Segunda-feira,
15h30min. Dia, mês e ano, deixei de anotar nos papéis reencontrados na bagunça
do armário, entre livros, documentos, telas, CDs, DVDs. A hora, segundo consta,
verifiquei no relógio do computador quando Daniela, à época recepcionista do
jornal, interfonou-me comunicando que um sujeito queria falar comigo.
O cabra foi
entrando, pois não há burocracia para se falar com qualquer funcionário do O
Mossoroense. Era um moreno grisalho vestido com jeans e camisa de algodão
branca de mangas compridas. Calçava tênis pretos, usava pochete semicoberta
pela barriga saliente e transportava óculos escuros na cabeça, como se fosse
uma tiara.
Acompanhei-o com
os olhos enquanto atravessava a redação, na tentativa de conferir se o conhecia
– tenho cabeça ruim para nomes e fisionomias. Ao nos cumprimentarmos, no
entanto, descartei a hipótese, inclusive porque ele foi logo dizendo que viera
por indicação de um amigo comum cujo nome preferia não revelar. Por enquanto.
Indiquei a
cadeira com a mão espalmada e ele se esparramou feito mulher buchuda. Perguntei
no que poderia ser útil. “Procuro um escritor”, respondeu-me, com a desculpa de
que desejava contar “algo que você jamais ouviu na sua vida”. Agradeci a
confiança e o rótulo de “escritor”, mas lamentei, esclarecendo minha prosaica
condição de cronista.
Antes de fechar
a frase, recebi a ordem: “Anota aí. Tudo. E publica quando meus planos se
concretizarem”. Tentei mudar de assunto... “Anota aí, porra, vou matar minha
mulher”. Abri o bloco do Banco CNH, alusivo ao 15º prêmio de jornalismo
econômico, mais por espanto que medo, apesar da condição pública de frouxo
convicto e militante.
Argumentei que a
separação seria menos traumático para todos. “Nada feito”, disse ele,
garantindo que, na verdade, estava separado. O problema é que a ex-mulher era
uma “cadela” que lhe roubava as coisas e fazia sexo com o filho adotivo de
ambos. “Há alguns dias, para completar, invadiu-me a residência e transou com
meu cachorro”.
“O senhor deve
pensar que sou louco”, prosseguiu atropelando as sílabas e embolando palavras
em frases com a língua trôpega, “sei que não lhe trago uma história comum,
dessas das pessoas simplórias, e, justamente por isso, preciso de alguém de
grande sensibilidade que vá a casa comigo agora, tome café, beba água, ouça os
detalhes”.
Agradeci pela
gentileza e declinei do convite, pedindo que compreendesse a impossibilidade de
sair no meio da tarde para o convescote. Expliquei que os afazeres de
jornalista mantinham-me prisioneiro dos fatos até tarde, entrando por vezes na
madrugada, além do que preferia não divulgar aquele negócio nem enquanto
notícia.
O homem respirou
fundo. Repousou as mãos cruzadas sobre a barriga. Fechou os olhos. Tornou a
respirar. Desentrelaçou as mãos, levando a esquerda ao rosto, indicador e médio
na testa, polegar no queixo. Pensou. Pediu sugestões, escritores de Mossoró,
telefones, “alguém que possa escrever para eu não me esquecer de tudo um dia”.
Lamentei outra e
outra e a derradeira vez. Ele agradeceu com um “obrigado” um tanto mudo, entre
dentes, levantou-se ajeitando as calças e sumiu em passos rápidos, embora
curtos. Talvez fosse louco. Talvez a mulher nem existisse. Nem ele. Talvez as
anotações do bloquinho fossem tópicos de um conto qualquer. Quem diabos saberá?
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