola, a granitadeira, o fotolito, e ainda adquirimos uma segunda impressora offset, modelo ATF Chief 25.

O Mossoroense tornou-se, naquela fase da imprensa potiguar, o único periódico fora da capital a vencer a barreira do salário mínimo e pagar aos profissionais o piso fixado nas negociações com o Sindicato dos Jornalistas.

Tudo com muita, muita dificuldade, longe dos investimentos públicos em propaganda, sem mencionar as pressões sofridas pelos pequenos comerciantes. Quem pretendia vender para Estado e município não podia sequer pisar em nossa calçada.

Larissa foi a responsável direta por outra transição importante: a abertura editorial, conferindo a repórteres e colunistas ampla liberdade de atuação, inclusive com opiniões contrárias às da empresa.

O Mossoroense não mente, tem linha honesta e corajosamente definida, declarada, sem prejuízo ao espaço das divergências, graças também à semente lançada por Larissa. Até os idiotas que nos perseguem, tentam nos intimidar com processos judiciais, chantagens e agressões, são tratados com respeitoso profissionalismo.

Não me surpreendem os repetidores de mentiras que dizem o contrário, sem conhecimento de causa. Desapontam-me, por outro lado, pessoas que vivenciaram tudo isso distorcerem os fatos para agradar os atuais patrões ou simplesmente destilar ódio injustificado. Destas, basta comparar os textos de ontem e de hoje.

Larissa deixou o jornal convocada a assumir funções muito mais complexas, reconhecida como uma grande gestora, daquelas que não temem e não amarelam diante das dificuldades.

Essa, a verdade. O resto, conversa fiada.

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DESAFIO: qual veículo de comunicação, de qualquer modalidade, topa testar seus administradores com os nossos, passando apenas seis meses sem receber dinheiro da prefeitura de Mossoró? Quem se habilita?

sábado, 22 de setembro de 2012

Batismo


Augusto Floriano
Autodidata

Batizado em mar sagrado,
num ritual profano
que se repete
quase todas as tardes,
somente no retorno
do último mergulho,
notei as nuvens ruborizadas
por verem
as ondas me despirem
e lamberem
meus pensamentos
cabeludos.

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Augusto Floriano era pseudônimo utilizado por Cid Augusto, autor deste Canto de Página, nos bons tempos do Caderno 2 (hoje Universo) do jornal O Mossoroense.


sábado, 15 de setembro de 2012

Boicote



Há quase oito anos, a prefeitura de Mossoró, sob o comando de um partido que se autodenomina Democratas, não anuncia no O Mossoroense nem paga o que deve ao jornal.

Esse boicote explícito, declarado, além de "desinteligente", como diria meu amigo Caby da Costa Lima, representa abuso de poder, fere a democracia e atenta contra princípios da administração pública, a exemplo da legalidade, moralidade, impessoalidade, eficiência e indisponibilidade.

Muito me espanta o Ministério Público não ter, pelo menos até onde se sabe, instaurado procedimento para investigar a destinação das verbas da propaganda oficial do município para órgãos de comunicação imbuídos, a um só tempo, de incensar o pagante e massacrar quem a este ousa dirigir críticas.

Abrindo pequeno parêntese, vale dizer do Blog do Paulo Doido, criado para esculachar adversários da prefeita, com dezenas de postagens realizadas a partir dos computadores da Secretaria de Comunicação do município e da reitoria da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Desvela-se, aí, o segundo ponto dessa perseguição estatal: nossa equipe é constante alvo de agressões por meio de notas que o Palácio da Resistência dita aos órgãos aos quais remunera.

Chega a ser patética, a preocupação da "concorrência" com a linha editorial do O Mossoroense, embora não nos preocupemos em responder, pois o leitor não é burro, ao contrário do que pensam os donos da verdade, e sabe identificar o mentiroso, o pau-mandado.

A terceira face da intolerância, da sanha de calar quem não se vende nem dobra a espinha, é a ofensiva jurídica, processos em massa no intuito de sufocar econômica e moralmente os inimigos do sistema.

No decorrer da última semana, por exemplo, fomos alvo de representação eleitoral para direito de resposta sobre algo que o DEM, o mesmo do combate à liberdade de expressão, teve todo espaço aberto para fazê-lo e não quis.

Sabe por quê? Porque o intuito não era esclarecer nem contestar. O objetivo, pelo teor do material entregue ao juiz, é o de ofender, de humilhar, erro grosseiro cuja repercussão é desconhecida, ao passo que revela os métodos truculentos daqueles que estão por trás da manobra.

De toda sorte, o jornal, como sempre faz, insistiu no posicionamento dos Democratas e o publicou, com mais destaque e em espaço mais nobre do que a notícia "mentirosa".

Assim, permanecemos tranquilos quanto ao cumprimento do nosso dever de informar e esperamos  que a futura administração municipal, seja sob o comando de Edinaldo Calixto, Larissa Rosado, Cláudia Regina, Cinquentinha ou Josué Moreira, encerre o ciclo de perseguições, tratando a mídia com respeito e profissionalismo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Poema desnecessário


A lembrança do perfume
nos versos de um poema
desnecessário
abre caminho
para a reinvenção da poesia
que se chega toda prosa,
senta à mesa do bar,
bebe qualquer coisa
e arrebenta a madrugada
na lâmina do seu sorriso.


sábado, 8 de setembro de 2012

Política



Não me envolvo em política partidária. Este ano, por exemplo, compareci apenas a três eventos e estive outras duas vezes num comitê de campanha para tratar de assuntos diversos.

A distância não significa alheamento: tenho parentes envolvidos nas batalhas eleitorais e tento ajudá-los do meu jeito, com ideias, pitaco aqui, pitaco acolá, a torcida, a energia positiva, o sufrágio.

Perdoe-me a imodéstia de acrescentar o item experiência entre as colaborações. Sim, a experiência de quem convive faz quatro décadas com as conquistas e os dissabores dessa seara.

Também sofro. A expectativa do resultado, mesmo diante da certeza da vitória, só se encerra com a apuração do último disquete. Quando não dá certo, é ruim, mas o pior, independentemente do desfecho, é ver pessoas que você ama sendo escoiceadas gratuita e injustamente por indivíduos que lhes devem ao menos respeito.

Não peço voto. Tenho colegas com os quais trabalho há 25 anos no jornal O Mossoroense e nunca tive a curiosidade de lhes perguntar se possuem título de eleitor. Cores jamais figuraram entre os requisitos para contratação dos membros da equipe a qual tenho o privilégio de coordenar.

Aprendi desde menino a conviver com opiniões divergentes, graças à escola de democracia que é a casa de meus pais, pouco me importando as preferências dos amigos ou se eles próprios são candidatos contrários aos de minha preferência.

Em troca, só espero consideração, e me sinto desobrigado com aqueles que ultrapassam os limites da civilidade e passam a distribuir patadas numa demonstração irracional de ódio gratuito.

É como sempre digo: “Crítica é arte. Coice, qualquer jumento dá” e não rima com liberdade de expressão nem combina com cidadania.