sábado, 31 de maio de 2014

CAMISINHAS TERRORISTAS


O governo dos Estados Unidos, embora reconhecendo “a enorme esforço da governo brasileira para incentivar o prática sexual seguro”, emitiu orientação aos garanhões americanos que vierem assistir aos jogos da Copa do Mundo: “se desejar fazer fuck-fuck na Brasil, pelo caridade, levar os camisinhas daqui, pois os distribuídas em Buenos Aires não valer cem e um cocada”.

Oh! Myyyyy! God! A preocupação procede. Após o 11 de Setembro, agentes da CIA encontraram a caverna cinco estrelas onde Osama Bin Laden costumava se hospedar no Afeganistão e perceberam, numa das paredes, a seguinte mensagem escrita em árabe:دعونا يخصوا الأميركيين من الأخضر والأصفر”, o que significa “Vamos capar os estadunidenses de verde e amarelo”.

Cara, presta atenção, o negócio é irado, coisa de agente ultrassecreto, ultrainteligente, ultra, mega, supersagaz: Osama... castrar... verde e amarelo... Entendeu? Manjou a conexão? Porra, as palavras do ex-líder da Al-Qaeda, antes mesmo da escolha da sede dos jogos, sugeriam a fabricação de preservativos-bomba a serem introduzidos em 2014 na saúde pública da nação canarinha.

São camisinhas de alta tecnologia equipadas com microexplosivos acionados pelo orgasmo em inglês. Gemeu “Oh, Yes!”, as bombinhas se armam no instrumento armado e aumentam a fricção para que a coisa esquente. Gritou “I’m cumming! I’m cumming!”, começa a contagem estilo 24 Horas, “ti-ti-ti-ti”, até a precisa desintegração do membro. E sem atingir a parceira ou o parceiro.

Os sexoterroristas pensaram em tudo para não deixar dick sobre dick, dong sobre dong, cock sobre cock. Por exemplo, o boy com ejaculação precoce, que por motivos óbvios não vencer a fase do “Oh, Yes!” para chegar à do “I’m cumming! I’m cumming!”, terá uma toxina injetada no órgão, à base daquela pomada para verrugas que trazia no rótulo a inscrição “endurece, amolece e cai”.

Fosse eu um americano interessado, como diz o poeta Mauro Mota, em “varrer da face do mundo/ regimes ditatoriais/ e democratizar todas/ as terras continentais/ a começar pelos sexos/ das meninas nacionais”, desistiria da missão e não transaria no Brasil nem usando camisinha testada por Bill Clinton. Seguro, nesse caso, é fazer justiça com as próprias mãos no WC da Casa Branca.

sábado, 24 de maio de 2014

O guru


Há mais mistérios entre o céu e a terra do que toda a sagrada filosofia de Juvêncio Bedegueba. Quando o mundo pensava que meu amigo Bruno Emanuel Pinto Barreto Cirilo cairia na gandaia, depois das últimas acontecências, o galego surpreendeu amigos e inimigos, em plena redação do O Mossoroense, com direito a fotografia, bolo e ponche, ao anunciar que pedirá demissão de jornal, rádio, TV e assessoria de comunicação, bem como renunciará a toda a forma de pecado, incluindo álcool e rock and roll.

Ateu convicto e militante, ele agora jura de pés juntos, mãos postas e olhos rútilos que, após década e meia, 26 dias, duas horas, três minutos e nove segundos de árduos embates filosóficos com nosso editor Márcio Costa, uma centelha de luz divina o penetrou, não no fundo, garante, mas profundamente, abrindo-lhe os olhos fechados para a espiritualidade desde quando frequentava as moçoilas do Canto do Mangue, o Alto do Louvor de Natal, sendo que na parte debaixo do vestido da Noiva do Sol.

A coisa é tão impressionante que até me esqueci dos pontos, limitando-me praticamente a vírgulas nos parágrafos anteriores, num emaranhado de orações subordinadas. Perdão, leitor, se o fiz perder o fôlego. Também estou afogueado. O anúncio do pequeno Barreto, sobrinho preferido de Emanuel Barreto, o Velho Barreto, meu querido professor da faculdade de jornalismo da UFRN, tomou-nos de supetão, em especial o desfecho: vai se mudar de cidade, de Estado, de País, tudo em prol de nossas almas.

Digo “nossas almas”, assim, convicto, porque ele, já distribuindo as primeiras vibrações positivas, assegura que intercederá por nós lá do Tibet. Sim, o Tibet, a capital espiritual do Universo, onde passará os sete primeiros anos de sua jornada em busca da verdade, ouvindo todos os supostos envolvidos nos enigmas da fé. A viagem, diz ele, começará 31 de fevereiro de 2015, no Templo dos Monges Virgens de Lhasa, a 3.683 metros acima do nível do mar, entre o Palácio de Potala e o Templo de Jokhang.

Inspirado nele, doravante meu líder espiritual, guru, futuro braço esquerdo do Dalai Lama, retiro-me da noite. Adeus, Snob, Psiu, Realce, Ferrão, Marrom Glacê, Burburinho, Vênus. Renego a cachaça, nada de Tatuzinho, Murim Mirim, Malhada Vermelha. Entrego-me ao celibato amplo, geral e irrestrito, sem anistia, certo de não voltar a cair nas tentações de Dorinha, Do Céu, Bataclã, Casa Grande, Paraibana, Creuza. Boêmia, não chores por mim, a santidade me espera, por obra de Bruno Barreto.

domingo, 18 de maio de 2014

MANCHA BRANCA


O fato de eu haver sido candomblecista na adolescência rende ainda comentários preconceituosos quanto àquela escolha, porque, a despeito da Lei Áurea, os grilhões ideológicos persistem nos pulsos e tornozelos de qualquer costume de origem africana. E olhem que sou agnóstico há cerca de 20 anos, o que também não é fácil sustentar numa sociedade onde o cristianismo da boca para fora é majoritário e, às vezes, irascível.

Quando digo qualquer costume, não exagero. Na década de 1990, um parente distante criticou-me duramente porque decidi praticar capoeira: “coisa de vagabundo”! E a ideia não era apenas dele. Lembro-me como se fosse hoje, o dia em que a polícia cercou o grupo do qual eu fazia parte, o Abadá Capoeira, do professor Dody, e nos ameaçou prender se não encerrássemos a apresentação na praça do Mercado Central.

Fiquei indignado e procurei o chefe de polícia autor da “ordem de prisão”, amigo cuja identidade tomo a liberdade de resguardar. Perguntei-lhe o motivo de tudo aquilo, se, além de manifestação cultural e esportiva, capoeira não é crime. A justificativa foi semelhante à crítica do parente, de nome igualmente preservado: “coisa de marginal!”, visão distorcida, traço de racismo que, não se engane, persiste no tempo da Globalização.

Quer prova? Vamos lá, cara-pálida! O Ministério Público Federal (MPF) do Rio de Janeiro ingressou com ação civil pública, mediante representação da Associação Brasileira de Mídia Afro, solicitando a retirada de 15 vídeos do Youtube, em que extremistas de outro credo execram fiéis da umbanda e do candomblé com expressões deploráveis que, acima do ódio gratuito, revelam nível penoso de intolerância e discriminação.

O caso foi parar na 17ª Vara Federal da seção judiciária carioca, na responsabilidade do senhor doutor juiz de direito etc etc etc Eugênio Rosa de Araújo, que negou o pedido do MPF para que o conteúdo seja retirado da Internet, até que se resolva o mérito da questão, utilizando-se, a excelência, de argumentos que extrapolam os limites da razoabilidade necessária ao exercício de um tal livre convencimento do magistrado.

Poderia, como o fez, basear a decisão nos direitos fundamentais a opinião, reunião e religião, e pronto, o que, no meu reles entendimento, já seria absurdo, por ignorar direitos igualmente fundamentais das pessoas difamadas e injuriadas nos vídeos. Até onde se sabe, honra, intimidade, vida privada, livre exercício de cultos, liberdade de consciência e de crença também são valores constitucionalmente assentados e garantidos.

O problema é que o meritíssimo, consciente ou não da carga ideológica e dos reflexos de seu discurso, disse, sem meias palavras, que, a despeito do mau gosto das cenas, não lhes determinaria a exclusão do Youtube, porque são legítimas “manifestações de livre expressão de opinião”, sem descuidar de que “As manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”, conforme a sua análise teológica de urgência.

Não o são, prossegue o juiz, pois “não contêm os traços necessários de uma religião a saber, um texto base (corão, bíblia etc) ausência de estrutura hierárquica e ausência de um Deus a ser venerado” (sic!). Eu, criatura ignorante de relinchar e distribuir coices ao vento, nascida no sertão de Mossoró, no bucólico e simpático Rabo da Gata, desconhecia a existência de uma definição jurídica para o termo “religião”.

Na doutrina do Aurélio, louvado pai de gente da minha laia, a laia dos burros, insignificante, porém, na jurisdição federal, religião é a “crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do universo, e que como tal deve(m) ser adorada(a) e obedecida(s)”; ou “Qualquer filiação a um sistema específico de pensamento ou crença que envolva uma posição filosófica, ética, metafísica”. E daí?

Daí, que a concepção do juiz e a realidade semântica que ele se propôs a decifrar nas primeiras linhas do julgado estão desvinculadas. Ao excluir umbanda e candomblé do universo das religiões, o magistrado, a exemplo das pessoas que zombam de quem foi ou é candomblecista e marginalizam a capoeira, revela a mancha branca quase sempre invisível que despreza a herança africana de um povo miscigenado.

A origem da intolerância religiosa é cultural e, em verdade, afeta o mundo. Tenho, contudo, direito de escolher. Tenho direito de ser católico, evangélico, budista, umbandista, candomblecista, muçulmano, hinduísta, testemunha de Jeová, adventista do primeiro ao sétimo dia. Tenho direito de ser agnóstico ou de ser ateu, graças a deus. Só não tenho direito de ofender quem busca respostas por rumos diferentes dos meus.

segunda-feira, 12 de maio de 2014


OS SEGUNDOS

Jamais lhe prometi a eternidade,
Muito menos o resto desta vida.
Minha alma que há tanto anda perdida,
Não dou, pois nunca a tive de verdade.

Também não sei fazer a primavera,
Apenas uma flor neste caderno
Onde rego o jardim da longa espera
Por um dia de sol no meu inverno.

Prometo as tempestades dos orgasmos
Loucura inquietação beijos espasmos
Desejo paixão febre ribanceira.

Prometo alguns minutos, vez em quando,
Segundos que, se a gente for juntando,
De repente, dão uma noite inteira.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ESPIRAL DO SILÊNCIO

Alguém chamada Sheherazade conta naturalmente com as mil e uma noites de minha admiração, ainda mais se é Rachel, tão linda quanto inteligente, mulher fêmea, sim, senhor, da Paraíba de meus ancestrais. Para completar, jornalista competente, corajosa o bastante para desafinar o coro dos contentes e reagir à ditadura do politicamente correto.

Afeito a paixões platônicas, acompanho-a desde antes da fama. Creio que desde quando a vi na TV pela primeira vez, enquanto eu e o poeta Caio César Muniz almoçávamos próximo à lagoa do Parque Sólon de Lucena, cartão-postal da capital paraibana. Que moça deslumbrante! E olhe que já chegou aos 40, segundo a revista Veja.

Nem sempre concordo com seus pontos de vista, mas não entendo os motivos e reprovo os meios daqueles que desejam silenciá-la por meio de agressões verbais, ameaças e perseguições. Os ataques sofridos por meu ídolo – lembrando que ídolo é substantivo de um só gênero, o masculino – afrontam os valores democráticos e apequenam o debate.

A propósito, Sheherazade estava radiante ao discursar na Câmara Municipal de João Pessoa, que a homenageou recentemente. Assisti à solenidade via Internet e, tirando o “Voltaire” pronunciado conforme a escrita, saiu-se muito bem no improviso, além de certeira ao registrar o silêncio dos defensores das liberdades individuais ante a tentativa de censurá-la.

Anotei alguns trechos: “Não é cômodo incomodar... minorias muito raivosas... poderosos que querem me calar, que querem usurpar de mim o direito constitucional de falar, de expressar o que eu sinto, o que eu acho, o que eu vejo, o que me incomoda. O dia que eu não pude falar... é o dia em que a mordaça venceu mais uma vez a liberdade de expressão”.

Troço complicado, a tal liberdade de expressão. Em Mossoró, a gente trabalha assustado, medindo a palavra com régua e compasso, pois notícia desfavorável, mesmo no campo institucional, rende processo e reprimendas econômicas, sem mencionar os prejuízos oriundos de famigerados “direitos de agressão” travestidos de “direitos de resposta”.

Tem características peculiares, que o diferencia de qualquer coisa do gênero, no mundo, a modalidade de “direito de resposta” gestada no ventre da Terra da Liberdade, onde a perseguição a órgãos e profissionais da comunicação que não mostram os fundos das calças aos inquilinos do Palácio da Resistência é pública, notória, desavergonhada e impune.

Enquanto a lógica jurídica e a boa técnica jornalística orientam no sentido de que o cidadão atingido por notícia ou opinião veiculada pela mídia apresente sua versão dos fatos, a qual se deve dar espaço igual ao da suposta ofensa, aqui se tenta obrigar jornal, rádio, TV, blog e o escambau a divulgar como se fossem suas as opiniões dos outros.

Há alguns meses, foi imposta ao O Mossoroense, mediante decisões judiciais liminares, a publicação de textos escritos e editados por terceiros, que, além de dissociadas dos assuntos abordados nas matérias “respondidas”, tentavam colocar palavras absurdas em nossas “bocas”. Coisas do tipo, “o jornal O Mossoroense reconhece...”.

Nunca houve nas citadas manifestações, interesse de esclarecer a opinião pública sobre algo. O objetivo era e continua a ser, a um só tempo, agredir, distorcer, manipular, desmoralizar repórteres e editores, manobra essa que, registra-se por dever de honestidade e reconhecimento, foi percebida e rechaçada por juízes experientes e de bom senso.

Parodiando François Andriex, no conto “O Moleiro de Sans-Souci”, ainda há juízes em Berlim! Do contrário, melhor seria largar a pena e se acomodar entre aqueles três macacos japoneses, o “não vejo”, o “não falo” e o “não ouço”, batendo continência para os que preferem o conforto da espiral do silêncio, na cidade onde até o Judiciário apresenta sua versão Luís XIV.

Nada estranho, sabendo-se que, por estas bandas, instituições emblemáticas a exemplo do Sindicato dos Jornalistas e da Ordem dos Advogados têm baixa tolerância a opiniões negativas, como no episódio envolvendo membros da OAB e o jornalista Bruno Barreto, bombardeado nas redes sociais por criticar, em quatro linhas, um pedido da instituição ao TRE.

Discordo da opinião do jornalista, como natural e constantemente discordam de mim na redação que dirijo, e expliquei-lhe os motivos. Bruno não se convenceu e contra-argumentou convicto. Debatemos sem ofensas e sem perder as estribeiras, pois encaramos as liberdades de pensamento e de expressão com naturalidade, respeito, amadurecimento.

É simples defender a voz daqueles que comungam dos nossos pontos de vista. Difícil é encontrar quem se mantenha fiel a esse propósito quando o discurso alheio incomoda, constatação que remete a Noam Chomsky, linguista americano, criador da gramática ge(ne)rativa transformacional, gênio da raça, como diria o saudoso mestre Vingt-un Rosado.

Chomsky sofreu o diabo, foi tachado de antissemita e banido de vários ciclos da intelectualidade, porque, embora discordando do conteúdo, teve a ousadia de publicar um artigo em prol do direito de um sujeito chamado Robert Faurisson, professor de literatura da universidade de Lyon, falar sobre a teoria de que o Holocausto nunca aconteceu.

O linguista, que rotulava o Holocausto de “a mais fantástica irrupção de insanidade coletiva na história da humanidade”, não advogou em prol das ideias, e sim pelo direito de o adversário ideológico expressar-se. Ao fim e ao cabo, Faurisson acabou condenado pela absurda acusação de “negar a história oficial”, enquanto Chomsky amargou a execração pública.

Apesar de tudo, a reação do linguista foi equilibrada e definitiva: “a liberdade de expressão (incluindo a liberdade acadêmica) não deve ser restrita a visões que alguém aprova, e que é precisamente no caso de visões que são quase universalmente desprezadas e condenadas é que esse direito deve ser mais vigorosamente defendido”.

Por isso, estou com Sheherazade até na Pérsia, na frente de Shariar, e não abro nem por cem e uma cocada. Embora reconheça que na era do satélite o grito de um sertanejo dos cafundós não sirva de escudo para seu ninguém, grito mesmo assim, porque a ameaça à liberdade de um indivíduo, jornalista ou não, atinge a liberdade de todos nós.

sábado, 26 de abril de 2014

PALAVRAS PERDIDAS


Que merda! Perdi as palavras ou as palavras se perderam de mim. Não sei ao certo, e, para falar a verdade, pouco me importa escrever de coração vazio, boca seca e olhos ateus. Talvez tenham arranjado um amante para aliviar o tédio de um casamento de quase 30 anos, cheio de entregas e abandonos, muito mais desleixo que cuidado.

No começo desta avassaladora crise verbodegradável, tanto perplexo quanto desesperado, cortei os pulsos com o fio cego de adjetivos primitivos, daqueles que estraçalham a carne em que se esfregam na substantivação da raiva. Enquanto esvaía-se o sangue, reli coisas minhas tiradas dos bolsos da calça, de gavetas e de arquivos digitais.

Inútil exercício de autoflagelo, porque, sinceramente, detesto quase tudo o quanto escrevo. E publico. Alguns textos fedem a roupa suja. Mas, apelei a Vinícius, Drummond, Quintana, Florbela. Pessoa mente e não me acode para declarar a tristeza por Gabriel García Márquez, que partiu deixando-me à mercê de cem mil anos de solidão.

Olhava a tela do PC e broxava. Recorri ao bloco de papel, rabisquei versos, ensaiei crônica, em abjeta tentativa de masturbação intelectual. Pensava na gota d'água que não amolece e muito menos fura, visto que nem os fantasmas de Charles Dickens abalam o coração da pedra bruta, e dura, quando me surpreendeu a flor cantando assim:

“Veleja, barquinho, veleja!
Veleja nas ondas do mar.
Leva-me sem remos, sem velas.
Leva-me sem vento e luar.
Veleja, barquinho, veleja!
Por que não sei velejar.
Sozinho eu me perco, barquinho.
No vai e volta das ondas,
Das ondas, das ondas de amar.

Veleja e me leva, barquinho.
Veleja para outro lugar.
Joga-me numa ilha, sozinho.
Bem longe das ondas do mar.
Veleja, barquinho, veleja!
Que eu rezo para não naufragar
A nau do meu coração,
No vai e volta das ondas,
Das ondas, das ondas de amar”.

Versos alheios tão meus, que dispenso dizer algo por agora. Já soltei a caneta e rasguei a papelada. Falta desligar o computador e velejar sem remo, sem rumo, sem prumo, sem vento, entregue a ondas que vão, que vêm e que me lambem os pensamentos cabeludos, até encontrar a ilha onde enterraram o baú das palavras perdidas em mim.

sábado, 12 de abril de 2014

O VISITANTE


Segunda-feira, 15h30min. Dia, mês e ano, deixei de anotar nos papéis reencontrados na bagunça do armário, entre livros, documentos, telas, CDs, DVDs. A hora, segundo consta, verifiquei no relógio do computador quando Daniela, à época recepcionista do jornal, interfonou-me comunicando que um sujeito queria falar comigo.

O cabra foi entrando, pois não há burocracia para se falar com qualquer funcionário do O Mossoroense. Era um moreno grisalho vestido com jeans e camisa de algodão branca de mangas compridas. Calçava tênis pretos, usava pochete semicoberta pela barriga saliente e transportava óculos escuros na cabeça, como se fosse uma tiara.

Acompanhei-o com os olhos enquanto atravessava a redação, na tentativa de conferir se o conhecia – tenho cabeça ruim para nomes e fisionomias. Ao nos cumprimentarmos, no entanto, descartei a hipótese, inclusive porque ele foi logo dizendo que viera por indicação de um amigo comum cujo nome preferia não revelar. Por enquanto.

Indiquei a cadeira com a mão espalmada e ele se esparramou feito mulher buchuda. Perguntei no que poderia ser útil. “Procuro um escritor”, respondeu-me, com a desculpa de que desejava contar “algo que você jamais ouviu na sua vida”. Agradeci a confiança e o rótulo de “escritor”, mas lamentei, esclarecendo minha prosaica condição de cronista.

Antes de fechar a frase, recebi a ordem: “Anota aí. Tudo. E publica quando meus planos se concretizarem”. Tentei mudar de assunto... “Anota aí, porra, vou matar minha mulher”. Abri o bloco do Banco CNH, alusivo ao 15º prêmio de jornalismo econômico, mais por espanto que medo, apesar da condição pública de frouxo convicto e militante.

Argumentei que a separação seria menos traumático para todos. “Nada feito”, disse ele, garantindo que, na verdade, estava separado. O problema é que a ex-mulher era uma “cadela” que lhe roubava as coisas e fazia sexo com o filho adotivo de ambos. “Há alguns dias, para completar, invadiu-me a residência e transou com meu cachorro”.

“O senhor deve pensar que sou louco”, prosseguiu atropelando as sílabas e embolando palavras em frases com a língua trôpega, “sei que não lhe trago uma história comum, dessas das pessoas simplórias, e, justamente por isso, preciso de alguém de grande sensibilidade que vá a casa comigo agora, tome café, beba água, ouça os detalhes”.

Agradeci pela gentileza e declinei do convite, pedindo que compreendesse a impossibilidade de sair no meio da tarde para o convescote. Expliquei que os afazeres de jornalista mantinham-me prisioneiro dos fatos até tarde, entrando por vezes na madrugada, além do que preferia não divulgar aquele negócio nem enquanto notícia.

O homem respirou fundo. Repousou as mãos cruzadas sobre a barriga. Fechou os olhos. Tornou a respirar. Desentrelaçou as mãos, levando a esquerda ao rosto, indicador e médio na testa, polegar no queixo. Pensou. Pediu sugestões, escritores de Mossoró, telefones, “alguém que possa escrever para eu não me esquecer de tudo um dia”.


Lamentei outra e outra e a derradeira vez. Ele agradeceu com um “obrigado” um tanto mudo, entre dentes, levantou-se ajeitando as calças e sumiu em passos rápidos, embora curtos. Talvez fosse louco. Talvez a mulher nem existisse. Nem ele. Talvez as anotações do bloquinho fossem tópicos de um conto qualquer. Quem diabos saberá?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

GALO DO ALTO


Nada de velho esta noite.
Tudo novo,
assustador.
Sem felinas,
sem azuis e acácias,
sem o povo.
Mulheres sérias
no 305 do edifício x.
O álcool da cerveja
evaporou,
levando consigo
o lirismo dos bêbados
para o sexto dos infernos.
Pelo menos o galo é do alto
e a cantora, linda,
embora com notas
mais graves que as minhas.
 A conta, por favor!


sábado, 18 de janeiro de 2014

Falta de absurdo


Falta de absurdo. O poeta Caio Muniz, governador de Iracema, botou um bar em Mossoró, ali na esquina da Frei Miguelinho com a Princesa Isabel, em sociedade com meu amigo Cário Sheves. Chama-se Camaroon e substituiu o alternativo Bom Bar, se é que isso é possível.

Dizem que a convivência de Caio e Cário com o bar é simbiótica, as raposas e o galinheiro com um monte de garrafas empoleiradas. Eles negam, e eu creio, pois na madrugada de sábado ambos estavam impressionantemente sóbrios, apesar das tentações e das queixas.

O velho Muniz, por exemplo, repetia a frase "A sobriedade é um porre", que inventei quando eu era, como diria o mestre Apolônio Cardoso, "poeta boêmio sem felicidade,/ que canta a saudade aos raios da lua", antes de me quebrarem as asas tortas de anjinho barroco.

Quanto ao resto, valho-me de Oscar Wilde para garantir que "resisto a tudo, menos às tentações". Meus amigos, até onde os conheço, idem. Mas suponhamos que resistam, aí estará provado que a propriedade do bar é o túmulo do boêmio. No sentido figurado, claro.

A festança de inauguração foi arretada. Músicos, escritores, poetas, loucos. Sobrou gente e faltou interferência. Para quem não sabe, interferência era o que nós da Poema - Poetas e Prosadores de Mossoró fazíamos há 15 anos, recitando versos onde não éramos chamados.

Quadros de Rogério Dias e balcões de Escravo ilustram o ambiente. Contudo, repito, faltou interferência. Até me convidaram, e obviamente rejeitei, afinal a coisa deve ser espontânea e partir de onde menos se espera, à la Torquato, de maneira a desafinar o coro dos contentes.

Não somos mais aqueles caras que declamavam poemas em feiras, sinais de trânsito, ônibus, escolas, cabarés. Tempos bons, apesar das não raras hostilidades. Laércio Eugênio chegou a "contratar" o grande Sotopá no Búzio como segurança, após sofrer uns catiripapos.

Lembro da vez em que chamaram a polícia porque Muniz leu sonetos na Cobal. Afastei copos, pratos e me pus de pé sobre a mesa, recitando Florbela, em protesto contra a tentativa de prisão que não ocorreu por muito pouco. Onde estava o Gordinho da Mercatto?

Estamos velhos, bem-comportados, entregues à comunicação preguiçosa das redes sociais, que nos afastam do humano e nos aproximam das musas virtuais. Estamos rendidos à palavra vegetal que se escreve, mas não se grita. Valei-me, Nossa Senhora das Bicicletas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

"Destinos" de Sulla Mino




Ouvi de um professor no curso de jornalismo, que o texto, para sem bom, tem de ser como um soco no estômago: surpreender, inquietar, intrigar o leitor. Sulla Mino consegue nos envolver de tal modo, que, do abismo, da queda sem fim, damos de cara com a planície. Segura. E, de repente, a terra inviolável abre-se no turbilhão de fonemas.

Puxo da memória a primeira leitura, um conto multimídia, lido por ela com ilustração de alguém cujo nome, desculpem-me, não recordo. Diferente, inovador. O sotaque carioca emoldurando as sílabas, o uísque, o copo quebrado, e Alice, menina arteira que adorava ler, caiu num buraco, contou três ou quatro causos, seduzindo o coelho.

Neste livro autodenominado "rascunho", "rabisco", guardam-se sorrisos muitos que se dizem poucos, confissões tantas que nem se contam. Claro, jura-se escuro porque as letras de Sulla são iluminadas sem renegar a força geradora das sombras, com aquele modo hipnótico de nos arrastar ao fundo das narrativas, tipo a sereia e o náufrago.

Não vejo Gilka, Augusto dos Anjos, Cecília Meireles, muito menos Drummond, o Carlos. Neruda? A Pessoa de Lispector? Vejo Alina, eu, você, a porra do vidro de calmante. Kélia? É um de nós no pesadelo do amor (im)possível? A roda-gigante, horas por cima, horas por baixo, aqui e acolá no solo, no horizonte. O espinho, a rosa, corpo caído.

Nutro o maior tesão por ruivas. Mentira, não tenho preferência, mas Lícia no tango é de lascar. Queria que ela gozasse. Sulla bota pra moer, o leitor quer e não sabe, sabe e não quer. Ela consegue enredar o cotidiano numa trama de sentidos. Consegue passear por temas conhecidos, amor, vida, morte, sem cair na mesmice nem parecer piegas.

A janela sem vistas do "Sexto Andar", porque "Levaram os olhos e já não se pode ver nada", abre-se ao som de Beethoven para uma metáfora inquietante da memória, bem como o "Ritual de Espera" embalado por Ravel. A música, o ritmo, a imagem, o cheiro, a voz da narradora, a pele arrepiada, tudo, o tempo todo, desafia-nos a sonhar.

Livro povoado de gente. Cada indivíduo, desde Lívia e sua carta, Alina, Bebel, Cibele, Leandra, até a moça que não faz muito desfilava as curvas e os cabelos pelo jardim, tem o livre-arbítrio de fazer-se história, de modo que, às vezes, parece repetir o dia a dia perante nossos olhos, como se estivesse bem aqui, contando-se num corpo verbal.

Há anos leitor de Sulla Mino, em prosa e verso, ainda me surpreendo com seu talento de persuadir a realidade a se vestir de ficção. Prefácio, francamente, é troço desnecessário para ela, no máximo ritual, pois suas personagens desvelam-se nos próprios atos e apresentam a autora com quem dividem a magia da criação literária.

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sábado, 28 de dezembro de 2013

Senhor Alguma Coisa


A arqueologia filosófica de Michel Foucault, um dos grandes pensadores do século XX, destrói o poder como algo onipotente, onisciente, monolítico, exercido do centro para as extremidades por força soberana implacável, única, o senhor frente aos escravos, o governo que domina cidadãos por meio de seus aparelhos repressores e ideológicos.

Segundo ele, as relações de poder são heterogêneas e se realizam em níveis complexos atravessados por outros níveis coletivos e particulares. A imagem que me vem à mente, lendo Michel Foucault, é a de uma teia de aranha, ou melhor, de uma teia social em que todo fio e cada conexão são pontos instáveis de reflexo e refração de vários poderes.

Há, no entanto, quem se deixe iludir pela interpretação errônea do poder absoluto e tente exercê-lo pela força institucional dos cargos, até perceber - se tiver sorte - a ingenuidade da pretensão. O poder é cachaça envelhecida em barril de sândalo, que domina tanto pelo cheiro quanto pelo álcool, e embriaga até os homens que se declaram sóbrios.

Conheço excelentíssimos camaradas de fino trato, equilibrados nas feições, fiéis à palavra de Deus, que, contrariados, encarnam a besta-fera. Os menos tarimbados lançam mão do relho, e batem, e berram, e berram, e batem, enquanto as raposas fustigam sem perder a serenidade, mas com o mesmo objetivo de humilhar demonstrando quem manda.

A propósito, ouvi de Ariano Suassuna, numa aula espetáculo, como é triste a redução do indivíduo à condição de autoridade. Meu avô materno, passado na casca do alho na lida com seres humanos em "estado de cargo", prevenia quem arrotava intimidade com figurões, para ter cuidado com as mudanças que a giroflex promove no espírito do sujeito fraco.

Quando me deparo com um tolo inebriado pelo poder que exerce, estilo Luís XIV, incorporando-o como algo intangível, lembro-me na hora de Pateta. Pateta, aquele cachorro Bloodhound do desenho animado de Walt Disney, no episódio inspirado na obra "Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde", para nós "O Médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson.

Brilhante metáfora das mudanças de comportamento das pessoas, conforme os aparelhos de poder disponíveis, a animação descreve os conflitos morais da personagem central. É a história do Senhor Andante, cidadão honrado, gentil, incapaz de machucar uma mosca, que, ao entrar no carro, vira o Senhor Volante, um monstro infernal, incontrolável.


Igual Pateta na armadura automotiva, muita gente se transforma no Senhor Alguma Coisa no breve e efêmero contato com instrumentos de exercício de poder, até ser consumido e desmoralizado. Aprendi com Foucault que o poder não existe, sendo a figura do plenipotenciário uma falsa percepção da realidade, e aqui digo eu, que embriaga os idiotas.

Diante de criaturas dessa ordem, recomendo a humildade destemida, pois, voltando às lições do meu saudoso avô, por vezes precisamos abrir os braços para não sermos engolidos. Na maior parte do tempo, contudo, basta observá-las piedosamente, enquanto, a exemplo do catoblepas, animal da mitologia etíope, comem os próprios pés. E caem.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O colecionador de imagens


Permanecemos aqui, trinta e tantos anos depois. Eu e minha irmã. Quando não mais estivermos, nem eu nem ela, aquele instante capturado na fotografia – quem a terá feito? – continuará vivo, pulsante, na imaginação de quantos nos virem crianças naquele cenário onde ensaiamos nossos primeiros passos.

Rua Meira e Sá. Portão largo, coqueiros altos, cisterna, choro antigo de menino besta, queda, dentes quebrados, cheiro de sopa, dos pães de Kiko. Nas imediações, Mercado Central, Beco das Frutas, Catedral de Santa Luzia. A casa de doutor Vingt e dona Lourdes... de dona Alice... de dona Treze... Hotel Caraúbas...


Lara nem lembra, nem poderia, e ainda brinca: “Deixe de conversa, Cid Augusto!”. Juro, eu lembro. Em pedaços, mas lembro. Dessas e de outras coisas. Detalhes, apenas flashs, nada completo, somente o bastante para enxergar, com olhos do hoje, a esperança estampada nos olhinhos da eterna criança do ontem.


Há outras fotos. A de um beijo, por exemplo. Não exatamente a do beijo, a da moça do beijo que evoca a trama, a saliva, o desejo. O desencontro. O reencontro. Maravilha de destino! Dorme, a mesma criatura de olhos castanhos, a poucos metros de mim, enquanto a madrugada, devassa, abre as pernas para o Sol.

Quantas lembranças! Coisas do tempo do “Do Bumba” revividas graças a Caby da Costa Lima, nosso Camaradinha, colecionador de amigos que, de tempos para cá, resolveu também juntar imagens. Imagens de amigos e de alguns ilustres desconhecidos, para, por meio delas, contar a História humana de Mossoró.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Viva Madiba!


Corriam os anos 1980, quando ouvi em Salvador um artista de rua entoar no Pelourinho "Libertem Nelson Mandela", espécie de lema internacional contra o apartheid na África do Sul. Para ser sincero, não sabia de quem o sujeito falava, mas fiquei impressionado e comovido.

Busquei respostas na biblioteca de casa, já que não existiam as facilidades da Internet, o "professor" Google, essas coisas todas. E nela estava uma referência a Madiba, a partir da qual passei a ler tudo o que fui encontrando sobre ele, especialmente textos jornalísticos.

Naquele tempo, a "Grande Imprensa" vencia com dificuldade as barreiras geográficas do País e pouco nos chegava. Meu avô, que se revezava entre Brasília e Mossoró, costumava presentear-me quinzenalmente com edições da Folha de S.Paulo e do Correio Braziliense.

Sabedoras dessa admiração, algumas pessoas, sempre que encontram, mandam para mim publicações, souvenirs. Guardo com o maior carinho a camisa com a caricatura e a coletânea com discursos dele, que meus pais compraram e me trouxeram de Joanesburgo.

Livros, tenho por aqui "Os caminhos de Mandela", "Nelson Mandela - conversas que tive comigo" e "Longo Caminho Para a Liberdade", os dois últimos dele próprio e o primeiro de Richard Stengel. O segundo é prefaciado por Barack Obama. O derradeiro já virou filme.

Li que ele gostava de um trecho de "Júlio César", de Shakespeare, sobre a perplexidade frente a morte. Selecionara-o a pedido de um colega de cárcere, na cela onde passou quase os 27 anos de sua prisão política, lugar tão pequeno que o obrigava a dormir curvado.

"Covardes morrem muitas vezes antes de suas mortes.
O bravo sente o gosto da morte uma única vez.
De tudo que vi
O mais estranho é que os homens tenham medo,
Já que a morte, um fim necessário
Vem quando vem".

Recorro então a Shakespeare e garanto que a morte veio, mas não veio para Nelson Mandela, pois nem ela teria o poder de sepultar a memória de quem, na luta contra dominadores brancos e dominadores negros, fez-se história como sinônimo de humanidade. Viva Madiba! 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

COM OS OLHOS


Teus sorrisos de vinho não respondem
Nada disto ou daquilo o que desejo.
Quando muito se mostram, mais se escondem
E se penso que enxergo, menos vejo.

Tenho notado, a noite está contigo,
Encobrindo as mentiras que me fala.
A julgar a verdade que em mim cala,
Parece que ela está também comigo.

Imagino o que posso e o que sonhei:
Entre luzes e sombras, as certezas;
Entre cruzes e espadadas, já não sei.

Por isso, não me atiça que eu te tomo,
Despido de pudores, sutilezas,
Te como com os olhos, mas te como.

sábado, 5 de outubro de 2013

Feofó iluminado


Mulher odeia cantada, 83% delas, pelo menos. É o que afirma pesquisa do OLGA, grupo que se define como "um think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje". Think tanks, para constar, são entidades destinadas a difundir conhecimento e estimular o debate sobre áreas que elegem como estratégicas, a fim de promover-lhes transformações ideológicas.

As cantadas mais ouvidas, de acordo com participantes da sondagem, são "Linda" - 84%, "Gostosa" - 83%, "Delícia" - 78%, "Fiu fiu" - 73%, "Princesa" -  71% e "Nossa senhora" -  64%. A maioria se dá na rua, embora muita gente relate assédios inconvenientes por parte dos colegas de trabalho. Quem reage é chamada de "Metida" - 45%, "Baranga" - 16%, "Gorda" - 13%, "Feia" - 23% e "Mal-comida" - 25%.

A timidez me deixa praticamente fora das estatísticas. Pelo que lembro, cometi duas imposturas, a primeira por questões de ordem linguística e a segunda depois de beber apaixonado, e com celular na mão, por uma mulher linda e inalcançável. Quanto a esta, sem delongas e sem abrir parágrafo, pedi mil desculpas e aprendi a lição: se se apaixonar, não beba! Se beber, esbagace o celular no chão.

No tocante àquela, estava eu em Brighton, interior da Inglaterra, quando, dentro de um ônibus à caminho do Eurocentres, escola onde estudei por três meses, deparei-me com uma jovem suíça de seus 25 anos, com o par de olhos mais azuis da face da Terra. Azuis, redondos, enormes, hipnotizantes, arrasadores... que nada prometiam - parodiando aqui Drummond -, embora tudo permitissem imaginar.

De repente, o ônibus parou na North Street, a moça desceu, caminhou alguns metros e entrou no edifício número 20, justo o meu destino. Naquele dia, perdi a aula divagando em pensamentos românticos e tentando decorar a cantada que, na condição de analfabeto universal, havia rascunhado para a figura, com auxílio do dicionário: "Your eyes are like the sky light" ou "seus olhos são como a luz do céu".

"Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... Repeti a frase mentalmente dezenas de vezes, durante horas. Reescrevi-a à exaustão no caderno... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... "Your eyes are like the sky light"... Apesar de piegas, lugar-comum, cafona, imaginei que o galanteio renderia um beijo, um sorriso.

No final do primeiro turno, texto decorado, avistei olhos azuis sentadinha num canto do refeitório, com irresistível jeitinho de maior abandonada, lendo "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Areia demais para o meu fusquinha 1971. De toda forma, como já estava ali mesmo, enchi os pulmões, trinquei os dentes e me aproximei todo prosa. Desejei bom-dia, pedi para sentar. Ela sorriu, autorizou. Sentei-me.

Ainda nervoso, mas resoluto, aqueci o juízo fazendo aquele exercício respiratório de mulher grávida na hora do parto - uf! uf! uf! - e soltei o verbo em alto e bom som. Todo mundo ouviu. Penso que hoje eu teria até visto permanente na Suíça se, em vez de "Your eyes are like the sky light", eu não tivesse trocado os olhos ao declarar "Your ass is like the sky light", algo como "seu feofó é como a luz do céu".

sábado, 14 de setembro de 2013

Alô, é o Papa!


O papa está telefonando aos fiéis. O Vaticano confirma, por exemplo, a ligação dele para uma jovem pecadora italiana grávida de um namorado desalmado que tentou forçá-la a abortar. Jorge Mario Bergoglio a tranquilizou e até se comprometeu em batizar a criança.

A Santa Sé registra que o pontífice igualmente levou palavras de consolo a certa vítima de estupro na Argentina e a determinado sujeito da cidade de Pesaro, Itália, cujo irmão foi assassinado. Nega, no entanto, contato com o sírio Bashar al-Assad e com um gay de Paris.

Desacreditem os homens de pouca ou de nenhuma fé, morram de inveja os fanáticos, regozijem-se os elevados de espírito, pois chegou a hora de revelar que também recebi o telefonema do Sumo Pontífice. Faz muitos anos, era sábado e todos na redação testemunharam.

Tudo começou com o sumiço de Edson Soares, grande jornalista, escritor, compositor, cantor, ator, à época assinando a editoria do "Caderno 2" do O Mossoroense, hoje "Universo" por inspiração de Emerson Linhares, diretor de jornalismo e programação da Rádio Difusora.

Trabalhamos até as duas da madruga e saímos certos de voltar às 10 horas para concluir a edição do domingo. Meio-dia, uma, duas, três horas. E nada de Edson. De repente, o telefone da redação toca. Atendo. Do outro lado da linha, o desaparecido balbuciava explicações.

Tentou sem sucesso, porque eu, emputecido, não deixei. Entendi apenas que havia sido teletransportado ou abduzido para Caicó, sua terra natal, a fim de ajudar um amigo em apuros com a mídia. Edson, para constar, é dos melhores assessores de comunicação do RN.

Minuto seguinte, outra chamada, e a voz grave: "Alô! Quem fala?". Respondi apenas "Cid". O interlocutor identificou-se: "Cid, aqui é o Papa!". Dei o goto e festejei: "Pronto, o Vaticano descobriu os milagres que venho fazendo na merda deste jornal e resolveu me canonizar".

A gargalhada do homem, marca registrada, deixou-me perplexo. Era mesmo o Papa, o "Papa Jerimum", como é conhecido o ex-governador Vivaldo Costa, à época prefeito caicoense, que intercedia para explicar a razão que o fez "sequestrar" meu editor em plena madrugada.

Amém!

sábado, 7 de setembro de 2013

TEORIA DO HOMEM TRISTE


Hoje, quero medir, saber quantas linhas um homem triste é capaz de escrever sem se envenenar, e sobre o que lhe sobra escrever sem autobiografar a teoria.

Homem triste!

Resto do resto, sobejo do nada, poema cafona, prosa desgrenhada, parceiro de porra nenhuma.

Homem triste!

Gota de veneno no mar de felicidade que transborda num brinde ao passado, abre aspas, maldito, fecha aspas.

Criatura monolítica, quebrantada em parágrafos, empachada de vírgulas.

De pontos. De vistas. De pontos. Cegos. De pontos. Mudos. De pontos. Moucos. De pontos. Insípidos. De pontos. Inodoros. Ponto.

Exclama tanto que soluça, perde a voz, engasga-se na confusão do lusco-fusco do texto meio noite meio dia.

Pergunta-se.

O que aconteceu entre nós, com sorte?

Quem deu o golpe fatal?

Quando virá a misericórdia?

Onde enterrarão a sombra do cadáver insepulto?

Como o diabo aproveitará uma alma em frangalhos?

A geografia do homem triste é uma ilha na lama.

Sua história, o mal do século, a hemoptise.

Homem triste!

Pulsos cortados, navalha de absinto, tédio, ódio, a puta que pariu, o corno que apanhou.

Aquele que vaga entre os vivos carregando o estandarte do purgatório.

O cafona, o ultrapassado que ouve Nora Ney cantar Antônio Maria: "Ninguém me ama/ Ninguém me quer".
Cansaço de tudo.

Cansaço.

Fim!

O túmulo do homem feliz.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Currículo de pescador


Minha vida tange a vela
da jangada navegante
em mar revolto.
Sou velho pescador,
mas nunca descubro,
ao romper
o horizonte das ondas,
se voltarei em breve,
tarde ou jamais.
E, em voltando,
se a pescaria
renderá peixe bom
ou apenas novas milhas
na lida das marés.
Aprendi ainda menino:
só calculo a pesca
quando as minhas mãos
engelhadas de água e sal
sonham, finalmente,
tocar a areia da praia.

Depois, então, eu acordo.

sábado, 24 de agosto de 2013

À flor da pele


Você mexe comigo de um jeito que não deveria. Ou deveria? O fato é que mexe com a suavidade de um soneto de Florbela Espanca. Sabe aquele?... "Sou talvez a visão que alguém sonhou/ Alguém que veio ao mundo prá me ver/ E que nunca na vida me encontrou"... Lembra?

Difícil resistir à ocasião de se fazer ladrão quando, na covardia, sacode os cabelos e me arrasta da memória uns versinhos franzinos alinhavados timidamente em estrofes juvenis que mal cabem em si de tanta insensatez. A vontade é a de assaltar-lhe mísera dúzia de beijos.

Ainda mais se abre a boca num vendaval de doidices e entorna sem cuidado o caos nos meus ouvidos, acusando-me de saber, de me fazer mouco, doido, algo assim. Logo eu, criatura, sempre incriminado do contrário, de ouvir e promover delírios no lirismo restante da embriaguez.

Às vezes me enrosco em sua língua numa luta sem tréguas, à caça de gemidos. Outras, minhas mãos violam seu vestido e se perdem na multidão dos próprios dedos. Certas horas lambuzo suas coxas, suas costas, a barriga, até desmaio à sombra de estrelas invisíveis. Sente?

Eu mexo com você, diz você, de um jeito que não poderia. Ou poderia? Talvez seja a pele, só pode ser. Coisa de pele não se explica e muito menos se prova. A arquitetura do arrepio desconstrói a espinha, espalha o sangue e infla de repente os pulmões, mas nunca deixa rastro.

Não precisa escancarar a janela, a musa só espera uma brecha para invadir o ambiente nas patas de um gato pardo desses que vivem por aí, sem eira nem beira, sobrevivente do amor com hora marcada. Não fará barulho nem incomodará os anjos caídos pela sala de estar. Creia.

sábado, 17 de agosto de 2013

Resistência


 Sou do tempo em que jornalista diplomado era persona non grata nas redações de Mossoró. Os primeiros que chegaram à cidade comeram o pão que o diabo amassou para se estabelecer, exceto os que frequentavam o meio antes de conquistar o canudo.

Durante 16 anos, até me graduar na UFRN, atuei como "provisionado", espécie de repórter sem formação acadêmica específica que exerce o ofício com autorização expressa do Ministério do Trabalho, algo em desuso desde a derrubada da exigência do diploma.

Muitos colegas da velha guarda protestaram quando passei no vestibular. Canindé Queiroz, um dos maiores polemistas da mídia norte-rio-grandense, telefonou parabenizando-me pela aprovação, mas não sem lamentar meu “rebaixamento de profissional a estudante”.

Pouco antes, em agosto de 1998, levei ao reitor José Walter da Fonseca a proposta de se criar um curso de comunicação na Uern. Isso, na condição de menino de recado do saudoso amigo Rogério Bastos Cadengue, que nos deixou aos 11 de setembro daquele ano.

O reitor anuiu e logo em 2002 o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão oficializou o sonho que Rogério infelizmente não viu realizar-se. Na verdade, Walter fez mais, porque além da habilitação em jornalismo estendeu o processo seletivo para publicidade e rádio e TV.

De lá para cá, o Curso de Comunicação da Uern vem evoluindo e mudando a cultura das nossas redações, onde os diplomados já superam em número os práticos, com destaque para a excelência dos professores que, embora sem estrutura, conseguem formar bacharéis de alto nível.

Semana passada, eu que percebo essa evolução acadêmica no dia-a-dia, graças à convivência com colegas formados ali, fiquei emocionado ao testemunhar outro exemplo de amadurecimento do curso: o documentário "Resistência", que narra a história d'O Mossoroense.

O vídeo feito pelos alunos Cleania Silva, Francinaldo Rafael, José de Paiva Rebouças, Ramon Vítor, Rayane Medeiros e Rosalba Moreira, orientados pela professora Márcia Pinto e com apoio de Edileusa Martins e Oziel Peixoto, tem padrão de mercado.

Só não digo que ficou impecável, por causa de minha presença entre os entrevistados.

De qualquer modo, resta a nós do jornal de Jeremias da Rocha Nogueira, primeira escola de jornalismo desta província, agradecer pela homenagem e registrar nosso reconhecimento à importância do Curso de Comunicação da Uern para o desenvolvimento da imprensa potiguar.

sábado, 10 de agosto de 2013

Mestre Picasso



Conto biográfico baseado em mentiras reais.


Mestre Picasso das Virgens costumava tomar umas lamboradas de cana no meio da madrugada, no Beco das Facas, junto ao Mercado do Peixe. Entrava sem dar palavra, erguia a mão, o dedo indicador estendido, no que Zé Maria, o dono do bar, já lhe servia aquela dose de Rainha das antigas, com respeitáveis 53 graus de teor alcoólico.

A primeira, ele virava para espalhar o sangue e juntar as ideias, como se fosse na veia. Da segunda em diante, degustava junto ao estranho tira-gosto de pimenta malagueta cortada em rodelas pelo próprio Zé, o dono do estabelecimento, que conhecia as manias do freguês e amigo de longos anos. Um gole, uma rodela de pimenta, nenhuma careta.

Somente depois da quarta ou quinta, Picasso relaxava e se dirigia individualmente aos presentes.

- Bom-dia, Fulano!

- Bom-dia, Beltrano!

- Bom-dia, Sicrano!

Aí, calava-se, contando com o respeito dos amigos circunstanciais que evitavam importuná-lo com perguntas vagas ou respostas que não eram pedidas.

Nasceu no Santo Antônio, filho de Maria Enorme e Antônio das Virgens, e, diferente do que muitos ainda hoje imaginam, não foi a mãe, dona de uma badalada casa de recursos nos tempos áureos do Alto do Louvor, quem resolveu dar ao filho o nome Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso... das Virgens.

A escolha adveio do pai, cafetão doido por rapariga, dinheiro e artes plásticas. Nem precisa dizer, o espanhol era seu ídolo. Não à toa, as paredes do cabaré de Maria Enorme eram ornamentadas com réplicas de obras das fases azul, rosa, africana, analítica, cubista sintética e surrealista do pintor ídolo de seu, digamos, marido.

Havia, aqui e acolá, reproduções de cartazes de Toulouse-Lautrec, para garantir a sofisticação do ambiente com toques de Art Nouveau. Lautrec chegou a disputar a denominação do menino. A mãe interferiu apenas para dizer que, se era para batizar a criança com palavra esquisita, que fosse Picasso, de maior simbologia e enquadramento temático.

O herói cresceu entre prostitutas, rufiões e outras figuras do alto meretrício de Mossoró. Não caiu na gandaia nem se deixou seduzir pela noite porque não quis. Tornou-se mestre de obras dos bons por esforço próprio, altamente requisitado e recomendado, a ponto de o ofício tornar-se prenome. Seus únicos pontos fracos eram a aguardente que o arrastava ao beco e um temperamentozinho polido que nem macambira.

Fazia relativo sucesso com a mulherada, a começar pela alcunha. A maioria, sem compreender a homenagem ao gênio de Málaga, desejava conferir se o instrumento correspondia à propaganda. Pelo que se sabe, nunca houve queixas. Seja pelas proporções ou pela qualidade da mexida, sobravam-lhe suspiros apaixonados.

Tudo isso fazia de Mestre Picasso um indivíduo confiante, mesmo antes do terceiro engasga-gato, quando qualquer sujeito alcança as fronteiras da alegria. Quem o estragou, deixando-o daquele jeito, macambúzio, foi Mocinha, quenga independente que prestava assistência domiciliar aos meninos do Nova Betânia.

Mocinha amoleceu Picasso e depois o abandonou. Fugiu para a Inglaterra, a desalmada, com um alemão de sotaque paraibano que conheceu numa praia entre Icapuí e Canoa Quebrada.

Naquela manhã, Picasso tinha nas mãos motivos de sobra para beber até se destroncar. No envelope com o carimbo do Royal Mail, os correios ingleses, o convite do casamento entre Mocinha e Thomas Kuderrã da Silva, que a megera enviara de sacanagem, como golpe de misericórdia.

E funcionou, pois Mestre Picasso sucumbiu no democrático balcão de Zé Maria instantes depois de erguer o copo de Rainha e esfolar a garganta no berro ouvido até na lanchonete de Zé Leão:  

God save the queennnnnn! Aquela vagabuuuuuuunda!

Ninguém entendeu o francês, mas todos responderam ao brinde que inaugurou a manhã e deu prumo ao dia no Beco das Facas.

domingo, 4 de agosto de 2013

Vista do terraço


Em consequência do pé quebrado, venho dedicando mais tempo do que o habitual à leitura e aos pensamentos. Passo horas na varanda do quarto, sentado na cadeira de rodas, viajando em livros e boas lembranças.

Domingo último, no fim daquela tarde estranhamente calma, deparei-me com o trecho de um livro que tratava do assunto sobre o qual, momentos antes da leitura, eu falava aos meus pacientes botões.

Não! Por favor, não pensem que foi algo mediúnico. Satisfaço-me com a explicação simplória de que tudo foi apenas feliz coincidência entre meus devaneios e o texto, cujo nome do autor trataram de apagar.

Escrevo desse modo, porque aprendi a valorizar as coisas pelo ângulo humano, porque descobri que a beleza de certos momentos está exatamente no fato de eles apenas acontecerem ou não, sem explicações.

Penso mesmo que foi à toa que, após idealizar a minha Marília no cenário de mar e coqueiros, encontrei um apaixonado e apaixonante relato sobre Tomaz Antônio Gonzaga e sua musa, Marília de Dirceu.

Coincidência, sim. Afinal, todas as Marílias, inclusive as que inventamos para passar o tempo ou como motivo daqueles tolos mas deliciosos poemas de amor, são iguais, sempre distantes, inalcançáveis.

Muitas vezes, é melhor que as musas permaneçam afastadas para não assassinar a poesia. É comum, nessa arte de malucos e sonhadores, a personagem idealizada ser morta por suas feições reais.

Se Gonzaga a tivesse possuído, talvez Marília desaparecesse, a exemplo de tantas outras que passaram. Por isso, contento-me com a simplicidade da vista do terraço, pois, somente assim, a fantasia será eterna.

(Tibau-RN, 22.1.2002)


sábado, 27 de julho de 2013

O papa é pop


Dizem que os Engenheiros do Hawaii venderam 400 mil cópias, em 1990, do álbum "O Papa É Pop". Eu tinha um em vinil. Músicas como "O Exército De Um Homem Só", "Era um Garoto Que, Como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones" e "Pra Ser Sincero", além daquela que intitula o projeto, são ouvidas até hoje em casas noturnas do Brasil, de Norte a Sul.

O carro-chefe do disco, aqui para nós, numa interpretação ultrapessoal, critica a massificação dos fatos e das pessoas pela mídia, a ponto de tudo e todos se tornarem alvos do bem e do mal. Nem o papa João Paulo II, que "Deus deu de Graça", conforme Gonzação, foi poupado de manchetes e de "um tiro a queima roupa", afinal "o pop não poupa ninguém".

Karol Wojtyla era querido e respeitado. Ocupou o trono de Pedro por quase 27 anos, a partir de 1978. O nome dele reverberava nos templos como a do santo a que será elevado. Foi estadista, falava 13 idiomas, influenciou o fim do comunismo na Europa, aparou arestas com judeus, islâmicos, ortodoxos e anglicanos. Visitou 129 países, só o Brasil por quatro vezes.

O hino dos Engenheiros, da autoria de Humberto Gessinger, é o que vem à mente com as transformações históricas às quais assistimos desde a fumaça branca do último conclave. O chefe supremo dos católicos no Twitter, igual a qualquer cidadão, tirando onda com a brasilidade do Todo-Poderoso - "Deus é brasileiro e vocês queriam um papa?". Quem diria!

O papa Francisco é pop, muito mais que os antecessores. Sua mensagem ao Brasil foi ouvida com simpatia até por seguidores de outros credos, agnósticos, ateus. O Vaticano, acostumado a impor dogmas goela abaixo e a proteger pedófilos sob batinas, ganhou líder capaz de trazer a instituição à realidade do terceiro milênio e frear a debandada de fiéis.

Justiça seja feita a Bento XVI, que, no corajoso ato de renúncia, revelou a humildade que ninguém enxergava nele e pôs fim à ideia faraônica da infalibilidade. A humanização, no entanto, está na carne e no sangue latino de Jorge Mario Bergoglio, cujo grande desafio será colocar a instituição mais rica do Planeta a serviço dos pobres. Tomara que consiga.


sábado, 20 de julho de 2013

Bolseta Família


Um membro duro da sociedade baiana tentou pagar uma garota de programa com o cartão do Bolsa Família, em Itapetinga, cidadezinha de aproximadamente 70 mil habitantes situada a 500 e tantos quilômetros de Salvador. Aflita e se sentindo lesada, a profissional do sexo pediu ajuda aos funcionários do motel, aos berros de "Golpe! Golpe!".

O sujeito não fez por maldade, estava precisado, a perigo, matando cachorro a grito. A moça, no entanto, esclareceu que sua maquineta não serve nem para passar cartão de crédito, quanto mais de programa social do governo; e que o bacalhau, a exemplo da sacanagem que fizeram com o camarão, foi vetado enquanto possível ingrediente da cesta básica.

Não adiantou o caboclo mencionar o caráter educativo do ato, as posições ideológicas do Kama Sutra e a eficácia fisioterápica dos alongamentos noturnos. Estado de necessidade, legítima defesa, protesto contra o orgasmo supostamente fingido pela jovem, a irresignação do povo brasileiro, nada sensibilizou a interlocutora.

O recepcionista do motel, na dúvida quanto aos honorários da trabalhadora e na suspeita de que o estabelecimento ficaria no prejuízo, chamou a Polícia Militar, que, de pronto, mandou guarnição ao local. O camburão teria entrado no estabelecimento,  com sirene ligada e luzes vermelhas piscando, só para criar aquele clima fetichista.

O herói da história ainda pediu que experimentassem seu Cartão do Cidadão, aquele emitido pela Caixa Econômica para a galera consultar saldos e sacar FGST, PIS, seguro-desemprego, abono salarial, essas coisas. A dona, contudo, revelando-se antenada com as transações - bancárias! - cortou-lhe o barato sem dó nem piedade: "Na poupança não entra!".

Sobrou para o som do carro, empenhado como garantia do pagamento das duas despesas, instante em que o membro da classe operária, ainda rijo, partiu em busca de socorro financeiro. Normal, tenho notícias de amigos que, além do insucesso nas projeções, precisaram deixar relógio, celular e pneu de estepe como caução do todinho.

Não se ria, meu amigo, pois a coisa é gravíssima, virou matéria na Folha de S. Paulo, e com destaque. Até a gloriosa Polícia Civil entrou no caso com unhas e dentes. O delegado quer explicações urgentes sobre o fato de os militares não terem formalizado a ocorrência nem prendido o meliante, autor da tentativa sabe-se lá de quê.


Espera! De repente, cai-me feito farelo de telha no cocuruto, um baião das antigas: "Tem mala, malinha e maleta/ Tem bolsa, bolsinha e Bolseta". Elementar, meu caro, o crime do indigitado está em recriar um diminutivo que a sabedoria popular acata, mas o dicionário não reconhece. Delito gramatical: Tem Bolsa, Bolsinha... e Bolseta Família.