sábado, 24 de dezembro de 2011
Palavras e amigos
sábado, 17 de dezembro de 2011
Conto de Natal
Inacreditável: acabo de disputar o banheiro com Papai Noel. Ele chegou transtornado, suando feito tampa de chaleira, e furou a fila sem a menor cerimônia. A vez era minha, juro por Deus, então protestei gritando um “Êpa!” logo ecoado nas bocas dos demais sofredores. Alguns, em situação visivelmente pior, acrescentaram desaforos ao enredo.
Depois de encastelado naquele templo de ágata, muito bem sentado no trono, o Bom Velhinho passou a nos desejar fortuna, amor, paz, e a clamar paciência, como um perfeito cristão. Em seguida, hô-hô-hô, começou a nos intimidar: se não o deixássemos esvaziar o saco e coisa e tal, usaria as missivas com nossos pedidos a fim de limpar o fiofó.
A galera apelou, pois chantagem dessa ordem é inadmissível. Queria arrancar o indivíduo pelas barbas brancas, enfiar-lhe goela abaixo a bolinha do gorro, chutar-lhe a enorme trouxa vermelha. Ninguém, no entanto, conseguiu aproximar-se. A inhaca de peru estragado na véspera – eca! – avançava pelas frestas da porta e rechaçava o inimigo.
Interferi, mas quase apanhava. Ofereci a vez, mas não colou. Propus enviar carta por debaixo da porta, mas o papel estava lá dentro. Chamar Rafinha Bastos para comê-lo com barriga e tudo, mas Ronaldinho reclamaria. Chael Sonnen para desafiá-lo estapeando o bumbum da Mamãe Noel, mas a Lei da Palmada complicaria a vida do lutador.
Santa Claus demorou além do necessário. “De pirraça”, diziam os sobreviventes da fileira já um tanto acrescida de desesperados. O sujeito ainda provocava cantarolando “Jingle bells, jingle bells, acabou papel”. Foi quando perdi as vontades e debandei, não sem bater à porta e mandar o tal Papai Noel... ter um feliz Natal e um profícuo “ânus-novo”.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Não deu tempo reagir
Não deu tempo reagir. A bandida jogou-me na cama, invadiu-me as calças com a mão ligeira e botou para fora o que julgava seu de pleno direito. Lambeu, mordeu, esfregou entre os peitos, no rosto, engoliu, deixou no ponto. Aí, agarrou movimentando devagar, mas com força, enquanto passava a língua em meus lábios inundados de saliva.
Tomei as rédeas. Segurei-a pelos cabelos num movimento perpendicular que a deixou de lado, sobre o colchão. Entrei fundo, sem pedir licença, sem alterar a pintura, deslizando entre paredes de carne úmida. Ela reagiu com arrepios, gemeu e mais gemia, baixinho, com um ou outro sobressalto, na cadência dos nossos corpos quentes, suados.
Seios latejavam no céu da boca liberando hormônios alucinógenos através dos bicos eriçados, uma espécie de fonte das fantasias, as de sempre e as da vez digladiando-se nas mentes desprovidas de pudor. Isso, enquanto a bunda abundava entre os dedos que a apertavam, testemunho do vigor dos tecidos, da veemência da matéria pulsante.
De repente estávamos de frente, revezando-nos na escala horizontal, em cima, embaixo, a cama preenchida, parecíamos tantos. De repente nos levantamos sem sair um do outro, portas, guarda-roupa, criados-mudos, armadores de rede, cada recanto. De repente por trás, de dois, de quatro, sem pé nem cabeça, sem chão. De repente no chão.
Havia sinais de explosão quando a doida vibrou no mesmo tom. Tremores, rigidez muscular, revirar de olhos, sensação de se entregar à morte sem deixar de viver, dentes trincados, até que, atingido por ela o máximo do máximo, arranquei-me de dentro para banhá-la por fora com jatos de âmbar. Aí, enroscados, nos apaziguamos. E dormimos.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Entre pessoa e heterônimo
Descobri algo assustador: minhas dores não caberiam nesta página. Nem que me dessem um jornal inteiro, não se mostrariam por completo. Dadas as circunstâncias, melhor mantê-las onde estão, no fundo da alma, gritando inutilmente contra as paredes do buraco negro que habita em mim, à espera de cura ou de paliativo que as adormeçam.
Madrugadas, bares, mulheres em cetins, versos para envolver musas desinteressadas ou, quem sabe, apenas distraídas, soluços ébrios entrecortando orações. Foi-se o tempo das sutilezas, quando as paixões duravam a eternidade das horas de uma noite, as raparigas vestiam luzes vermelhas e gatos pardos se amavam feito loucos nos telhados.
A poesia caiu em alto-mar, sem que dessem por sua falta, nas rotas de “Oropa, França e Bahia”. Agora, por circunstâncias vis, não consigo tocar a lira, herança de Orfeu; não posso gritar “Evoé!” para começar a orgia; e só me vem à telha, repetindo-se sem parar, a canção de Caetano com a realidade nua e crua: “O grande escândalo sou eu aqui, só”.
Queria desabar no sono em vez de escrever: a insônia é quem escraviza o lápis entre meus dedos curtos, impróprios para os adeuses. Queria dormir e sonhar: a vigília é quem instiga o pesadelo, cão de três cabeças que espreita as portas do inferno para ninguém escapar. Queria ser menos triste: quem tanto se derrama um dia será seco feito pó.
Enquanto isso, palavras feridas curvam-se aos pés da vencedora e mostram o fundo das calças sem constrangimento. Elas, as palavras, até esboçam reação, mas os acentos circunflexos pesam sobre suas veias um tanto corrompidas por desilusões, levando-as a me dizer, como naquele velho Tango pra Teresa, “Que é hora de lembrar/ E de chorar”.
Por sorte, sou muitos. Divido-me na confusão entre pessoa e heterônimo e assim sobrevivo dos que me absorvem. A ideia do múltiplo pulveriza a angústia e evita que o indivíduo em estado de merda puxe em si a descarga. Estopar o vale de lágrimas, porque existe vida além das covas, será o próximo ato antes de reabrir o barraco à visita pública.
sábado, 26 de novembro de 2011
"Me lave"
Em San Marcos, no Texas, Scott Wade criou a “Dirty Car Art”, que ouso traduzir como “Arte de Carro Sujo”. Ele aproveita a atmosfera poeirosa semelhante à de Mossoró para criar obras de arte nos vidros de veículos estacionados em via pública. Do pó, nascem e renascem pessoas, animais, plantas, paisagens, monumentos, criaturas surreais, de tudo.
Meu automóvel, que é preto e só vê água quando chove, não por desleixo, mas pela demanda, daria um painel sertanejo, com vaqueiros trajados à rigor, cavalgando no chão rachado em busca das reses perdidas na caatinga. Muito melhor do que encontrá-lo servindo de quadro negro para piadinhas tão antigas quanto a sagrada posição dos monarcas.
Nada mais cafona do que escrever "Me lave" no vidro ou na lataria de um carro empoeirado. Pior se o carro for o meu, pois, além de tudo, o indigitado corre o sério risco de contrair tétano. Além disso, há de se duvidar dos hábitos de higiene física e mental de quem sente prazer em enfiar o dedo na sujeira para deixar mensagens cheias de “originalidade”.
E não se resume à cafonice. O ato, degrau anterior à coprofagia, reveste-se também da maior cara-de-pau - e o caso é mesmo esse - quando o paladino da limpeza automotiva é famoso pela aversão à água, escovas de dente, desodorantes. Revela a doença que os neofreudianos descrevem, em documentos secretíssimos, como filhadaputismo latente.
É, camarada, vi você ensebando o vidro traseiro do Cid Móvel com seu dedo sujo, no pingo do meio-dia, e tive uma vontade quase irresistível de enfiar-lhe o meu nas suas costas para escrever "Vá tomar banho", "compre pastilha", "passe limão" ou, ao menos, para lhe proporcionar um toque reto sobre colocação pronominal, básico da língua portuguesa.
sábado, 19 de novembro de 2011
Inveja de quem sabe cantar
O que dizer da mulher que traz a constelação de Cygnus inteirinha ajoelhada ao pé esquerdo? Estrelas imortalizadas entre o verde e o azul, destacadas nas incandescências da pele, se não me traíram os sentidos da aquarela naquele instante de alucinação coletiva.
Falar dos olhos que o sorriso aperta, dos lábios pintados em vermelho-coral para uma guerra de paz? Da cachoeira de cabelos negros pelas costas, das carnes fartas? Que tal as linhas sinuosas, o alumbramento, o pingo de ouro derretendo-se na fornalha do colo?
Os trajes sóbrios, impulso de embriagá-los em nudez! E ajoelhar-se ante a santa inspiração deste inocente pecador, clamar justiça às vistas famélicas capazes de cair em tentação num gracejo buarqueano, mesmo se fechados “os ouvidos e as janelas do vestido”.
Deu sede, mas água não passou. Qualquer poeta tem, nessas horas, necessidade de goles a mais de lirismo, do contrário perde as medidas do soneto e se lança à libertinagem surreal das metáforas. E o cronista, sendo também um qualquer, sufoca-se na prosa.
Ah, se eu fosse Manassés! Capaz de desvendar "A Lua, o amor e o mar", de traduzir em letra e acordes a paisagem inquietante que arrebatou linhas e entrelinhas da redação, de estender no "Varal do tempo" rosas em busca de Sol, de andar no rastro da musa.
Quem dera a sorte mineira de Renato Motha! Amanhar versos para Maria Rita colher: “Tens o teu escudo, teu tear/ Tens na mão, querida, a semente/ De uma flor que inspira um beijo ardente/ Um convite para amar". Dias assim, morro de inveja de quem sabe cantar.
sábado, 12 de novembro de 2011
Passaporte diplomático
Viajei bastante, conheço razoavelmente bem o Rio Grande do Norte, quase todos os Estados brasileiros, alguns países. Nas viagens ao exterior, há sempre a preocupação com a entrada. Sei de pessoas que, mesmo atendendo ao rol das chatices burocráticas, foram barradas, humilhadas e obrigadas a voltar, amargando prejuízo econômico e frustrações.
Da última vez que estive nos Estados Unidos, terra de muitos amigos queridos, o agente da imigração foi extremamente grosseiro. Fez comentários hostis, meneava a cabeça a cada pergunta que lhe respondia, avaliava a documentação com desconfiança. Escolheu-me para saco de pancadas ou para externar sua xenofobia idiota contra latino-americanos.
Entrei. Irritado, mas entrei, certo de que aquele é comportamento isolado. Os colegas do indivíduo, nos guichês de atendimento espalhados no imenso salão do Aeroporto Internacional de Miami, atendiam aos visitantes com cordialidade. O mesmo posso dizer dos servidores do Consulado Americano em Recife-PE, aos quais submeti duas solicitações de visto.
Quem já saiu por aí com passaporte pé-duro igual ao meu compreende. Edir Macedo, chefão da Universal e da Rede Record, cansou dos maus tratos, fincou pé e recebeu do Itamaraty, semana passada, um passaporte diplomático. O missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, inquilino da Bandeirantes, obteve o dele muito antes.
O jornalista Lauro Jardim esclarece na coluna Radar on-line, da Veja, que "Os portadores de passaporte diplomático têm tratamento diferenciado nos aeroportos e alfândegas. Além de não pagar pelo documento, a vantagem mais evidente é a dispensa da revista aqui e em vário países. Também não enfrentam filas". Quem me dera nunca entrar em filas!
A própria comunidade evangélica chiou. De outros segmentos, lógico. Houve quem dissesse que as Sagradas Escrituras são o passaporte necessário aos mensageiros da palavra. Nesse caso, acredite: a Bíblia não funciona. E ainda: o comportamento do governo representa um passo na concretização do Estado laico que a Constituição prevê desde 88.
Há muito tempo os cardeais católicos possuem o direito recém-conquistado pelos dois líderes do cristianismo luterano. Penso, e me perdoem a franqueza, que, em vez de ampliar, Brasília deveria cassar o privilégio dos religiosos. Todos. Do contrário, daqui a pouco, Fernandinho Beira-Mar funda a Igreja Internacional do Pó e ganha folga diplomática.
Pela caridade, pelo amor de Nossa Senhora das Bicicletas do Pedal Quebrado, não digam que estou comparando Beira-Mar aos cardeais católicos e ministros protestantes. A questão é outra: se o passaporte diplomático destina-se também a sacerdotes, qualquer deles pode requerê-lo, seja a entidade séria ou picareta, desde que legalmente constituída.
Da parte deste caboclo avesso a salamaleques, restam o estresse das entrevistas de admissão, o risco de voltar de um aeroporto se a mulher do entrevistador tiver dormido de calças jeans na véspera da sabatina. Mas, beleza! Se isso acontecer, viajo a Bilica ou ao La Boquita De La Noche, onde passaporte azul tem potencial superior ao vermelho.
sábado, 5 de novembro de 2011
“QUE SORTE – Escapou mais uma vez”
"Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer..."
Álvares de Azevedo
O desmaio é uma experiência assustadora, espécie de ensaio para a morte. Desmaiei em pleno sábado enquanto escovava os dentes. Acordei minutos depois, nu, deitado no chão com metade do corpo no banheiro e outra no quarto. Tremenda dor na cabeça ferida em três lugares e na coluna cujos reflexos da queda ainda não foram avaliados.
Voltei aos poucos e também aos poucos, enquanto a mulher e os meninos se acalmavam, tomei ciência dos detalhes. A pressão arterial em 10/7, vista no tensiômetro caseiro, era dos pormenores estranhos para quem, desde moço, tenta domar a hipertensão. Recusei-me, logo de início, a preocupar meus pais, irmãos e minha avó. Todos viajando.
A ideia de poupar a família não perdurou. Recebi socorro, fiz exames para avaliar as causas e as consequências do “apagão” e passei a tomar “remédio controlado”. Feitos os testes necessários, incluindo a ressonância magnética, em qual estrutura o sujeito se sente enterrado vivo, confirmei as suspeitas de tantos anos: não tenho nada na cabeça.
O coração parecia inquieto no emaranhado de estalactites e estalagmites do eletrocardiógrafo. O diagnóstico, no entanto, diz estar bem o “Órgão muscular situado na cavidade torácica constituído de duas aurículas e dois ventrículos, e que recebe o sangue e o bombeia por meio dos movimentos ritmados de diástole e de sístole” (copiei do Aurélio).
Na quarta-feira, dirigi-me ao cemitério a fim de homenagear a memória de parentes e amigos mortos. A distância entre nós, ante os efeitos psicológicos do susto, pareceu-me menor do que noutros Dias de Finados, mas, logo na entrada do campo santo, recebi um panfleto evangélico com o seguinte título: “QUE SORTE – Escapou mais uma vez”.
A mensagem, se não exerceu o poder da conversão, abriu-me o sorriso há dias acorrentado pelo medo de perder de vez os sentidos sem dizer adeus, pedir perdão, perdoar. Coincidência? Sopro de Deus na vida de um agnóstico convicto? Por agora, contenta-me saber da palavra em sua essência, conquistando, devolvendo a luz da esperança.
sábado, 29 de outubro de 2011
A um soneto
Melhor dizer na generalidade das metáforas, se alguma delas me acudir neste vale de lágrimas antes de os neurônios boiarem nos humores do uísque que desce rápido, goela abaixo, inunda veias, artérias, e se lança - ou me lança? - nos labirintos da loucura. Permita-me, deus dos ateus, penetrar de fala dura a santidade das palavras, pois a missão que se desvela roga, implora, frases virgens na foz da língua úmida.
Sem lhes roubar a pureza, ternura necessária a tirar dos ombros as ruínas do coração em frangalhos, depositando os entulhos em lugar digno. É a morte do verbo numa espécie de haraquiri, a caneta como espada. Ou, na boa, a eutanásia do suspiro, "a morte sem sofrimento". Creia, amiga, até o mau poeta escravizado nas entrelinhas da prosa sabe quando o soneto não o transportará à chave de ouro. E desiste.
Dedico-lhe, portanto, versos sem saída nascidos com alguma métrica, alguma rima, algum sentido, mas que se veem, depois de tantas reescritas, encurralados na pobreza da alma que se rende à sensatez da realidade implacavelmente... fria. E pergunta: por que a inspiração trai? Por que anjos mentem feito demônios sádicos? Por que musas aliam-se a inimigos da lira? Por que a poesia humilha o pobre criador?
Desarme-se e me responda à cor daquelas vistas que observavam a esquina do mundo antigo da infância: devo concluí-lo? Recomeçá-lo? Esquecê-lo? Rasgá-lo? Onde diabos, mulher, seus gemidos se perderam? Que nunca mais. Em tempo: please, don't let me down com ironias, o melhor e pior de você, afinal a eloquência dos perfumes se revela, muitas vezes, no silêncio das flores. Amo você, mas sinto medo.
Mais que isso: é pavor! De te conhecer por fora, além das letras pelas quais se reinventa em esfinge e me devora, e me chupa o juízo. É pavor! Dos olhos de fogo os quais só me falta plantar num rosto. Amar composições inacabadas, mantê-las ensimesmadas ou dar-lhe à luz e correr o risco de encontrá-las nas mãos de outras criaturas prenhes de fantasia? Eis a questão. Diga-me, insisto, já não sinto aonde vou.
sábado, 22 de outubro de 2011
“Mister Gaddafi”
Certa feita, surgiu na sala de aula do professor Michael, especialista em pes-soas com muitíssima dificuldade em aprender Inglês, o debate sobre política. Cada um dos estudantes, e havia gente de várias partes do mundo, deveria tentar descrever o sistema governamental do seu país.
Os relatos dos alunos de origem islâmica chamavam atenção pelas diferenças em relação a nós, nossa visão cultural e sistemática de poder. Os relatos oci-dentais, digamos assim, igualmente causavam espécie aos amigos árabes. Tudo isso, no entanto, sem afastar o clima respeitoso.
Muhammad e Ali, cujos nomes pronunciados nessa sequência remetem ao pugilista americano Cassius Marcellus Clay Júnior, descreveram a Líbia de 2001, um período de otimismo, com o fim das sanções da Onu e a retomada das negociações com a Europa, no setor de petróleo e gás.
Confrontados com o conceito de ditadura, defenderam “Mister Gaddafi” – e te-nho a impressão que na época escrevíamos “Kadafi”. Demonstravam, em suas palavras, reverência por aquele que, em nossa maneira de enxergar as coisas, não passava de um déspota corrupto e sanguinário.
Nada estranho, pois, na década passada, os grandes líderes mundiais faziam questão de aparecer abraçados com o tirano. Tony Blair o visitou duas vezes, sem se lembrar dos atentados terroristas que Gaddafi patrocinou na Escócia, em 1988, que causaram a morte de 270 inocentes.
O tirano foi abraçado por Condoleezza Rice e Barack Obama. A União Africana o promoveu a seu líder. Até Nelson Mandela, meu ídolo, responsável pelo fim do Apartheid na África do Sul, exemplo de tolerância e espírito humanitário, deu-lhe apoio público em determinadas ocasiões.
Na madrugada de sexta, fechando o dia anterior de trabalho, liguei a TV para relaxar pouco antes de dormir e me deparei com a cena grotesca do lincha-mento de Gaddafi. Primeiro, o homem vivo, limpando sangue do rosto com uma das mãos. Depois, um cadáver como troféu.
O governo dos “rebeldes” divulgou comunicado mentiroso informando que a morte se dera após troca de tiros, já quando o ferido era levado ao hospital. As imagens mostram outra realidade, a da execução bárbara, sumária, incompatí-vel com os discursos libertários da “Nova Líbia”.
Chefes de nações “democráticas”, antes aliados do regime deposto, festejaram a chacina. O único de opinião sensata, dentre os que ouvi, foi Dilma Rousseff, que, embora falando em momento favorável à democracia líbia, repudiou os festejos pelo assassinato do caudilho africano.
E Muhammad e Ali nisso tudo? Sobreviveram à guerra civil? Rebelaram-se ou permaneceram fiéis ao líder? Pobre povo da Líbia. Pelas demonstrações de vi-olência e desonestidade de propósitos dos substitutos, terá, aquela brava gen-te, um governo novo, mas de velhos costumes.
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PS: mal deixei cair o ponto final, eis que o celular apita anunciando o recebi-mento da seguinte mensagem de meu amigo Rogério Dias: “A Comissão de Direitos Humanos-ONU está investigando e irá punir com rigor os que mataram torturando Muamar Khadafi que já assassinou nada menos que 1 milhão de inocentes líbios – RIDÍCULO!!!”.
Salamalecum!
sábado, 8 de outubro de 2011
Sertão e mar
Quem nasce em Mossoró, onde o sertão vez em quando se arrepia com o cheiro atlântico que o vento tange das entranhas de Tibau, Grossos e Areia Branca, escolhe livremente, a qualquer instante, se mergulha no destino das ondas ou se embrenha nas veredas da caatinga.
As tradições do sertão e do litoral, opostas nos dicionários da língua portuguesa, avizinham-se nos ensinamentos do meu avô materno, homem da cidade com jeito de país cujo rio, no espaço de um aboio, rompe mangues, beira pirâmides de sal e penetra o mar da Barra.
Ora o patriarca estava na Fazenda Mororó, na lida com o gado quase sempre magro, no desafio quixotesco de extrair água razoável do subsolo salobro, à base de moinhos, e na ilusão de produzir frutos de sementes que a chuva, sem o menor tesão, recusava-se a fecundar.
Em janeiro, exilava-se entre o morro e o oceano, vizinho à Pedra da Sereia e ao Bar de Zé Chorão. A antiga casa de taipa com paredes caiadas, janelas e portas amarelas, ladeada por sulcos de vertentes, era, à noite, à luz de candeeiros, o melhor observatório de estrelas.
Na fazenda, os heróis do mato reuniam-se no alpendre do vaqueiro Cesário para reviver as pegas, as vaquejadas. Contavam de mal-assombros, o fogo do boitatá na mata escura, a vingança do caipora contra aquele que se atreveu na caçada sem lhe ofertar fumo e cachaça.
Em Tibau, a “Morros Vermelhos” do navegador holandês Gideon Morris de Jorge, que por lá esteve no século XVII, paraíso terapêutico do poeta Henrique Castriciano, pescadores recém-chegados da lida das marés paravam a fim de vender peixe e narrar suas aventuras.
Dos homens do campo, inesquecível a saga de Chico Mouco, sobrevivente de três raios, um deles responsável pelas mortes do pai, do jumento e do cachorro da família. Havia juazeiros habitados por fantasmas, as burrinhas de padre, as almas penadas que revelavam botijas.
Entre os lobos do mar, Ananias desvendou o segredo do batalhão de soldados que viajava no coração das ventanias da madrugada. Tidó encontrou-se com o tinhoso num heróico mergulho em alto-mar. Pirá, que era mecânico, garantia existirem elefantes na Praia do Ceará.
O leite morno amanhecia o curral ao bater o fundo das canecas, o café de Dona Terezinha, feito no forno a lenha e coado no pano. No almoço, paçoca de pilão, bode assado, maxixe, arroz de leite. A janta, no último claro da tarde, e a família em torno da tigela de coalhada.
“Olha o grude! Olha a tapioca!” Assim anunciava-se o dia no sopé do Morro das Sete Cores. Por volta das 13 horas, peixada de cioba e pirão ou cavala frita. Feijão e arroz branco no acompanhamento de ambos. Aqui e acolá, taioba, siri. Vencida a tarde, o leite, o pão, a sopa.
Nos dois casos, as mesas enormes de madeira, o avô na posição patriarcal, à cabeceira, de frente para a imagem de Santa Luzia. Morreu cego, mas nunca perdeu a fé. A avó, ao seu lado esquerdo da fazenda e direito na praia, sempre insistia para todo mundo comer mais.
Meninos virgens pastoravam o amor dos bichos com instinto animal. A pressa dos galináceos. O cio das vacas, o faro dos touros, mugidos, montas, orgasmos. As potrancas, como em versos de Olegário Mariano, sacudindo as crinas para o corcel que lhes erguia as patas.
Tais moços buscavam em vertentes afastadas, a nudez das praieiras, amores de Othoniel Menezes; e aguardavam, ansiosos, as tardes de domingo para testemunhar as evoluções de casais que se refugiavam nas alas secretas da formação erodida denominada Labirinto.
Montava-se em burro bravo, cavalgadas, fabricavam-se baladeiras com ganchos de pereiro e ligas de pneu, bois de osso, cabra-cega, bonecos de sabugo de milho... Empinava-se pipa, guerreava-se com torrões, pescaria, jacaré, enchiam-se garrafas de areias coloridas.
Há no espírito dessas memórias, a ampulheta com todas as areias da região, dando o norte de que, acertadas as profecias do beato Antônio Conselheiro, sertão e mar, virados um no outro, permanecerão no mesmíssimo território, na harmonia de séculos. Ao menos aqui.
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Crônica prublicada na revista Preá.
sábado, 1 de outubro de 2011
Arrumando o embornal
Pretendo rever amigos em Wenatchee, cidade encravada no Estado de Washington, lamentando a ausência de um deles cujo coração, de muito ocupado em distribuir amor e generosidade, esqueceu-se das próprias funções orgânicas, parando de bater terça-feira, 10 de maio de 2011.
Mencionei-o em crônica que escrevi de lá, Karl Ohler, o “pai americano” de Samara e, por consequência, meu sogro postiço. A Expressão aspada carece de explicação: quando jovens participam de intercâmbios em países estrangeiros, eles se incorporam às famílias que os hospedam.
Minha companheira, que morou lá aos 17 anos, sempre o tratou com tal deferência. E eu também, desde a primeira vez que trocamos palavras por telefone, num drible ao inglês banguela que mastigo cabralinamente, como quem masca fonemas indo-europeus no idioma pedra de sertanejo.
Karen Ohler, a “mãe americana”, permanece entre nós. Quando a vi no inverno de 2006, ao descer do trem Amtrak que nos levou, a mim e a Samara, de Seatle até lá, lembrei-me de minha mãe. O porte físico, o olhar acolhedor, a assistência impecável para que nos sentíssemos em casa.
Curiosamente, Karl não era estadunidense por nascimento. Seu berço, aos 8 de fevereiro de 1952, foi Belícia, Croácia, de onde se mudou para Wenatchee com apenas sete anos. Brindamos com uma aguardente croata, de mais de 70 graus, com saudação apropriada. Algo como “Givili”!
O jornal da cidade de aproximadamente 40 mil habitantes, com tiragem de 40 mil exemplares, noticiou o falecimento: “Karl tinha aparência austera, mas todos que o conheciam podiam ver através dela. Ele era um homem honrado, excelente marido e pai, e uma pessoa maravilhosa”.
E prossegue informando sobre suas paixões, entre as quais as partidas de golfe e os pássaros. “Sua família incluía uma variedade de cinco papagaios”. No meio do texto, uma expressão que resume o caráter do ser humano: “Karl era amado por sua família e amigos”. Assino em baixo.
Bom, se um ônibus espacial de seis toneladas não atropelar o avião, voltarei logo para as bandas de cá, a rotina dos bares, dos pesares. Das alegrias, também, da família, do encontro com os leitores deste Canto de Página que às vezes fede, às vezes cheira, mas não ofende ninguém.
sábado, 24 de setembro de 2011
“Amar uma mulher sem orifício”
Sou fã de Chico Buarque, mas discordo dele nesta história de “Amar uma mulher sem orifício”. Na verdade, não é bem discordar, pois respeito as opções sexuais, as taras, as manias, de todo mundo. Se meu ídolo quer se dedicar ao onanismo icônico religioso, se é que entendi a relação entre o... o... e a cara dos versos, terá toda licença poética.
Nutro grande admiração por mulheres de carne e osso, com as aberturas que Deus lhes deu. São caminhos naturais para o nirvana, olhos nos olhos, boca na boca, aquilo naquilo, boca naquilo, aquilo na boca, indispensáveis à dieta de um homem que, embora jovem, contemporâneo, sente dificuldade na adaptação a certas, digamos, “modernices”.
Quem sou eu, criatura abandonada pelo simbolismo, boêmio da asa quebrada que, sem autonomia de voo, conforma-se em amanhecer sentado em monturos de lirismo que bêbados constroem nos corredores da Cobal... Quem sou eu, cronista de meia pataca, para discutir assim a obra de um dos gênios da MPB, pelo fato de sua elevação espiritual.
Ocorre-me, no entanto, a velha máxima popular – mentira, inventei-a agora – segundo a qual “o espírito se eleva quando a carne despenca”. Por assim dizer, vencidas as forças do homem, melhor adorar estátuas, protegido da sedução que dadas cavidades exercem, em vez de se empanturrar com remédios de olhos azuis – mentira, de novo!
Agora, falando sério, preferia não brincar com Seu Francisco, cujas canções alumbram meu amor. Vai que ele, o Velho Chico, agora com a mania de fuçar no Google, se enxerga por aqui e me expulsa do fã-clube, sem direito a ouvi-lo sequer em radiola de ficha. Vixe, Maria, já estou com o orifício na mão, melhor encerrar a ladainha. Desculpa aí.
sábado, 9 de julho de 2011
Without words
É como todo mundo fica, “sem palavras”, quando assiste ao vídeo-documentário cujo título ouso reaproveitar, no qual a produtora Almudena Tora revela o drama de Jack Agüeros para os webleitores do jornal The New York Times. O poeta nova-iorquino, autor de obras reverenciadas como Lord, Is This a Psalm? (Senhor, isso é um Salmo?), sofre do mal de Alzheimer faz sete anos, e chora ao relembrar vagamente de um dos tantos livros que escreveu.
“Meu pai não consegue mais escrever nem ler”, conta o filho Marcel. “Eu me recordo do tempo em que ele escrevia. Ficava acordado a noite toda, feito um maluco”, diz a filha Natalia. “Não ficou nada na minha cabeça”, responde Agüeros, de semblante sereno, voz mansa, corpo fragilizado. Ensaia um carinho na cadela Niki, a quem chama de “La Nicaña”, e, ao ser instigado acerca do quanto produzia, lamenta: “Devia voltar a escrever... É bom para o coração”.
O prato de comida, a colher, os remédios, as plantas no umbral da janela, o manuscrito, uma antiga canção em louvor à manhã, outra revelação: “Não me lembro dos meus poemas”. Recordou-se, por evocação de Natalia, do livro Correspondence Between the Stone Haulers (Correspondência entre Carregadores de Pedras). Foi aí que riu brevemente e pôs os dedos enrugados sobre a boca tentando disfarçar a emoção contagiante. Foi aí que me fez chorar.
O vídeo se encerra com mensagens humanitárias valorosas não somente para familiares de pessoas que vivem com Alzheimer, mas também para aqueles que nunca se imaginaram na situação nem de uns nem de outros. A experiência compartilhada pela família Agüeros ensina a amar acima das aparências, além de como desejamos que os indivíduos sejam, a valorizar o momento – o carpe diem, de Horácio –, pois “o que você tem hoje pode se perder amanhã”.
VEJA TAMBÉM O VÍDEO ORIGINAL DO THE NEW YORK TIMES.
sábado, 25 de junho de 2011
Voyeur
Linda! Muito mais que nos umbrais da puberdade. Sorridente também, talvez feliz. Está feliz. Vi-a por acaso, depois de séculos, mas ela sequer percebeu-me o espanto, os suores, os rubores, os passos distraídos do homem que, meio zonzo, deixou-se dominar por um surto de infância.
Passei despercebido tanto de propósito, tanto por fraqueza de espírito. Permaneci invisível, traduzido em megabytes, olhando... olhando... olhando a exemplo de um voyeur aprisionado a fantasias antiquíssimas, inalcançáveis a braços humanos reincidentes em afrouxar as próprias fantasias.
Não aprendi o segredo dos nós, embora tenha sido marinheiro noutra encarnação. Manias de vidas passadas trago nas veias, esse coração tatuado pelas ondas de todos os portos. E quando me considerava aposentado das marés, eis que me lançam à deriva, descrente até das certezas.
Lembrará de mim quando em vez, nem que seja com desdém? Saberá ainda os poemas que o vento arrebatava-lhe dos lábios? Guardará nalgum compartimento secreto o caderninho azul, seu confidente? Ou tudo aquilo, todo o passado, a distância e o tempo sepultaram a sete palmos?
Ocorreu-me a antologia de Vinícius. Que fim terá levado? De todo azar, já se fez “do amigo próximo o distante”, apesar das velhas promessas de ser atento ao meu amor, “com tal zelo, e sempre, e tanto”. Foram demais os perigos, as paixões, tantas criaturas lindas espalhando sofrimento.
E essa minha amiga distante e distraída, sem fugir da inspiração do poetinha, agora nas formas de “Uma mulher que é como a própria lua:/ Tão linda que só espalha sofrimento,/ Tão cheia de pudor que vive nua”; e eu, cansado, atraiçoando “o humano coração com mais verdade”. Mentira!
domingo, 19 de junho de 2011
DESINFORMAR O CIDADÃO É ARMAR O BANDIDO
O secretário da Segurança Pública e da Defesa Social do Rio Grande do Norte, senhor Aldair da Rocha, proibiu o Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep) e o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp) de prestarem informações sobre homicídios cometidos em Mossoró.
A justificativa dada por ele na última sexta-feira, em audiência realizada na Câmara de Vereadores, a fim de debater os índices da violência na cidade, foi a de que a pasta sob seu comando pretende criar uma central de imprensa, ainda sem data marcada para entrar em funcionamento.
A tarefa estaria, por enquanto, sob monopólio do comandante da Polícia Militar, a quem os repórteres de quatro jornais diários, da TV aberta, da TV fechada, dos diversos sites noticiosos, das revistas e das nove emissoras de rádio existentes por aqui poderão se dirigir a qualquer hora.
Com essa desculpa esfarrapada, impõe-se a cesura aos cidadãos potiguares em pleno regime democrático de direito, pelas mãos daqueles que deveriam nos proteger não apenas da violência urbana, mas também no tocante a quem investe contra outros aspectos da dignidade humana.
Não creio em boas intenções, até porque “uniformização da verdade” rima perfeitamente com “manipulação da realidade”. A ideia, de certo, é esconder números cruéis, frutos da ausência de gestão estratégica da segurança que nos confere o triste epíteto de Rio Grande da Morte.
A decisão de Aldair da Rocha ofende dois princípios da administração, o da publicidade e o da legalidade. Tentar impedir acesso a dados de ordem pública, talvez no intuito de encobrir o desrespeito a outro preceito, o da eficiência, fere a nossa inteligência e a Constituição.
É ela, a Carta Magna, quem nos assegura o direito à informação, veda a censura, garante-nos a liberdade de expressão sem necessidade de “licença” e proíbe a edição de normas embaraçosas “à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação”.
A governadora Rosalba Ciarlini, que à frente da prefeitura de Mossoró deu exemplo de democracia ao não perseguir economicamente setores da mídia críticos a outros aspectos de sua gestão, como ocorre hoje no Palácio da Insolência, deve reverter esse completo absurdo.
Se não a Rosa, mostre o Ministério Público os espinhos, utilizando remédios legais capazes de cessar a arbitrariedade, provocado pela indignação dos que não aceitam ser resumidos à condição dos “Macacos Sábios” do folclore japonês, que não veem, não ouvem e não falam.
Embora a imposição de censura seja algo muito complicado na era das redes sociais, quando qualquer indivíduo pode ser repórter da própria realidade, algo precisa ser feito com urgência. Longe do que possa imaginar o secretário, agir para desinformar o cidadão é armar o bandido.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Tatuagem
O colibri que habita aquelas costas,
Sugando a carne fresca com o bico,
É a quem nestes versos eu suplico
O caminho secreto das respostas.
Serás por entre gritos, entre espasmos,
Passarinho liberto e prazenteiro
Ou apenas um reles prisioneiro
Do corpo, da fogueira, dos orgasmos?
Quais perfumes seduzem teus sentidos,
Os aromas sutis da castidade
Ou a força motriz dos corrompidos?
Por fim, que se declare e me revele,
Por quais razões trocaste a liberdade
Para amar tatuado à flor da pele.
sábado, 28 de maio de 2011
Era uma vez...
Pode dar cacete. Pode dar cadeia. Pode dar o inferno da pedra e a cachorra da moléstia. Direi mesmo assim que meu amigo, aquele sobre quem falei, sua paixão por uma musa sacana, deu-se finalmente bem. E muito bem. Conquistou a domadora de beija-flores e ameaça-me com detalhes, o sabor dos beijos, a temperatura dos abraços, para que eu os traduza em palavras.
Como se um pobre diabo metido a cronista, invejoso e doente dos cotovelos, fosse capaz de decifrar os caminhos da beleza em águas onde gregos e romanos naufragaram sob a égide dos vinhos de Massalia. Como se alguém, na condição de mero expectador, sentado na última linha de cadeiras do anfiteatro do mediterrâneo, pudesse descrever as formas da Cours Julien.
Cerro os olhos para não gritar, a boca para não ouvir, os ouvidos para não enxergar, as narinas para não perceber-lhe as formas, as mãos para não suspeitar do seu perfume, o sexto sentido para não morrer de tanta fome. Doutro modo, cairia da corda armada entre as paredes do buraco negro e escreveria alucinações, o calafrio de uma queda livre rumo ao desconhecido.
O tempo não está para crônica. Impossível quando o sujeito se encontra nada prosa. Outro soneto! Talvez me socorram aves noturnas, protetoras dos homens que se arremessam aos abismos, para que não quebre o pé ao tropeçar em sílabas poeticamente distraídas. Poema livre? Há séculos e séculos perdi a autonomia dos vendavais. Boêmio com asa quebrada não voa.
Mas prometi, depois de duvidar, e promessa de bêbado tem dono, a exemplo de outras coisas. O jeito então é expiar a pena através da pena, contando o que fiz questão de ignorar. Dizer algo, alimentar a imaginação dos leitores apreensivos. Uísque, pela caridade, e sem gelo, para brindarmos ao romance em construção e à história que passo a narrar. Era uma vez...
sábado, 21 de maio de 2011
O flautista de Bath
Logo que desci na Orange Grove e comecei a caminhar na lateral da Abadia de Bath, cidade encravada no Oeste da Inglaterra, ouvi o solo de flauta. Era um sábado, por volta das 13 horas, e fazia frio, algo em torno de zero grau, conforme atestava o termômetro do Ônibus.
Na Abbey Church Yard, onde se localizam as entradas da abadia e das termas romanas, estava ele, o flautista. Solitário, o velho alto, de cabeça e barbas brancas, tirava suaves canções da flauta de metal, fazendo gestos de reverência sempre que alguém depositava alguns centavos de libra no gorro de lã deixado ao chão. Na Inglaterra, isso é comum. Principalmente nas cidades turísticas, os artistas vão às ruas, sozinhos ou em grupos, batalhar a sobrevivência.
As pessoas param a fim de ver e ouvir. Se gostam, pagam. Outras seguem indiferentes ou apressadas. O malabarista que se apresentava a poucos metros, no mesmo pátio, atraiu bem mais atenção e dinheiro do que o flautista. O mímico vestido de manta azul, na Union Street, também. Mas nenhum deles demonstrava em seus respectivos ofícios a obstinação, o fôlego e a poesia do velho músico. Visitei as termas romanas, construídas no século I, que dão nome à cidade (Bath significa banho).
Na volta à praça, lá estava ele, firme e forte, transformando o frio em calor com a música, como se fosse o flautista de Hamelin, do conto de Joseph Jacobs, que conhecia melodias para todos os fins, talvez até para se defender das intempéries.
Caminhei nas ruas, observando monumentos e casas construídos no melhor estilo georgiano. Parei para fotografias. Para consultar mapas. Para olhar vitrinas. Para comer. Para alimentar pombos.
Ainda o inspirado flautista trabalhava. Adentrei a Bath Abbey, em cujo frontispício anjos pétreos escalam eternamente a escada de Jacó rumo ao céu. No interior, distrai-me apreciando vitrais que narram a vida de Cristo e tentando ler inscrições medievas.
Ao sair, às 4h30min, eis ali, impávido, o flautista. Coloquei, então, uma libra no gorro e parti levando a imagem do velho artista estampada nas retinas e o som da flauta gravado na memória.
sábado, 14 de maio de 2011
Que a morte seja o fim
Se eu morrer de morte morrida ou matada antes de concluir esta crônica, ninguém saberá o quanto desejei partir flutuando entre o real e a fantasia, pois o veneno dos desejos não deixa vestígio nas vísceras e o sorriso plantado nos cadáveres pelos necrotomistas mascara as tragédias dos indivíduos.
Apenas dois amigos íntimos, diante das circunstâncias banais de minha passagem, lembrarão da inveja que sinto de Ismália, que conquistou o privilégio de enlouquecer plenamente e, após tantos devaneios, pôde lançar-se de sua torre em busca da lua, afogando-se na imortalidade de um poema.
Só uma pessoa saberá do fascínio que me provoca Li Po, não pela grandeza do gênio, eleito entre 2.300 chineses o melhor poeta do seu tempo, mas pura e simplesmente pelo romantismo boêmio do ato final daquele homem que reclamava o direito de ver o luar refletido no fundo da taça em que ele bebia.
"Para lavar velhas mágoas,/ é preciso beber mil frascos", disse Li Po, antes de se afogar tentando, sob a inspiração do vinho, abraçar o reflexo da lua nas águas de um lago. Mergulhou imaginando encontrar na Via Láctea duas companheiras inseparáveis, sua sombra e a lua, imortalizando-se na própria lenda.
Não almejo a eternidade dos poemas ou das lendas, a exemplo de Ismália e de Li Po, este tão vivo 1.240 anos depois da morte. De preferência, que meu corpo seja cremado e as cinzas jogadas ao vento numa noite enluarada. Deus me livre da missa de corpo presente, de sétimo e trigésimo dias, deus me guarde daqueles epitáfios com letras de ouro.
A certeza da lembrança dos que me amam é o bastante para satisfazer minha vaidade, até porque, como bem lembra Tu Fu, outro brilhante poeta chinês, "Depois de dez mil, cem mil outonos,/ não terás outro prêmio que o prêmio inútil/ da imortalidade". Quero morrer na paz da loucura e que a morte seja o fim.
domingo, 8 de maio de 2011
Convertidos - uma crônica buarqueana
Se eu encontrar todo mundo de blusa amarela, poderei até imaginar que é você voltando pra mim, oito horas, na rua. Aí, quem sabe, vou beber e soluçar como se fosse náufrago, último, máquina, único. Juro, por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, que não amaldiçoarei o dia em que te conheci nem me trancarei no camarim.
Quando a banda passar, tocando coisas de amor, quando a marcha alegre se espalhar na avenida, mesmo que insista, não terei ilusões, acostumado com cada qual no seu canto, em cada canto uma dor. Vai a onda, vem a nuvem, cai a folha, passarão amigas secretas com perfumes baratos de Amsterdã. Quem dessas saberá meu nome?
Não, solidão, hoje não. Também não tenho planos de amanhã me retocar nesse salão de tristezas onde se penteiam mágoas, embora os olhos do meu bem olhem outro alguém quando me revelo e tento levar todos seus desejos. Ai, quanto descuido, o dessa moça, havendo tantos marmanjos querendo entrar nos reversos da cantiga.
Os sonhos que você contou pra mim, as fogueiras, os balões, os luares sertanejos, a jaqueira, a fruta no capim, a erva daninha no chão espezinhado. Eu era tão criança! E ainda sou. Ainda sou - oh, bela - um sonhador titã, tórax de superman, coração de poeta, quase cometendo um soneto para arrombar-lhe as janelas da alma.
Pode continuar fazendo papel de louca, arrasando meu projeto de vida, garantindo que é sempre minha. Saiba, contudo, que o mar perde o valor, o fim do mundo é opaco na cabeça de qualquer marujo, que tenho um jeito manso só meu. Acorda, amor, pode ter gente lá fora, batendo no portão. Tomara que seja só um pesadelo.
Além do mais, reparando bem, a bailarina tem pentelho, marca de vacina, pereba, irmão zarolho, calcinha velha. Imagino-me, desde logo, o artista no anfiteatro onde o tempo é a grande estrela, de quem arrebatam a garganta e que sorri porque lhe desenham contrapesos nos cantos da boca, triste para quem gozou de boa vida.
Agora falando sério, nada de esperar que a morte nos una. Melhor ser feliz. E passar bem. Nada de morrer de ciúme, de quase enlouquecer. Sei que a saudade é o maior tormento, é pior do que se entrevar, mas, apesar de você, de mim, amanhã será outro dia, porque, definitivamente, não somos mais aqueles dois pagãos.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Príncipe Plebeu
Recebi faz ano e pouco, sem precisar dia, pois a dedicatória registra apenas “março de 2010”. Foi ali, sob os auspícios de São Johnny Walker, na abadia do Bistrô Lyon, que Laélio Ferreira e Isaura Rosado me entregaram o Príncipe Plebeu – uma biografia do poeta Othoniel Menezes, da lavra do escritor Claudio Galvão.
Não o li de imediato, impedido pelas turbulências dos últimos meses, mas o fiz de uma só vez, e sem favores, por admiração tanto ao biografado, um dos maiores vates da história do Rio Grande do Norte, quanto ao seu filho, Laélio, poeta fescenino da melhor estirpe, polemista inflamado, inspirado, quase meu primo.
O estilo de Claudio Galvão dispensa comentários, bem como sua capacidade em garimpar a memória dos acontecimentos. Suas fontes principais, Francisco Menezes de Melo, irmão de Othoniel, e dona Maria do Carmo Bonfim de Melo, a primeira esposa, parecem conversar conosco nas linhas e entrelinhas do texto.
O nobre “Príncipe Plebeu” recita a “Serenata do Pescador” nos intervalos da prosa, nessa mesma atmosfera polifônica. Ode à “Praieira dos meus amores”, plebeia imaginária coroada em versos, Penélope do estuário do Potengi, muito mais tesuda que a deslumbrante Kate Middleton, duquesa de Cambridge. Evoé!
Quanto ao prefácio de Laélio, emocionante. Foi inevitável chorar, ainda por cima naquele alpendre de Melancias, no balanço da rede ao sabor do vento da “Canoa Veloz”, tendo por trás do livro aberto em minha mãos, o vulto da Serra do Mel estabelecendo no horizonte os limites entre o azul do céu e o verde do mar.
Senta o ripa nos “poetas medíocres”, “de pé-quebrado”, nos “mais emproados” que declamam “babaquices” numa “porra-louquice total”. Bate ainda no Poema Processo, nos “cordelistas de bancada” e nos “esfumaçados vates performáticos”. Sem esse breve parêntese no lirismo, convenhamos, não seria Laélio.
O trabalho de Claudio, publicado pela Fapern com o selo da Coleção Mossoroense, visita a árvore genealógica e a infância do menino que aprendera com a mãe “o pendor artístico, a capacidade de sentir, comungar a beleza”. Os recitais em casa, as primeiras letras, terra fértil para um Sertão de espinho e flor.
Há outras personagens importantes, a exemplo do aviador João Menezes, do modernista Jorge Fernandes e da poetisa mossoroense Helen Ingersoll, que em 1947 escreveu: “Amar.../ Mas não amar a um só homem./ Que o coração do homem é inflexível” e a quem Dorian Jorge Freire dedicou crônica memorável.
Vitórias, desgraças, pioneirismo, política, traições, academia de letras. O fescenino revelado por Celso da Silveira – que saudade de você, meu amigo. A alma do príncipe sem metais visto por Olegário Mariano como “o maior entre todos os do norte do Brasil” e a quem, no estilo de Laélio, saúdo com um Saravá!
sábado, 11 de dezembro de 2010
Quem é você que não sabe o que diz?
O povo teoricamente representado na Câmara Municipal de Mossoró (CMM) está entre a espada e a caldeirinha. Não sabe o que diz: pedir a continuação do “G de 6” ou mudar para o “G de 4”, porque este mais aquele, noves fora, nada.
Crentes na matemática, o primeiro se soma ao Palácio da Insolência a fim de se manter por cima da carne seca, enquanto o segundo sofre no afã de chegar ao poder no tranco, empurrado por outro “G”, o “de 3”.
Ambos costumam recorrer a artifícios cretinos, extraplenário, no intuito de “orientar” a linha editorial dos veículos de comunicação e manipular a opinião pública. Na maioria das vezes, convencem. São irresistíveis.
Curvo-me, mostro o fundo das calças se necessário, só para ter o privilégio de lhes depositar aos pés um surrado diploma de jornalista e a experiência adquirida em quase 25 anos, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, na luta vã das palavras, no suor da colheita de ideais “para meu sustento”.
O escândalo que se vê nas poucas páginas livres é nada diante da pocilga construída nos bastidores dessa disputa de pigmeus nutridos a base de azul de metileno, num episódio reverso aos da obra de Pierre Culliford. Na Megalometrópole do Nunca, o bruxo e seu gato cruel são as personagens do bem. Pode? Pode!
Rodolfo Fernandes, o saudoso prefeito herói, com certeza revira-se no túmulo exigindo a retirada do seu nome da condição de patrono daquele ambiente que doravante pode ser batizado de “Palácio de Lampião”.
Em meio a tanto chafurdo, garanto, você não se perguntou quantos motivos causaram o racha na bancada neoblue, origem da Mocidade Independente da Panela do Amaro; por quais circunstâncias os de quatro desconfiam tanto da infidelidade uns dos outros, a ponto de promoverem retiros rurais para se vigiarem; de onde vem a fé dos que permanecem tementes a Deus.
Faça isto, questione-se. Ao descobrir que tanto Inês de Castro quanto Maria Preá estão mortas e sepultadas, sem possibilidade de ressurreição até 2012, não se angustie, pois hoje é o centenário de Noel Rosa, dia de samba.
Então, “... Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,/ Oswaldo Cruz e Matriz/ Que sempre souberam muito bem/ Que a Vila não quer abafar ninguém,/ Só quer mostrar que faz samba também...”. E tem mais: “... A Vila é uma cidade independente/ Que tira samba, mas não quer tirar patente/ Pra que ligar a quem não sabe/ Aonde tem o seu nariz?/ Quem é você que não sabe o que diz?”.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Em dias crônicos não há crônica.
Nem título
Rótulos deturpam o nada.
Muito menos
Ideia que se alinhe na métrica dos parágrafos. Daí, a deselegância, o desalinho, o sem-vontade dos cânticos negros. Não, não vou por aí... Passos meus, onde estão, por que não me guiam?
E
O que se escreve em dia desses? Sonetos de amor, poemas de ódio, notinhas bem-comportadas, textos sacanas?
Fazer
Igual ao papagaio que pensa em voz alta diante da máquina de escrever: em quem baterei amanhã? Em quem baterei amanhã? Em quem baterei amanhã?
Protestar
Contra os algozes do Wikileaks, os diplomatas sem diplomacia pagos por Tio Sam para ridicularizar o mundo?
Silenciar
Por medo dos senhores dos cargos e dos orçamentos, sobre as intenções do Gê de Quatro? Deve ser a idade...
Chega
De interrogações, que já estou de saco cheio!
Contar
Que A Mais Bonita acaba de me telefonar com os vinhos à flor da pele, ouvindo a música do tempo em que o tempo era noite e a noite era a alma e a alma se escondia debaixo dos lençóis talvez faça bem ao ego um tanto quanto baleado, sem chance de defesa, muito menos de ataque.
Gostaria
De me dirigir a Deus, encorajado que me sinto pelas memórias de Gilberto Freyre, com minhas próprias palavras, sem os subterfúgios mal-empregados neste ou naquele texto meio concretista, meio surreal.
Dizer
A ele ou a ela, na dúvida sobre o sexo das divindades, que a culpa das pragas do mundo não é dos ateus, mas dos teus (apesar do desrespeito à lógica gramatical), mercenários do verbo alheio, jagunços de olhos azuis, crentes neles e não nele.
Senhor
Dá-me inspiração. E paciência!
sábado, 27 de novembro de 2010
Flatulência no local de trabalho
O Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região decidiu: “Impossível validar a aplicação de punição por flatulência no local de trabalho, vez que se trata de reação orgânica natural à ingestão de alimentos e ar, os quais, combinados com outros elementos presentes no corpo humano, resultam em gases que se acumulam no tubo digestivo, que o organismo necessita expelir, via oral ou anal”.
Traduzindo o juridiquez contido no acórdão nº 20071112060, referente ao processo nº 01290200524202009, originário da cidade de Cotia-SP, tem-se que a Justiça brasileira reconhece – e garante! – o direito de o trabalhador liberar ventosidades anais no local de trabalho, inclusive em ambientes climatizados, pois arrotar e soltar puns são necessidades orgânicas inadiáveis do ser humano.
Para o juiz relator, “Estrepitosos ou sutis, os flatos nem sempre são indulgentes com as nossas pobres convenções sociais”. Lembra que “Disparos históricos têm esfumaçado as mais ilustres biografias” e cita Dom Pedro II entre os peidões ilustres, embora, no caso imperial, conforme Jô Soares, no “O Xangô de Baker Street”, houvesse uma espécie de dublê de bufa a fim de assumir a culpa.
A novidade me foi contada, via mensagem eletrônica, por Rogério Dias, artista plástico, publicitário, poeta e o único professor de datilografia remanescente. Interessei-me pelo assunto, lembrando-me de um acontecimento na redação do O Mossoroense, que até virou crônica do jornalista Leonardo Sodré, e fui conferir a autenticidade do texto no sistema do TRT-2, com sede em São Paulo.
A atitude não foi de desconfiança em Rogério, que gentilmente repassou aos amigos a história que lhe fora enviada por alguém, mas por saber que a Internet é terreno fértil para todo tipo de piada. Outra coisa: era preciso extrair a jurisprudência de fonte oficial para inibir, com maior eficiência, a sanha demissionária contra nosso colega de redação indicado por Sodré como maior suspeito.
Quero também me resguardar, caso me veja diante de alguma dessas necessidades orgânicas inadiáveis. Algo deveras salutar depois de um dia inteiro à base do chazinho de boldo com camomila feito por Cristiane, nossa assessora sênior de nutrição e higiene, na tentativa de reduzir o excesso de cafeína ingerido por repórteres e redatores, com ou sem formação acadêmica em jornalismo.
Brochei (ato de pregar com brocha) o acórdão no mural e quero ver se um dos chefes terá o desplante, a ousadia, de demitir qualquer de nós por overdose de boldo. Isso, sem desconhecer, na festejada decisão, a ressalva de que “A imposição dolosa, aos circunstantes, dos ardores da flora intestinal, pode configurar, no limite, incontinência de conduta, passível de punição pelo empregador”.
sábado, 20 de novembro de 2010
Mate um nordestino
Difícil compreender a humanidade. Mesmo o cronista, devotada à observação das pessoas, sente dificuldade em decifrar certas criaturas. A estudante de Direito Mayara Petruso complica essa tarefa ao alardear a ideia de que nós, nordestinos, não somos gente e que devemos ser afogados para o bem de São Paulo. Tudo porque, no entendimento dela, o Nordeste elegeu Dilma Rousseff (PT) presidenta.
As seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Pernambuco e do Ceará querem que a moça responda pelos crimes de racismo e de incitação ao crime. A OAB de São Paulo, onde a dita cuja se inscreverá, caso termine o curso e passe no exame específico para aquele fim, endossa o pleito das coirmãs, afirmando que não se pode tolerar racismo, xenofobia, preconceito nem intolerância.
Mais importante do que as opiniões institucionais é a reprovação social a gestos medonhos dessa natureza. Os brasileiros, exceto os partidários do neonazismo, repudiaram em peso a atitude. Daí, acossada por críticas oriundas de todos os recantos do País, a própria autora apagou as mensagens ofensivas, que estavam no Twitter e no Facebook, excluindo seus perfis dos brinquedos virtuais da moda.
Pobre moça que nos odeia sem ao menos conhecer-nos. Talvez até seja descendente de um de nós e se afogue conosco na limpeza étnica sugerida. Francamente, sinto muita pena, porque na juventude todos cometemos erros e alguns nos marcam para a vida inteira. Quando amadurecer, Mayara Petruso ainda carregará no rosto, como que tatuado na testa a ferro e fogo, o eco das palavras irrefletidas.
Sou nordestino da cabeça chata, do pé rachado e de sotaque carregado, nascido no sertão de Mossoró-RN à margem setentrional de um rio seco. Votei em Dilma nos dois turnos, sem medo de ser feliz nem de ser assassinado por lunáticos separatistas. Gosto de São Paulo, onde estive por várias vezes; de sua noite, que sacia meus desejos; e de seu povo, que sempre me acolheu com todo carinho.
Não mudo de opinião nem que a jovem “tucana” ou qualquer outra criatura de mentalidade xenófoba volte a escrever baboseiras, afirmando que devo ser morto por minha origem e meu pensamento político. Essa gente faz parte de uma minoria que se nutre de raivas idealizadas, sem perceber que, assim como diz o poeta Jorge Luís Borges, odiar alguém é se tornar “de algum modo o seu escravo”.
sábado, 30 de outubro de 2010
O estranho
Encontrava-se ali, sentado, fazia horas. Segundo consta, o estranho chegou puxando uma carrocinha cheia de papelões velhos, garrafas secas e revistas usadas. Nada pediu nem ofereceu. Ficou quieto com as pernas cruzadas, revelando, mesmo sem esta intenção, que os pés descalços estavam tão sujos quanto o bigode e a barba.
Ele ria sem arreganhar os dentes. Na verdade, ele nem abria a boca, apenas acionava a musculatura do rosto sulcado por rugas precoces, empurrando as extremidades dos lábios no rumo das orelhas semiencobertas pelos cabelos castanhos. Tarefa difícil. A pouca mobilidade facial e os olhos apequenados eram prova do sacrifício.
O silêncio do maltrapilho feria os tímpanos dos observadores que fingiam não enxergar as toneladas de palavras mortas atrás daquele sorriso. As cadeiras punham-se de costas, porque os olhos distantes do homem embrulhavam o estômago de quem teve o privilégio das primeiras refeições do dia e já se deleitava com o aperitivo do jantar.
Pode crer, prezado leitor, o constrangimento foi geral. Até o vento deixou de brincar com as folhas da mangueira amojada que se derramava em flores na própria sombra. Os pássaros, pouco a pouco calaram e a tarde pediu que a noite se apresentasse mais cedo ao posto de trabalho, de modo a esconder na escuridão a miséria da personagem indesejada.
De repente, uma tigela de comida chegou às mãos do maltrapilho. Alguém decifrara o enigma proposto no sorriso mudo e no olhar disperso. Ele aceitou a oferta sem agradecimentos, apenas estendeu as mãos para receber o que lhe davam e comeu bem devagar, como se não estivesse faminto, mas comeu tudo, raspou a tigela.
Depois, o estranho esfregou as mangas da camisa na boca, retirando o excesso de gordura, levantou-se e partiu sem olhar para trás, sem dizer palavra, arrastando em marcha lenta a carroça carregada de quinquilharias. Foi indo e indo até dobrar a primeira esquina da rua e desaparecer sem revelar nada sobre si além da miséria e da fome.
sábado, 16 de outubro de 2010
Medo da Morte
Quer saber? Eu morro de medo da Morte e de inveja de quem não a teme. Do universo de menino ao tempo de rapaz, não me lembro de haver me preocupado com o assunto. Não era à toa a coragem de correr nos telhados das casas de meus pais e de meus avós, de montar em burro brabo, de saltar de peito aberto do pinga da Pedra do Ceará na crista das ondas de Tibau e de enfrentar os bandidos imaginários do Beco dos Tarados, aquele ali à direita de quem olha para o Cemitério de São Sebastião. Atravessá-lo à noite, quando não era pavimentado nem possuía iluminação, era demonstração de bravura.
Anos se passaram, perdi familiares, perdi amigos, perdi crenças, perdi sonhos de imortalidade construídos na memória da infância com imagens de figuras de revistas em quadrinhos. Ganhei tristeza, ganhei saudade, ganhei inquietações medonhas e, vez em quando, no silêncio das multidões, pego-me a refletir sobre o sentido das coisas, se é que algo no mundo faz realmente sentido diante da única certeza da vida, a de que o verbo ser não será conjugado para sempre no futuro do presente na concepção de existência física, mesmo com o avanço da genética que tenta alcançar a sabedoria da natureza.
O repórter fotográfico Luciano Lellys, meu amigo e colega de trabalho há quase duas décadas, jura beijando os dedos indicadores em cruz que a Morte não o amedronta. "Meu receio", diz o retratista, "é a forma que ela chegará". Em outras palavras, quem assusta mestre Luc é a face da nova namorada que se imagina a velha amante, como a define Vinícius de Moraes no poema Haver. "Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio", escreveu o poetinha, "Pelo momento a vir, quando, emocionada/ Ela virá me abrir a porta como uma velha amante/ Sem saber que é a minha mais nova namorada".
Esse mistério da chegada é perturbador, inclusive para os que, a exemplo de Fernando Pessoa, afirmam que "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada". Será cruel e dolorosa ou amável e serena? Terá a forma de esqueleto armado de foice ou a cara indefinida do pai que devora os próprios filhos? Chegará na hora esperada ou atrapalhará os nossos planos? Virá pelo aço, pelo fogo, pela água ou pela própria matéria? Gilberto Freyre pedia que viesse suave: "Eu não chamo a Morte de doce/ Sei que Ela é amarga/ (O amargor das raízes)/ O que eu digo à amarga Morte é que venha/ docemente".
Prefiro a ideia de João Cabral de Melo Neto de que "a medida do homem/ não é a morte mas a vida". O problema é que a medida é curta. Por isso, embora sentindo medo, torço para que a Morte seja tão feminina quanto sua presença substantiva no dicionário. Não precisa ser linda, basta ser bonita. Tomara, se não for pedir muito, que tenha a paciência da amante experimentada nas artes da noite e, recorrendo a essa vivência, quebre o clima de tensão do primeiro encontro servindo-me um bom vinho tinto chileno, fazendo-me massagem nos pés e dizendo-me indecências ao pé do ouvido na hora de nos deitarmos.
sábado, 2 de outubro de 2010
15 de março de 1852
Véspera das eleições 2010, abro a “História de Mossoró”, do mestre Francisco Fausto de Souza, que a brava Coleção Mossoroense acaba de republicar. A quarta edição, com orelhas de Wilson Bezerra de Moura e prefácio de Lemuel Rodrigues da Silva, traz nas páginas 24 e 25 narrativa sobre a emancipação política do município que acaba de comprar o título nobiliárquico de “Metrópole do Futuro”.
O livro é um daqueles, na linha do “Mossoró”, de Vingt-un Rosado, do “Notas e Documentos para a História de Mossoró”, de Luís da Câmara Cascudo, e do “Executivo e Legislativo de Mossoró – numa viagem mais que centenárias”, de Raimundo Soares de Brito, que os senhores vereadores deveriam haver ao menos folheado antes de violentar nossa inteligência com a malfadada Lei nº 2009/2004.
Esse monstrengo legislativo – ainda em vigor – faz de 9 de novembro de 1870 o dia a partir do qual teríamos conquistado o direito de eleger nossos valorosos edis. O correto, no entanto, é 15 de março de 1852, data em que o multifacetado capitão José Joaquim da Cunha, presidente do Rio Grande do Norte, assinou a Lei Provincial nº 246, emancipando-nos de Assú. Nas letras de Francisco Fausto:
“CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO – Pela Lei Provincial nº 246, de 15 de março de 1852, fora o território da ribeira de Mossoró desmembrado do município do Assu, a quem sempre pertencera, formando um novo município e elevada a respectiva povoação à categoria de vila de Mossoró”. E mais: “Neste mesmo ano foi eleita a primeira Câmara”, presidida pelo reverendo “Antônio Freire de Carvalho”.
A lei nº 620, de 9 de novembro de 1870, que confundiu os legisladores do século XXI, limita-se, de forma lacônica, a dizer “Fica elevada à categoria de cidade a Vila de Mossoró”. Tratou-se, a bem da verdade, de um gesto emocional, sem efeitos práticos, intentado pelo deputado vigário Antônio Joaquim. A diferença entre vilas e cidades, na época, era apenas a potencialidade econômica do lugar.
O brasão de Mossoró, estampado em todos os documentos do Legislativo, inclusive no timbre da Lei nº 2009/2004, traz numa faixa verde-amarela a inscrição “Município de Mossoró 1852”. O símbolo, de acordo com o historiador Geraldo Maia, existe desde 1912, havendo sido incluída a data magna graças à lembrança do então presidente da intendência, o apodiense Francisco Izódio de Souza.
Nem era preciso fazer o extraordinário esforço de abrir um livro ou de se submeter ao desgaste de consultar quem perde tempo estudando o passado daquela que Túlio Ratto apelidou de “Megalotrópole do Semiárido”. A data real estava na cara dos vereadores que reescreveram a história da “Terra da Liberdade”, justo privando-a de 18 anos de emancipação, erro crasso que infelizmente persiste.
sábado, 25 de setembro de 2010
O cronista
Quem carrega nos ombros a obrigação de escrever uma crônica diária precisa estar atento às ocorrências cotidianas para não perder, no detalhe que passa despercebido aos olhos dos outros, a essência daquele texto capaz de arrebatar a atenção do leitor.
Um homem dormindo no canteiro entre flores bêbedas, a cachaça das segundas-feiras derramada sobre a mesa, os nomes das garçonetes de olhos castanhos, o isqueiro de fogo-morto, o brilho da plateia de vaga-lumes diante das estripulias do vento.
O caos no interior das bolsas femininas daria uma ótima história, mas não tão boa quanto o que poderia ser escrito a respeito da agendinha da mulher de 30, onde o poema de Ferreira Gullar rasga a garganta do tempo e mata, na arte, a rigidez dos compromissos.
Há pouco, tropecei em três causos: o grupo de meninos jogando bola de meia no Centro, num desafio ao império dos automóveis, a velha em lúcido bate-papo com a solidão e o sanfoneiro do quadro de Assis Marinho dando ritmo ao silêncio da galeria.
Nada, nada pode escapar e tudo precisa ser analisado com muita pressa, pressa de formiga à beira do inverno, pressa de quem corre para encontrar a pessoa amada, pois a crônica da edição seguinte pede urgência e o jornal é uma pilha de nervos na hora do fechamento.
sábado, 18 de setembro de 2010
Meio século
O vate Genildo Costa festejou 50 anos na última sexta-feira, com rega-bofe para os camaradas. Aquela cachacinha paraibana, o camarão pescado em Grossos especialmente para o evento, o violão afinado em ré. Cantou, chorou, recitou versos, distribuiu numa das paredes do terraço fotografias arrancadas do fe-o-fó do baú, imagens do tempo em que nasceu o grupo Poema, movimento responsável por fase deveras interessante da cultura mossoroense.
Naquela época, cometíamos sonetos de pé-quebrado, brincando de ser poeta. Saíamos de bar em bar fazendo a Arte Intrusa, ideia de Rogério Dias, desafinando o coro dos contentes (“lat’s play that”), roubando aqui as palavras de Torquato Neto. Parávamos o trânsito no “Sinal de Poesia”, interferência amarelinha de Laércio Eugênio. Batíamos as feiras livres do Estado na Camelagem Cultural, liderados pelo nosso eterno presidente Caio César Muniz.
Costinha possuía sete fios de cabelo a mais encurtando alguns micrômetros a careca reluzente e dava trabalho a dona Irene, a primeira dama, com nossas farras literárias. Levou-nos certa feita, a mim e a outro companheiro, ao único prostíbulo do mundo onde não há mulheres, ali para as bandas do conjunto Abolição IV. Questionado sobre essa curiosa circunstância, respondeu sem pestanejar: “Claro que não tem, porque não traio minha esposa”.
Desenterrou além das lembranças, a coleção de vinis: Chico, Tom, Rita, Gil, Caetano, Belchior, Zé Geraldo, Zé Ramalho. Bolachões “cheirando a guardado de tanto esperar”, mas em perfeita harmonia com o ambiente saudosista. Ouviram-se várias faixas de vários LPs. A hiperatividade do proprietário nunca o deixou, e não o deixaria agora, ouvir o disco inteiro. O chiadinho nas caixas de som, os saltos da agulha. Qual, entre os novos, terá esse privilégio?
Noite de parceiros, apesar das faltas sem abono. Noite boa. Noite Curta. Poucos dentre nós, tomados de calvície ou de cabelos brancos, quando não atingidos pelas duas coisas, preserva os hábitos noturnos. Noite do vaqueiro dos bois-bumbás que avistou Virgílio escrevendo a saga de um amor profano. Noite do meio século de Genildo, poeta em letra e música, coração de gigante, ótimo caráter, sonhador dos sonhadores, a quem desejo vida longa.
sábado, 11 de setembro de 2010
Os vinte e um de Seu Rosado
A matéria remunerada com nosso pobre dinheirinho na qual a Veja inclui Mossoró entre as “metrópoles do futuro” atiçou a curiosidade sobre a descendência de Jerônimo Rosado. Entre os erros verificados no texto, que estragaram a propaganda, está a invenção de dois meninos que as mulheres do patriarca nunca tiveram: Jerônimo Premier e Jerônimo Second.
Seu Rosado nasceu em Pombal-PB, aos 8 de dezembro de 1861, filho de Jerônimo Ribeiro Rosado e Vicência Maria da Conceição Rosado. Formou-se em Farmácia no Rio de Janeiro, onde atuava como fiscal da iluminação pública. Voltou ao seu Estado em 1889, quando abriu a primeira botica em Catolé do Rocha e desposou Maria Rosado Maia, a Sinhazinha.
O casal teve três filhos: Jerônimo Rosado Filho, médico, farmacêutico e poeta, morto aos 30 anos; Laurentino Rosado Maia, falecido criança; e Tércio Rosado Maia, farmacêutico, odontólogo, advogado, poeta, pioneiro do cooperativismo brasileiro, comerciante de livros usados, professor universitário. Sobre “Premier” e “Second”, só a fonte maluca de Veja ouviu falar.
Sinhazinha partiu em 1892, pouco depois do último parto, vítima de tuberculose. No leito de morte, conforme relata mestre Luís da Câmara Cascudo, pediu “que o marido a fizesse sepultar no Catolé do Rocha, na terra onde nascera. E casasse com sua irmã Isaura, para que não tivessem madrasta, mas outra mamãe os dois pequenos órfãos, Rosadinho e Tércio”.
Reivindicações atendidas: o corpo de Maria Amélia foi sepultado naquele recanto sertanejo e o viúvo, de 32, casou-se com a cunhada, de 17 anos, em 1893. A noiva se mudou para Mossoró, onde o marido residia e para onde transferiu os negócios em 1890, a convite do médico e líder político Francisco Pinheiro de Almeida Castro, patrocinador da drogaria.
Do segundo enlace advieram 18 rebentos, nem todos chamados “Jerônimo” e nem todos numerados, contrariando a lenda contada à revista para desgraça do repórter desavisado. A lista é grande, mas o interesse, creio, é ainda maior. Por isso, transcrevo-a com base nas certidões de nascimento e casamento colecionadas por Cascudo, na biografia de Seu Rosado.
Izaura Rosado (com z)
Laurentino Rosado Maia (homônimo do segundo)
Isaura Sexta Rosado de Sá
Jerônima Rosado, que tem como apelido o nome de “Sétima”
Maria Rosado Maia, que tem como apelido “Oitava”
Isauro Rosado Maia, que tem por apelido “Nono”
Vicência Rosado Maia, que como apelido o nome de “Décima”
Laurentina Rosado, que tem como apelido o nome de “Onzième”
Laurentino Rosado Maia, que tem como apelido “Duodécimo”
Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Trezième”
Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Quatorzième”
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Quinzième”
Isaura Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Seize”
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido “Dix-sept”
Jerônimo Dix-huit Rosado Maia
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome “Dix-neuf”
Jerônimo Vingt Rosado Maia
Jerônimo Vingt-un Rosado Maia.
Exatamente dessa forma estão os documentos reproduzidos na obra cascudiana “Jerônimo Rosado – uma ação brasileira na província – 1861-1930”, inclusive com a curiosa expressão “que tem como apelido”. Quem quiser, consulte o livro na biblioteca pública ou no acervo da Coleção Mossoroense, porque o meu não empresto nem por cem e uma cocada preta.
sábado, 4 de setembro de 2010
A metrópole de Premier e Second
Passei dias de ansiedade, senti até embrulhos no estômago, até receber a Veja com a badalada presença do País de Mossoró. Domingo cedinho, dei plantão na portaria do prédio onde moro e, enquanto esperava o distribuidor, não conseguia tirar da cabeça a frase de marqueteiros europeus criada para a prefeita repetir ao final de seus discursos: “Mooossoróó, boom de trabalhaaar, melhor de vivê”.
Recebi a revista, sapequei os olhos na página indicada, murchei. O textículo posterior aos investimentos feitos na Editora Abril com nosso rico dinheirinho, sem mencionar a aquisição dos exemplares para o programa “Bolsa-Veja”, traz indicadores falsos, omissões convenientes ao oba-oba e erros históricos ridículos. Balde de água gelada no juízo do cidadão apaixonado pela Terra da Liberdade.
Se a ideia era atenuar a atmosfera desfavorável aos ocupantes do Palácio da Resistência, que amargam desaprovação recorde, a estratégia falhou e dificilmente redundará em dividendos eleitorais para os aliados. Isso porque pessoa alguma dará crença a tais presságios, nem aquelas que receberam a Veja com a página 110 destacada por uma fitinha azul-bebê e o cartão subscrito pela burgomestra.
Quem passa por aqui com relativa frequência sabe que a rede de saneamento básico atende menos de metade da “metrópole do futuro” também conhecida como “Cidade sem Presente”, na genial denominação da jornalista Ana Paula Cadengue. Tascaram 85% na matéria. Engraçado que, no dia seguinte, um gerente municipal desavisado falou em cerca de 50%. A Caern bate o martelo em 40%.
A “programação intensa” do Teatro Dix-huit Rosado é outro ponto controvertido, mas o pior é o que não se diz sobre o “Leão do Nordeste” e sua “população ávida por cultura”, em especial o enfraquecimento dos outrora grandes espetáculos. Auto da Liberdade, Chuva de Bala, Oratório de Santa Luzia amofinam pela redução de investimentos públicos. Sim, o museu! Fechado há quanto tempo?
“Há dez anos”, diz a peça jornalístico-ficcional, “lá não havia edifícios com mais de três andares”. A sede do Banco Mossoró, construída há décadas no Centro, tem cinco fora o térreo. Igual dimensão, pertinho dali, existe o Hotel Imperial, construção de 1990. No Alto de São Manoel, também dos anos 1990, localiza-se o Sabino Palace, de quatro andares. Prédios residenciais, desses nem se fala.
Problemas não há na região do “pós-sal”: favelização, pior sistema de transporte coletivo do Brasil, desemprego, comunidades rurais sem água, áreas urbanas intrafegáveis e às escuras, lixo e esgotos a céu aberto são tudo invenção da imprensa marronzística caluienta. Só na mente dos inimigos do “pogresio”, a candidata ao posto de “cidadona” já é a megalópole dos desacertos “estruturantes”.
Nem tudo é decepção. As referências à prole do avô da prefeita são hilárias. “Jerônimo Rosado batizou todos os filhos homens com seu próprio nome e com o número, em francês da ordem em que nasceram”. E segue: “Seu primogênito se chamou Jerônimo Premier, o segundo Jerônimo Second e por aí foi, até Vingt-un Rosado Maia”. Como diria o vate Laélio Ferreira, “Ai, minha canela!”.
O primogênito dos 21, apenas para constar, chamava-se Jerônimo Rosado Filho. O segundo, morto poucos dias após o nascimento, recebeu a graça de Laurentino Rosado Maia. “Premier” e “Second” – figa, diabo! – não passam de personagens de uma dentre as tantas brincadeiras de mau gosto que a fonte alvejante, talvez membro da gloriosa nação smurf, fez com a ótima equipe da Veja.
sábado, 28 de agosto de 2010
O deputado
Capitão Caverna provoca, ele gosta, mas não entro nessa. Quer texto sobre as eleições 2010 com foco nos candidatos excêntricos, bizarros, engraçados, incomuns, seja lá qual for a denominação adequada. Menciona o forrozeiro Dagô, o conterrâneo Miguel Mossoró, o senador positivo-operante e o índio que vive de fazer garrafada e simpatia.
A melhor performance, assegura, é a do índio. Também gosto do estilo das penas do cocar, do cachimbo de angico e do som dos tiros, três ou quatro, ouvidos ao final da participação. Lembram uns vinis de faroeste que papai tinha com a foto de Trinity e John Wayne na capa. As músicas, soladas de flauta, eram entrecortadas por estampidos.
Onde estão Super Moura e Xeique Humberto? Pergunta. Consulto os ex-universitários. Habner Weiner, repórter de peso a caminho da magreza cirúrgica, suspeita estarem infiltrados em hostes adversárias, a serviço de Ravengar. Bruno Barreto, editor político, esclarece: a candidatura do Super foi indeferida e o Xeique virou militante governista.
Menciona Tiririca, em São Paulo, cuja plataforma é descrita da seguinte maneira: “O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei, mas vote em mim que eu te conto. Vote no Tiririca, pior do que tá não fica”. Lindo! E ao som de uma belíssima paródia do clássico “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus...”, ele extrapola a perfeição.
A propósito, ouvi sexta-feira na FM-103, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), o exercício de radiodramatológico de título “O deputado”. A peça, que em Mossoró teria outra inspiração, satiriza o tipo de agente público – não os amigos de Caverna – que aterroriza os assessores esfolando a gramática na ânsia do improviso.
sábado, 21 de agosto de 2010
Soneto (ainda) sem título
Ela jura que a lua guarda as chaves
Do perfume das flores de sua alma,
Que as estrelas, embora tão suaves,
Acendem-lhe vulcões na face calma.
Aos sussurros noturnos já responde,
Aos gritos das manhãs se faz de mouca,
Dos apelos do Sol foge e se esconde,
Quando os dias se apagam vira louca.
Um poeta a beijou sem saber nada,
Perdeu-se de mais nunca se encontrar
Depois de a luz romper a madrugada.
Diz-se até que ele vai envelhecer
Sonhando cada noite a encontrar
Para cada manhã a esquecer.
sábado, 7 de agosto de 2010
A nuvem chupando água
Aconteceu numa dessas manhãs em que Tibau parece uma garrafinha de areia colorida trabalhada pelas mãos mágicas de Josefina, com o mar sereno, coqueiros manhosos e o sol avermelhando a tez dos morros seculares.
Nos alpendres, meninos transformavam papel, cola, linha, varetas e retalhos de pano em objetos alados. Cada qual querendo fabricar a melhor pipa, que fosse mais bonita, mais forte e levasse mais alto os sonhos da infância.
Vencer um duelo de pipas era o máximo, era como derrotar exércitos poderosos em batalhas nas quais ninguém se feria, era o triunfo da inocência na guerra em que, recolhidas as armas, ganhadores e perdedores partiam livres de rancor para novas aventuras.
Naquele dia, porém, mal os meninos empinaram as pipas, a brincadeira foi interrompida por um acontecimento estranho, pelo menos para os que ainda não conheciam certos mistérios tibauenses.
Tinha jeito de história de pescador, daquelas contadas por Ananias ou das que as avós inventam em noites de insônia para fazer criança encontrar o sono. No entanto, o fato ocorria de verdade, unindo céu e mar bem antes da linha do horizonte.
Mesmo quem já havia visto o Batatão correr sobre as águas da Barra ou escutado o destacamento de soldados fantasmas fazer evoluções no Morro das Sete Cores assustou-se ao ver uma tromba sair da cara duma nuvem e entrar no oceano.
Mais espantoso foi perceber que a tromba transparente sugava água em frenéticos movimentos aspirais. De repente, o vendaval tangeu a nuvem e a tromba começou a encolher assim que tocou o solo, desaparecendo no firmamento em poucos segundos.
Talvez os meninos de ontem tenham encontrado, na vida adulta, explicações para o que viram, mas naquele tempo prevalecia a ciência de Tidó, de que as nuvens, quando sentem sede, bebem a água do mar.
sábado, 24 de julho de 2010
A vizinha
“Há um bocado de gente
Na mesma situação
Todo mundo gosta dela
Na mesma doce ilusão
A vizinha quando passa
Que não liga pra ninguém
Todo mundo fica louco
E o seu vizinho também.”
Dorival Caymmi
O instrumentista Danilo Caymmi, assim o apresentam, cantou aquela música da vizinha, composta por seu pai, Dorival Caymmi: “A vizinha quando passa/ com seu vestido grená/ todo mundo diz que é boa/ mas como a vizinha não há...”. Antes, disse que a moça, possivelmente baiana, existiu de fato e que, segundo a tradição, fazia jus à homenagem do velho.
Lembrei-me da vizinha de um dos meus primos, morador, à época da história, da avenida Alberto Maranhão, ali no centro. Não revelo o nome dele para não entregar a beldade por tabela. O endereço já é muito. A danada tomava banho no quintal nos finais de tarde, nuinha, nuinha, povoando os pensamentos da meninada com aquele corpo dos seiscentos capetas.
Ensaboava-se com visível prazer. Devagar. Cada parte. E o vento, criatura de sorte, arrepiava-lhe a pele depravadamente morena. Quando em vez, pousava os olhos castanhos sobre um dos ombros, enquanto se esforçava para alcançar a maior área possível das costas. Balzaquiana. Isso, devia ter seus 30, idade das idades. Nós, os voyeuristas, por volta dos 15.
Foi a época em que comprei meu primeiro Kama Sutra. Doido para experimentar as acrobacias eróticas ensinadas naquele santo livrinho, em meio ao apelo dos hormônios. Ah se tivesse sido com a vizinha, o papai-mamãe, a cadeira de balanço, o aprisionado, a oferenda, a sonolenta, a catalã, a medusa, o arco, a catapulta, a profunda, o furor selvagem ou a libélula.
Quanto alumbramento, quantas vezes toquei aquelas curvas, aquelas coxas, aquela bunda, aquele sexo, com as mãos púberes. Quantas vezes me despi, e a cheirei, e a lambi, e a mordi, e a penetrei com firmeza, sem que ela soubesse, sem que ela sentisse o gozo, os fluidos despejados em sua boca, sem que ela imaginasse quem a desejava além das fantasias.
sábado, 17 de julho de 2010
"Volta, Canindé!"
Pintou nostalgia. Deve ser o “uisquito gringo”. A terceira dose, feito o conhaque de Drummond, deixa a gente “comovido como o diabo”. Ainda mais assim, sozinho, caneta e guardanapo sobre a mesa. De repente, entre rabisco e outro, que se imaginavam poesia, as letras mal-amanhadas formam um nome nada afeito ao lirismo: Canindé Queiroz, fundador da Gazeta do Oeste, polemista ferino, que marcou época no jornalismo “tupiniquim”, despertando sentimentos de amor e de ódio.
Brigou com muita gente, quase o mundo inteiro. E de peito aberto, sem se esconder na barra da saia do anonimato. Nem eu, menino velho, escapei. Acusou-me de algo engraçado: ser rosalbista. “Tem rosalbista editando o vetusto O Mossoroense”, dizia, irado, porque o jornal não se filiou à campanha dele contra Rosalba Ciarlini. Quando passei no vestibular para o curso de Comunicação Social da UFRN, telefonou-me lamentando o que considerou “rebaixamento de profissional a estudante”.
Fez escola com o famoso estilo arrasa-quarteirão, tanto que, embora não escreva há anos, ainda inspira profissionais e comunicadores leigos, inclusive e estranhamente umas vítimas de seus escritos, nos tempos áureos da coluna “Penso, Logo...”. Isto, Freud explica. Vem daí, na terra de Souza Machado, a incapacidade para se distinguir entre crítica e agressão, bem como a ideia de que jornalista bom é o sujeito escroto que bota para moer, escreve palavrões, desaforos, humilha e ridiculariza.
Na briga com Gustavo Rosado – vixe, parece que foi ontem! –, Canindé banhou de ouro um baú de injúrias, calúnias e difamações. Referências tão descabidas só voltaram a ser feitas ao hoje secretário do Gabinete da Prefeita, em processo judicial recente, quando advogados interrogavam falsários do vuco-vuco. A defesa de Gustavo contra a Gazeta do Oeste coube ao movimento artístico e, creiam-me os jovens, a este jornaleco que o Palácio da Resistência persegue com energia e entusiasmo.
A guerra contra o Colégio Sagrado Coração de Maria (Colégio das Irmãs), sem poupar as freiras, as mães de alunos nem o Papa João Paulo II, a quem desejou penetrações profundas em sete vias e com areia da praia, suscitou debates além das fronteiras do Rio Grande do Norte. E não havia Internet. Carlos Santos, editor da Gazeta, à época, impediu a publicação do texto em que o chefe utilizava cinquenta sinônimos de “homossexual” para designar respeitado sacerdote de nossa paróquia.
Não conseguiu evitar, no entanto, que certo jurista tivesse o lombo – como era mesmo a expressão? – “amaciado com porrete de jucá”. O homem não merecia, asseguro, mas apanhou até o colunista cansar o braço de tanto bater. Ah, voltou-se também contra colega nosso, de redação, estimulando-o a usar cangalha como fardamento de trabalho. Vários professores da Ufersa, além de empresários de dentro e de fora do “condomínio”, sentiram o peso das palavras com as tintas de CQ.
A campanha anti-Rosalba, mencionada no início deste arremedo de crônica, foi das mais cruéis, equiparando-se a episódio de há pouco, tendo por alvo a deputada federal Sandra Rosado. Em ambos os casos, as ofensas são intranscritíveis e atingiram níveis extremos. O contra-ataque da Rosa, pelas vias judiciais, arrasta-se por 15 anos, impondo severas indenizações à Gazeta, sem, contudo, desarticular a estrutura do jornal, que se mantém e cresce graças à competência de Maria Emília.
Esse relato comparado ao estilo dos neopolemistas dá uma saudade! Imagino até realizar a campanha “Volta, Canindé!”, lá no “tuíte”, como estímulo para que o mestre retorne às páginas da “urbe amada de todos nós”. CQ será idolatrado e o porrete de jucá convertido em bastião da democracia. Os únicos problemas, frente aos que se julgam seus discípulos, seriam os fatos de ele ser inteligente e ter coragem para assinar o que escreve. Mesmo assim, valeria a pena: “Volta, Canindé!”.
sábado, 10 de julho de 2010
Olhos
Jamais esqueci nenhum. Os primeiros eram negros, redondos, ornados por cílios enormes. Diziam pouco de si, apenas o bastante para encantar a garotada. E como seduziam! Seduziam e se aproveitavam da inocência dos meninos naqueles tempos de fogueira, milho verde e balão.
Os segundos, amendoados, apertavam-se na moldura do rostinho trigueiro e falavam pelos cotovelos. A poesia os agitava, dava-lhes o brilho das estrelas de grandeza superior. Por eles, os rapazes bebiam enormes goles no cálice do ciúme e faziam todas as besteiras juvenis.
Depois vieram uns cuja cor nem é bom mencionar. Diferentes dos primeiros, que enganavam sem malícia, estes mentiam por maldade, roubavam a pureza, a fé e lançavam qualquer pessoa na sarjeta, sem dó nem piedade. Quem escapou ainda traz as marcas de suas unhas no corpo e na alma.
Por outro lado, houve dois favos de mel. Os mais doces e meigos de todos, sempre empenhados em fazer o bem e em semear a felicidade nos corações humanos. Amavam de modo pleno, fiel e compreendiam as particularidades alheias, por estranhas que fossem ou parecessem aos comuns.
Os penúltimos eram depravadamente azuis, iguais àquelas metáforas batidas: azuis da cor do céu, da cor do mar, de anil etc, etc, etc. Loucos de pedra. Não mentiam por nada neste mundo, mas suas verdades rasgavam a carne com a violência de uma navalha cega, com a insensatez do fogo das paixões.
Os de ontem também surgiram azuis até se revelarem castanhos. A cada frase, dez mistérios que os tornavam ao mesmo tempo inocentes e depravados, verdadeiros e falsos, doces e amargos, generosos e cruéis. Por isso, meu amigo, deixo o aviso: caso os encontre pela noite, não arrisque fitá-los. Você pode imaginar o céu e cair no inferno.
sábado, 3 de julho de 2010
Profilaxia
Mastigo um punhado de palavras por vez, tentando encontrar sabor menos amargo nas construções verbais. Não devo vomitar orações unidas pela saliva grossa de ontem à noite, embora o desejo seja tanto e me consuma desde quando. É difícil, certas vezes, o sujeito conter a própria voz, ficar quieto, policiar-se para não botar a alma a negócio nas mãos do diabo, por momentos fugazes nos braços das fúrias.
Megera, mãe do ciúme, da inveja, do rancor, perseguidora implacável, eterna memória das fraquezas. Tisífone, marcando a loucura no compasso do chicote. Alecto, que alimenta as maldições no prato da soberba e rouba o sono dos incautos com as tochas do desassossego. São filhas da vingança, essas fúrias, existem desde antes de o mundo ser mundo, e perdem o homem mais que as ilhas de Drummond.
Também não cuspo. O azedo. Pedra. Espinho. Trituro. Engulo. Calado. Desce. Volta. Atravessa. Rumino. Truncado. Seco. Boca. Garganta. Estômago. Estômago. Garganta. Boca. Por enquanto? Para sempre? Sei lá! O tinhoso não sabe. Deus não sabe. O padre! Sim, o padre! O cão sabe! Ou imagina? Infeliz. Insípido. Inodoro. Indigesto. Filho da... Epa! Ponto. Pronto. Xapralá. Pronto. Ponto. Pronto... Ponto.
Sábio não se deixa seduzir por tais beldades. Sábio não vai às ilhas. A tentação pode ser grande, enorme, gigantesca, mas ele espera, porque conhece as voltas do mundo. Iazul. O idiota relincha palavras de ordem, mete as patas sujas pelas mãos e lança coices de ofício, ao som das ventosidades anais que lhe escapam em semitons. Não sabe, coitado, que as cobras morrem por excesso de confiança no veneno.
Perdoe-me, estimado leitor, pelos desarranjos no estilo, nesta viagem nas asas libertinas dos delírios. Tenho me contido para não escarrar na cara de fantasmas sem formação óssea, cartilaginosa ou moral que você desconhece, por sorte e saúde mental. E isso, para o ora pretendido, é desnecessário. Basta que os fonemas penetrem o juízo certo, na dose exata, para surtirem os efeitos profiláticos desejados.
domingo, 20 de junho de 2010
Templos de mármore
Vez em quando, recebo a ilustre visita do pastor João Leandro da Silva. Trato-o apenas por pastor Leandro, sem demérito ao João nem ao Silva, prenome e sobrenome do maior respeito, até pela consagração popular. É o costume e, principalmente, como ele se apresenta. Da última vez, na quinta-feira, trouxe-me a 39ª edição do jornal “Está Escrito”, que faz com o maior carinho, numa folhinha de papel “A4”, esse de escritório, para difundir ensinamentos cristãos.
Leio de coração aberto os informativos que o pastor me traz, mesmo sem nutrir sentimentos religiosos, pois a palavra está acima dos homens e sempre nos esclarece, e sempre nos encoraja: “O Senhor é contigo, homem valente”, diz a epígrafe retirada de Juízes, 6.12, para o texto “O cristão e os espíritos maus”, em que se diferencia o pecado e a ruindade, aquilo enquanto condição dos degredados filhos de Eva e isto como caracterização do espírito de porco.
***
Acaba de morrer o escritor José Saramago. Deu na televisão e na internet. O único Nobel de Literatura da língua portuguesa, segundo as primeiras notícias, dormiu bem de ontem para hoje (estamos na antevéspera da publicação desta crônica), tomou café da manhã normalmente, sentiu-se mal pouco depois e partiu, aos 87 anos, apaziguado nos braços da mulher amada, Pilar del Rio. Noite passada, fez constar no seu blog: “sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.
***
Aberto e fechado o parêntese fúnebre, com necessária cautela para não ofender a pertinência temática, retorno ao pastor Leandro, só para completar o raciocínio. Pois bem, aí está um homem capaz de ir a todos os lugares, no sentido de Samarago, porque cultiva a reflexão, porque não teme se expressar, porque não foge do debate. Nossos diálogos, apesar de enxergarmos por óculos diferentes as questões espirituais, não criam barreiras nem azedam a cordialidade.
É dele a sentença ácida publicada aqui no O Mossoroense, aos 16 de julho de 2006, de que “a instituição chamada igreja é um cemitério que alimenta urubus, guarnecida por cães, os atalaias de quem fala o apóstolo Mateus, quando escreveu ‘Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres’ (24.28)”. Não chego a isso e nem poderia, por ignorância na fé. Concordo, entretanto, no sentido de que, seja qual for a entidade, ninguém se faz respeitar pela força.
Os templos de mármore, em cujos salões ecoam prepotência, arrogância e ódio, servirão de túmulo para as memórias de seus infelizes ocupantes. Que não me leiam tais criaturas, por “Deus”, para não tropeçarem na consciência pluralista do texto, caindo, na ordem, com o peso dos desaforos e das ameaças sobre esta pobre cabeça nordestina viciada em pensar. Mas se lerem e não gostarem, não gostem; se vierem, venham: estou até os dentes armado de liberdade.
domingo, 13 de junho de 2010
Palavras tardias
Ela escreve ao “antigo” amigo encurralando o adjetivo entre aspas para evocar o sabor da metáfora. Afirma não resistir à opressão do silêncio. É preciso quebrá-lo para falar das armas, dos golpes e da última ferida. Começa a escrever sobre o ato de escrever. Busca em Clarice Lispector a sentença de que às vezes “É duro quebrar rochas” com palavras, mas não perde a convicção: “Escrever é minha liberdade!”.
E livre, prossegue com o texto. Mede cada verbete, esquadrinha frase a frase, encadeia o fluxo dos parágrafos. Talento não lhe falta para o jogo das letras, tanto que os sons e as imagens se entregam de corpo e alma aos caprichos da moça de Marte e de Além Mar. Nas últimas linhas, avisa sobre o próprio funeral e acusa o poeta imaginário, o tal “antigo” amigo, pelo assassinato das flores no esplendor da primavera.
Apesar de tantas queixas, reconhece no criminoso a sinceridade. Reconhece que o sujeito a avisou inúmeras vezes acerca dos perigos que se escondem entre o sexo e o sabor das uvas fermentadas, principalmente no vácuo onde a arte se confronta com a vida, onde o desejo não é mais que um escravo iludido por falsas promessas de luz e a realidade implacável rouba sem remorso o viço e a poesia das madrugadas.
A doce Charneca em Flor que no mundo anda perdida e navega em navios fantasmas desejando mil coisas sem saber ao certo o que deseja apazigua-se, contendo o ímpeto da Roseira Brava para dizer que a feriram de morte com algo “cortante e afiado, tipo faca, estilete ou punhal” e declara friamente àquele que considera seu algoz: “Parabéns! Dessa vez você usou a arma certa e o sucesso foi imediato e absoluto”.
O poeta imaginário, inimigo do lirismo, recebe a carta. Lê. Relê. E responde: “Para você, Sóror Saudade, escrevo estas palavras tardias, as que prometi faz tanto e tanto, palavras agora tristes, incapazes de curar dores de amor ou surtos de insensatez. Infelizmente, não tenho nada de alegria para oferecer por lenitivo, pois a lâmina torpe que me acusa de ser é quem mais sofre quando rasga o coração de uma flor”.
