sábado, 23 de junho de 2012
Se for escrever, não beba. Se for beber, não escreva!
sábado, 16 de junho de 2012
Tigresa
Neste caso, porém, não se trata de ufanismo. O meu pai, sujeito comedido nos gestos e elogios, além de profundo conhecedor da arte musical, é minha testemunha. Foi doutor Laíre – e não eu – quem falou, ao saber da morte deste filho de Maria do Cartório, lá de Tibau, que Ricardo emocionava ao cantar Tigresa.
Há meses eu não ouvia esse que é um dos mais belos poemas da MPB. Reencontrei-o na madrugada, na voz de Lene Macêdo e no violão de Jô Fernandes, harmoniosos na vida e na arte, juntos faz 20 anos, contando oito de noivado. Bons amigos, mas têm um defeito que preciso reconhecer: nunca se apresentaram em Mossoró.
No mesmo dia, assim que acordei, corri para comprar o álbum Noites do Norte, de Caetano, para ouvir Tigresa. A faixa 3 do CD número 2 deve estar perto de ser furada, tantas têm sido as repetições, porque sou compulsivo com chocolate, com os livros, as mulheres e as músicas de minha vida, sem medo de me envenenar pelo excesso.
É verdade que o exagero às vezes nos leva a enjoar o objeto de nossa obsessão. "Tudo em excesso é veneno", costuma dizer dona Sandra, minha mãe. Porém, as coisas são passageiras e sempre preciso gritar igual ao poeta que martela minha cabeça com aquele verso que se traduz numa filosofia de vida: "Eu morro à míngua de excesso!"
Agora é tempo de compreender que o mal do exagero pode ser bom e o bem do comedimento, cruel; agora é tempo de ouvir a tigresa dizer que "com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher, que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor e espalhado muito prazer e muita dor".
Se eu soubesse tocar o violão que enfeita a parede do escritório, talvez encerrasse a crônica dizendo ter corrido a ele, "num lamento, e a manhã nasceu azul". Mas, embora imagine "como é bom poder tocar um instrumento", prefiro escrever bobagens até que a noite nasça negra, fazendo com que todos os gatos sejam pardos.
9.7.2002
sábado, 9 de junho de 2012
“Mãe de bandido”
sábado, 2 de junho de 2012
Santos olhos
sábado, 26 de maio de 2012
Língua morta
sábado, 19 de maio de 2012
LYON
sábado, 12 de maio de 2012
Doutor Saraiva
sábado, 21 de abril de 2012
As vaginas de Hazel Jones
sábado, 14 de abril de 2012
Ave, Kydelmir!
sexta-feira, 30 de março de 2012
ESTAÇÕES
sábado, 17 de março de 2012
Augusto Floriano
sábado, 10 de março de 2012
Estado de coisa
sábado, 3 de março de 2012
Fora do texto
sábado, 7 de janeiro de 2012
The end
sábado, 24 de dezembro de 2011
Palavras e amigos
sábado, 17 de dezembro de 2011
Conto de Natal
Inacreditável: acabo de disputar o banheiro com Papai Noel. Ele chegou transtornado, suando feito tampa de chaleira, e furou a fila sem a menor cerimônia. A vez era minha, juro por Deus, então protestei gritando um “Êpa!” logo ecoado nas bocas dos demais sofredores. Alguns, em situação visivelmente pior, acrescentaram desaforos ao enredo.
Depois de encastelado naquele templo de ágata, muito bem sentado no trono, o Bom Velhinho passou a nos desejar fortuna, amor, paz, e a clamar paciência, como um perfeito cristão. Em seguida, hô-hô-hô, começou a nos intimidar: se não o deixássemos esvaziar o saco e coisa e tal, usaria as missivas com nossos pedidos a fim de limpar o fiofó.
A galera apelou, pois chantagem dessa ordem é inadmissível. Queria arrancar o indivíduo pelas barbas brancas, enfiar-lhe goela abaixo a bolinha do gorro, chutar-lhe a enorme trouxa vermelha. Ninguém, no entanto, conseguiu aproximar-se. A inhaca de peru estragado na véspera – eca! – avançava pelas frestas da porta e rechaçava o inimigo.
Interferi, mas quase apanhava. Ofereci a vez, mas não colou. Propus enviar carta por debaixo da porta, mas o papel estava lá dentro. Chamar Rafinha Bastos para comê-lo com barriga e tudo, mas Ronaldinho reclamaria. Chael Sonnen para desafiá-lo estapeando o bumbum da Mamãe Noel, mas a Lei da Palmada complicaria a vida do lutador.
Santa Claus demorou além do necessário. “De pirraça”, diziam os sobreviventes da fileira já um tanto acrescida de desesperados. O sujeito ainda provocava cantarolando “Jingle bells, jingle bells, acabou papel”. Foi quando perdi as vontades e debandei, não sem bater à porta e mandar o tal Papai Noel... ter um feliz Natal e um profícuo “ânus-novo”.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Não deu tempo reagir
Não deu tempo reagir. A bandida jogou-me na cama, invadiu-me as calças com a mão ligeira e botou para fora o que julgava seu de pleno direito. Lambeu, mordeu, esfregou entre os peitos, no rosto, engoliu, deixou no ponto. Aí, agarrou movimentando devagar, mas com força, enquanto passava a língua em meus lábios inundados de saliva.
Tomei as rédeas. Segurei-a pelos cabelos num movimento perpendicular que a deixou de lado, sobre o colchão. Entrei fundo, sem pedir licença, sem alterar a pintura, deslizando entre paredes de carne úmida. Ela reagiu com arrepios, gemeu e mais gemia, baixinho, com um ou outro sobressalto, na cadência dos nossos corpos quentes, suados.
Seios latejavam no céu da boca liberando hormônios alucinógenos através dos bicos eriçados, uma espécie de fonte das fantasias, as de sempre e as da vez digladiando-se nas mentes desprovidas de pudor. Isso, enquanto a bunda abundava entre os dedos que a apertavam, testemunho do vigor dos tecidos, da veemência da matéria pulsante.
De repente estávamos de frente, revezando-nos na escala horizontal, em cima, embaixo, a cama preenchida, parecíamos tantos. De repente nos levantamos sem sair um do outro, portas, guarda-roupa, criados-mudos, armadores de rede, cada recanto. De repente por trás, de dois, de quatro, sem pé nem cabeça, sem chão. De repente no chão.
Havia sinais de explosão quando a doida vibrou no mesmo tom. Tremores, rigidez muscular, revirar de olhos, sensação de se entregar à morte sem deixar de viver, dentes trincados, até que, atingido por ela o máximo do máximo, arranquei-me de dentro para banhá-la por fora com jatos de âmbar. Aí, enroscados, nos apaziguamos. E dormimos.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Entre pessoa e heterônimo
Descobri algo assustador: minhas dores não caberiam nesta página. Nem que me dessem um jornal inteiro, não se mostrariam por completo. Dadas as circunstâncias, melhor mantê-las onde estão, no fundo da alma, gritando inutilmente contra as paredes do buraco negro que habita em mim, à espera de cura ou de paliativo que as adormeçam.
Madrugadas, bares, mulheres em cetins, versos para envolver musas desinteressadas ou, quem sabe, apenas distraídas, soluços ébrios entrecortando orações. Foi-se o tempo das sutilezas, quando as paixões duravam a eternidade das horas de uma noite, as raparigas vestiam luzes vermelhas e gatos pardos se amavam feito loucos nos telhados.
A poesia caiu em alto-mar, sem que dessem por sua falta, nas rotas de “Oropa, França e Bahia”. Agora, por circunstâncias vis, não consigo tocar a lira, herança de Orfeu; não posso gritar “Evoé!” para começar a orgia; e só me vem à telha, repetindo-se sem parar, a canção de Caetano com a realidade nua e crua: “O grande escândalo sou eu aqui, só”.
Queria desabar no sono em vez de escrever: a insônia é quem escraviza o lápis entre meus dedos curtos, impróprios para os adeuses. Queria dormir e sonhar: a vigília é quem instiga o pesadelo, cão de três cabeças que espreita as portas do inferno para ninguém escapar. Queria ser menos triste: quem tanto se derrama um dia será seco feito pó.
Enquanto isso, palavras feridas curvam-se aos pés da vencedora e mostram o fundo das calças sem constrangimento. Elas, as palavras, até esboçam reação, mas os acentos circunflexos pesam sobre suas veias um tanto corrompidas por desilusões, levando-as a me dizer, como naquele velho Tango pra Teresa, “Que é hora de lembrar/ E de chorar”.
Por sorte, sou muitos. Divido-me na confusão entre pessoa e heterônimo e assim sobrevivo dos que me absorvem. A ideia do múltiplo pulveriza a angústia e evita que o indivíduo em estado de merda puxe em si a descarga. Estopar o vale de lágrimas, porque existe vida além das covas, será o próximo ato antes de reabrir o barraco à visita pública.
sábado, 26 de novembro de 2011
"Me lave"
Em San Marcos, no Texas, Scott Wade criou a “Dirty Car Art”, que ouso traduzir como “Arte de Carro Sujo”. Ele aproveita a atmosfera poeirosa semelhante à de Mossoró para criar obras de arte nos vidros de veículos estacionados em via pública. Do pó, nascem e renascem pessoas, animais, plantas, paisagens, monumentos, criaturas surreais, de tudo.
Meu automóvel, que é preto e só vê água quando chove, não por desleixo, mas pela demanda, daria um painel sertanejo, com vaqueiros trajados à rigor, cavalgando no chão rachado em busca das reses perdidas na caatinga. Muito melhor do que encontrá-lo servindo de quadro negro para piadinhas tão antigas quanto a sagrada posição dos monarcas.
Nada mais cafona do que escrever "Me lave" no vidro ou na lataria de um carro empoeirado. Pior se o carro for o meu, pois, além de tudo, o indigitado corre o sério risco de contrair tétano. Além disso, há de se duvidar dos hábitos de higiene física e mental de quem sente prazer em enfiar o dedo na sujeira para deixar mensagens cheias de “originalidade”.
E não se resume à cafonice. O ato, degrau anterior à coprofagia, reveste-se também da maior cara-de-pau - e o caso é mesmo esse - quando o paladino da limpeza automotiva é famoso pela aversão à água, escovas de dente, desodorantes. Revela a doença que os neofreudianos descrevem, em documentos secretíssimos, como filhadaputismo latente.
É, camarada, vi você ensebando o vidro traseiro do Cid Móvel com seu dedo sujo, no pingo do meio-dia, e tive uma vontade quase irresistível de enfiar-lhe o meu nas suas costas para escrever "Vá tomar banho", "compre pastilha", "passe limão" ou, ao menos, para lhe proporcionar um toque reto sobre colocação pronominal, básico da língua portuguesa.
sábado, 19 de novembro de 2011
Inveja de quem sabe cantar
O que dizer da mulher que traz a constelação de Cygnus inteirinha ajoelhada ao pé esquerdo? Estrelas imortalizadas entre o verde e o azul, destacadas nas incandescências da pele, se não me traíram os sentidos da aquarela naquele instante de alucinação coletiva.
Falar dos olhos que o sorriso aperta, dos lábios pintados em vermelho-coral para uma guerra de paz? Da cachoeira de cabelos negros pelas costas, das carnes fartas? Que tal as linhas sinuosas, o alumbramento, o pingo de ouro derretendo-se na fornalha do colo?
Os trajes sóbrios, impulso de embriagá-los em nudez! E ajoelhar-se ante a santa inspiração deste inocente pecador, clamar justiça às vistas famélicas capazes de cair em tentação num gracejo buarqueano, mesmo se fechados “os ouvidos e as janelas do vestido”.
Deu sede, mas água não passou. Qualquer poeta tem, nessas horas, necessidade de goles a mais de lirismo, do contrário perde as medidas do soneto e se lança à libertinagem surreal das metáforas. E o cronista, sendo também um qualquer, sufoca-se na prosa.
Ah, se eu fosse Manassés! Capaz de desvendar "A Lua, o amor e o mar", de traduzir em letra e acordes a paisagem inquietante que arrebatou linhas e entrelinhas da redação, de estender no "Varal do tempo" rosas em busca de Sol, de andar no rastro da musa.
Quem dera a sorte mineira de Renato Motha! Amanhar versos para Maria Rita colher: “Tens o teu escudo, teu tear/ Tens na mão, querida, a semente/ De uma flor que inspira um beijo ardente/ Um convite para amar". Dias assim, morro de inveja de quem sabe cantar.
sábado, 12 de novembro de 2011
Passaporte diplomático
Viajei bastante, conheço razoavelmente bem o Rio Grande do Norte, quase todos os Estados brasileiros, alguns países. Nas viagens ao exterior, há sempre a preocupação com a entrada. Sei de pessoas que, mesmo atendendo ao rol das chatices burocráticas, foram barradas, humilhadas e obrigadas a voltar, amargando prejuízo econômico e frustrações.
Da última vez que estive nos Estados Unidos, terra de muitos amigos queridos, o agente da imigração foi extremamente grosseiro. Fez comentários hostis, meneava a cabeça a cada pergunta que lhe respondia, avaliava a documentação com desconfiança. Escolheu-me para saco de pancadas ou para externar sua xenofobia idiota contra latino-americanos.
Entrei. Irritado, mas entrei, certo de que aquele é comportamento isolado. Os colegas do indivíduo, nos guichês de atendimento espalhados no imenso salão do Aeroporto Internacional de Miami, atendiam aos visitantes com cordialidade. O mesmo posso dizer dos servidores do Consulado Americano em Recife-PE, aos quais submeti duas solicitações de visto.
Quem já saiu por aí com passaporte pé-duro igual ao meu compreende. Edir Macedo, chefão da Universal e da Rede Record, cansou dos maus tratos, fincou pé e recebeu do Itamaraty, semana passada, um passaporte diplomático. O missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, inquilino da Bandeirantes, obteve o dele muito antes.
O jornalista Lauro Jardim esclarece na coluna Radar on-line, da Veja, que "Os portadores de passaporte diplomático têm tratamento diferenciado nos aeroportos e alfândegas. Além de não pagar pelo documento, a vantagem mais evidente é a dispensa da revista aqui e em vário países. Também não enfrentam filas". Quem me dera nunca entrar em filas!
A própria comunidade evangélica chiou. De outros segmentos, lógico. Houve quem dissesse que as Sagradas Escrituras são o passaporte necessário aos mensageiros da palavra. Nesse caso, acredite: a Bíblia não funciona. E ainda: o comportamento do governo representa um passo na concretização do Estado laico que a Constituição prevê desde 88.
Há muito tempo os cardeais católicos possuem o direito recém-conquistado pelos dois líderes do cristianismo luterano. Penso, e me perdoem a franqueza, que, em vez de ampliar, Brasília deveria cassar o privilégio dos religiosos. Todos. Do contrário, daqui a pouco, Fernandinho Beira-Mar funda a Igreja Internacional do Pó e ganha folga diplomática.
Pela caridade, pelo amor de Nossa Senhora das Bicicletas do Pedal Quebrado, não digam que estou comparando Beira-Mar aos cardeais católicos e ministros protestantes. A questão é outra: se o passaporte diplomático destina-se também a sacerdotes, qualquer deles pode requerê-lo, seja a entidade séria ou picareta, desde que legalmente constituída.
Da parte deste caboclo avesso a salamaleques, restam o estresse das entrevistas de admissão, o risco de voltar de um aeroporto se a mulher do entrevistador tiver dormido de calças jeans na véspera da sabatina. Mas, beleza! Se isso acontecer, viajo a Bilica ou ao La Boquita De La Noche, onde passaporte azul tem potencial superior ao vermelho.
sábado, 5 de novembro de 2011
“QUE SORTE – Escapou mais uma vez”
"Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer..."
Álvares de Azevedo
O desmaio é uma experiência assustadora, espécie de ensaio para a morte. Desmaiei em pleno sábado enquanto escovava os dentes. Acordei minutos depois, nu, deitado no chão com metade do corpo no banheiro e outra no quarto. Tremenda dor na cabeça ferida em três lugares e na coluna cujos reflexos da queda ainda não foram avaliados.
Voltei aos poucos e também aos poucos, enquanto a mulher e os meninos se acalmavam, tomei ciência dos detalhes. A pressão arterial em 10/7, vista no tensiômetro caseiro, era dos pormenores estranhos para quem, desde moço, tenta domar a hipertensão. Recusei-me, logo de início, a preocupar meus pais, irmãos e minha avó. Todos viajando.
A ideia de poupar a família não perdurou. Recebi socorro, fiz exames para avaliar as causas e as consequências do “apagão” e passei a tomar “remédio controlado”. Feitos os testes necessários, incluindo a ressonância magnética, em qual estrutura o sujeito se sente enterrado vivo, confirmei as suspeitas de tantos anos: não tenho nada na cabeça.
O coração parecia inquieto no emaranhado de estalactites e estalagmites do eletrocardiógrafo. O diagnóstico, no entanto, diz estar bem o “Órgão muscular situado na cavidade torácica constituído de duas aurículas e dois ventrículos, e que recebe o sangue e o bombeia por meio dos movimentos ritmados de diástole e de sístole” (copiei do Aurélio).
Na quarta-feira, dirigi-me ao cemitério a fim de homenagear a memória de parentes e amigos mortos. A distância entre nós, ante os efeitos psicológicos do susto, pareceu-me menor do que noutros Dias de Finados, mas, logo na entrada do campo santo, recebi um panfleto evangélico com o seguinte título: “QUE SORTE – Escapou mais uma vez”.
A mensagem, se não exerceu o poder da conversão, abriu-me o sorriso há dias acorrentado pelo medo de perder de vez os sentidos sem dizer adeus, pedir perdão, perdoar. Coincidência? Sopro de Deus na vida de um agnóstico convicto? Por agora, contenta-me saber da palavra em sua essência, conquistando, devolvendo a luz da esperança.
sábado, 29 de outubro de 2011
A um soneto
Melhor dizer na generalidade das metáforas, se alguma delas me acudir neste vale de lágrimas antes de os neurônios boiarem nos humores do uísque que desce rápido, goela abaixo, inunda veias, artérias, e se lança - ou me lança? - nos labirintos da loucura. Permita-me, deus dos ateus, penetrar de fala dura a santidade das palavras, pois a missão que se desvela roga, implora, frases virgens na foz da língua úmida.
Sem lhes roubar a pureza, ternura necessária a tirar dos ombros as ruínas do coração em frangalhos, depositando os entulhos em lugar digno. É a morte do verbo numa espécie de haraquiri, a caneta como espada. Ou, na boa, a eutanásia do suspiro, "a morte sem sofrimento". Creia, amiga, até o mau poeta escravizado nas entrelinhas da prosa sabe quando o soneto não o transportará à chave de ouro. E desiste.
Dedico-lhe, portanto, versos sem saída nascidos com alguma métrica, alguma rima, algum sentido, mas que se veem, depois de tantas reescritas, encurralados na pobreza da alma que se rende à sensatez da realidade implacavelmente... fria. E pergunta: por que a inspiração trai? Por que anjos mentem feito demônios sádicos? Por que musas aliam-se a inimigos da lira? Por que a poesia humilha o pobre criador?
Desarme-se e me responda à cor daquelas vistas que observavam a esquina do mundo antigo da infância: devo concluí-lo? Recomeçá-lo? Esquecê-lo? Rasgá-lo? Onde diabos, mulher, seus gemidos se perderam? Que nunca mais. Em tempo: please, don't let me down com ironias, o melhor e pior de você, afinal a eloquência dos perfumes se revela, muitas vezes, no silêncio das flores. Amo você, mas sinto medo.
Mais que isso: é pavor! De te conhecer por fora, além das letras pelas quais se reinventa em esfinge e me devora, e me chupa o juízo. É pavor! Dos olhos de fogo os quais só me falta plantar num rosto. Amar composições inacabadas, mantê-las ensimesmadas ou dar-lhe à luz e correr o risco de encontrá-las nas mãos de outras criaturas prenhes de fantasia? Eis a questão. Diga-me, insisto, já não sinto aonde vou.
sábado, 22 de outubro de 2011
“Mister Gaddafi”
Certa feita, surgiu na sala de aula do professor Michael, especialista em pes-soas com muitíssima dificuldade em aprender Inglês, o debate sobre política. Cada um dos estudantes, e havia gente de várias partes do mundo, deveria tentar descrever o sistema governamental do seu país.
Os relatos dos alunos de origem islâmica chamavam atenção pelas diferenças em relação a nós, nossa visão cultural e sistemática de poder. Os relatos oci-dentais, digamos assim, igualmente causavam espécie aos amigos árabes. Tudo isso, no entanto, sem afastar o clima respeitoso.
Muhammad e Ali, cujos nomes pronunciados nessa sequência remetem ao pugilista americano Cassius Marcellus Clay Júnior, descreveram a Líbia de 2001, um período de otimismo, com o fim das sanções da Onu e a retomada das negociações com a Europa, no setor de petróleo e gás.
Confrontados com o conceito de ditadura, defenderam “Mister Gaddafi” – e te-nho a impressão que na época escrevíamos “Kadafi”. Demonstravam, em suas palavras, reverência por aquele que, em nossa maneira de enxergar as coisas, não passava de um déspota corrupto e sanguinário.
Nada estranho, pois, na década passada, os grandes líderes mundiais faziam questão de aparecer abraçados com o tirano. Tony Blair o visitou duas vezes, sem se lembrar dos atentados terroristas que Gaddafi patrocinou na Escócia, em 1988, que causaram a morte de 270 inocentes.
O tirano foi abraçado por Condoleezza Rice e Barack Obama. A União Africana o promoveu a seu líder. Até Nelson Mandela, meu ídolo, responsável pelo fim do Apartheid na África do Sul, exemplo de tolerância e espírito humanitário, deu-lhe apoio público em determinadas ocasiões.
Na madrugada de sexta, fechando o dia anterior de trabalho, liguei a TV para relaxar pouco antes de dormir e me deparei com a cena grotesca do lincha-mento de Gaddafi. Primeiro, o homem vivo, limpando sangue do rosto com uma das mãos. Depois, um cadáver como troféu.
O governo dos “rebeldes” divulgou comunicado mentiroso informando que a morte se dera após troca de tiros, já quando o ferido era levado ao hospital. As imagens mostram outra realidade, a da execução bárbara, sumária, incompatí-vel com os discursos libertários da “Nova Líbia”.
Chefes de nações “democráticas”, antes aliados do regime deposto, festejaram a chacina. O único de opinião sensata, dentre os que ouvi, foi Dilma Rousseff, que, embora falando em momento favorável à democracia líbia, repudiou os festejos pelo assassinato do caudilho africano.
E Muhammad e Ali nisso tudo? Sobreviveram à guerra civil? Rebelaram-se ou permaneceram fiéis ao líder? Pobre povo da Líbia. Pelas demonstrações de vi-olência e desonestidade de propósitos dos substitutos, terá, aquela brava gen-te, um governo novo, mas de velhos costumes.
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PS: mal deixei cair o ponto final, eis que o celular apita anunciando o recebi-mento da seguinte mensagem de meu amigo Rogério Dias: “A Comissão de Direitos Humanos-ONU está investigando e irá punir com rigor os que mataram torturando Muamar Khadafi que já assassinou nada menos que 1 milhão de inocentes líbios – RIDÍCULO!!!”.
Salamalecum!
