domingo, 16 de janeiro de 2022

UMA CACHAÇA NO INFERNO


O professor José Ricardo da Silveira esteve sexta-feira no meu escritório. Papo vai, papo vem, lembramos de Raimundo Nonato da Silva, talvez o maior escritor do nosso Estado. Nonato nasceu em Martins, mudou-se para Mossoró ainda menino, na condição de retirante da seca, e viveu muitos anos no Rio de Janeiro, mas sem nunca perder o liame telúrico com o sertão potiguar.

Vinha habitualmente à Terra de Santa Luzia para os festejos do 30 de Setembro, em homenagem à libertação dos escravos cinco anos antes da Lei Áurea, resultante dos eventos de 1873. A redação do O Mossoroense era pouso obrigatório, sempre na companhia do mestre Raimundo Soares de Brito. Os dois foram colaboradores do secular jornal de Jeremias da Rocha Nogueira.

Guardo com carinho o retrato em preto e branco feito pelo amigo Luciano Lellys, no qual aparecemos os três no sofá da sala da editoria. Da esquerda para a direita, Raibrito, Nonato e eu, que ainda usava barbicha, um bigodinho cafona e óculos de psicopata americano. Quanto às roupas, continuo a me vestir do mesmíssimo jeito, de calças jeans, camiseta sem detalhes e tênis.



No dia da foto, conversamos a manhã toda. Pouco antes das 12h00min, saímos a pé, atravessamos o beco da casa de Seu Elizeu, pai de Emery Costa, ali por trás da agência central dos Correios; contornamos a Praça Vigário Antônio Joaquim pela calçada da Livraria Independência, da Rádio Rural, da Banca de Zé Maria, do Oitão, e fomos tomar umas depois do adro da Catedral.

Esqueci o nome do quiosque, um trailer, na verdade, estacionado na Praça Dix-sept Rosado, sem mesas ou cadeiras, exceto os bancos altos juntos ao balcão. Jamais esquecerei, entretanto, do suor frio descendo pelas costas, do pescoço ao mucumbu, em resposta imediata ao copo de pinga entornado goela abaixo, em pé, com o sol do Centro de Mossoró dando de paulada na moleira.

Desconheço a razão de Mário Cesariny haver traduzido como Uma cerveja no inferno, o título do livro Une saison en enfer, de Arthur Rimbaud, visto que saison, ao pé da letra, seria temporada. Aliás, se não divago na memória, li certa vez que a expressão remeteria ao modo de servir cerveja em Charleville, cidade natal do poeta francês que comercializava café e traficava armas de fogo.

Fosse Uma cachaça no inferno, diria que o tradutor lusitano andou bebendo aguardente por aqui, no mesmo lugar e nas mesmas condições climáticas que enfrentei lá pelo final da década de 1980. Depois daquilo, passei a me furtar de aventuras etílicas matinais ou vespertinas e me apaixonei pela noite, que me embriaga sem pressa, com a ternura das estrelas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

JORNALISMO "PEI BUFO"


Às vezes penso que o desejo de escrever “já se apagou em mim”, como “a luz do cabaré” no Tango pra Tereza, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Nada do que lembro, vejo ou sinto parece caber nas palavras, que talvez tenham se esgotado quando me perdi do jornalismo e caí no silêncio engravatado de um escritório. Sinto falta do frenesi das redações, do barulho das pessoas e das máquinas, do cheiro único de quando a tinta sangrava da impressora sobre o papel e o engravidava de ideias.

Por outro lado, não me enxergo no jornalismo “pei bufo” das redes sociais. Sinal de velhice, talvez, afinal nasci no século XX, sou membro da Geração X, além de, aos 50 anos, haver me tornado cringe – vergonhoso, para os “Z” e os “millenials” – por gostar de café, sexo, drogas lícitas e Rock and Roll. Para completar, estou 15 quilos mais gordo, motivo pelo qual, por maior que seja a ginástica semântica, os atuais contornos dessas mídias não me abarcariam a cinturinha sem fustigar a consciência.

Tirando honrosas e felizes exceções, a notícia ganhou a proporção de um pires de lágrimas, mas com profundidade suficiente para afogar a verdade, que agora é espancada, espezinhada, violentada, quando não assassinada a sangue frio e sua morte repercutida com alarde, ene vezes, com especulações tanto sacanas quanto escrotas. A velocidade e a extensão disso, só sente quem sofre a danação eterna. É o fogo do inferno queimando a honra, a alma e os ossos de culpados e inocentes.


Imagem gratuita do Pixabay









Imagem gratuita fornecida pelo Pixabay


Imagine abrir o celular após longa noite de sono e se deparar com o relato da própria morte estampada em perfis de redes sociais e blogs. Mesmo dormindo, as informações dão conta de que você integrava gangue de perigosos ladrões de banco cujos integrantes sucumbiram em confronto com a polícia há poucas horas, a quilômetros de distância de sua cama. Seu papel na associação criminosa era o de “explosivista”, embora não tenha destreza sequer para soltar chumbinho no São João.

Para piorar, vem a descoberta de que vários incautos repostaram a barrigada sem o menor senso de responsabilidade – barrigada, registra-se, significa erro grosseiro na linguagem jornalística do século anterior –. A fake news deu cria, ganhou o mundo. A partir de agora, o tempo todo, você precisará provar duas coisas a conhecidos e estranhos: que não é criminoso e que o interlocutor, confuso, não está de conversê com a alma penada do cabra defuntado no bala-vai-bala-vem com forças estatais.

Fico logo enjoado. Sorte que Lázaro Amaro arrastou o violão antes de eu começar a dizer como mentiras midiatizadas podem literalmente matar. Ouço o dedilhado de “Zará Tempo”, samba que vem por aí; e a onomatopeia do uísque meando a caneca. Lázaro e eu fazemos uns troços juntos na poesia, na música, na boêmia. Temos ainda o privilégio de defender o bom jornalismo advogando para profissionais éticos que buscam a realidade e fazem da crítica uma arte. E assim, a luta continua.


 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

JARARACA


No sertão, quando os céus não choram chuvas

E o vento espalha o pó dos boqueirões,

Chovem balas e brotam Lampiões

Dos túmulos dos olhos das viúvas.

 

Há sujeito que é gente e é serpente,

Matador diabólico, infernal,

Que despacha culpado ou inocente

No veneno do brilho do punhal.

 

Jararaca rebenta as terras mortas

Por veredas um tanto quanto tortas

No seu rastro de sangue, ferro e fogo.

 

Se ele morre, renasce em outro canto

Ou então vai ao céu e muda o jogo

Volta aqui, faz milagre e vira santo.

sábado, 8 de janeiro de 2022

ZARÁ TEMPO!


Antes de tudo e bem pra lá do nada,

Quando sequer no mundo havia gente,

O tempo já regia, onipresente,

A evolução da orquestra alucinada.

 

Maestro de tambores e destinos,

Dos raios, dos trovões, dos evangelhos;

No seu passo, meninos nascem velhos

E velhos, de repente, são meninos.

 

Rei dos ventos, senhor das estações,

Criador de alegrias e aflições,

Que tanto fere quanto regenera.

 

Zará Tempo! arquiteto de universos,

Rogo a ti um senão de primavera

Para florir o outono dos meus versos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

SEM MEIOS-TERMOS


Meu sonho é ler você sem meios-termos,

Captar seus pensamentos cabeludos,

Colher com dedos longos e desnudos

O arrepio escondido em versos ermos.

 

Se deixar, falo! Roubo-lhe as ideias,

Marco páginas, grifo as entrelinhas

Que nos levam a mares, odisseias,

A ninfas tanto putas quanto minhas.

 

Quero também beber daquelas prosas,

Feitiços de palavras e sentidos,

Metáforas devassas, sinuosas.

 

E na literatura dos seus “ais”,

Misturar rimas pobres com gemidos

Seduzindo canções nos vendavais.

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

DE ONTEM PARA HOJE

O cheiro morno e pálido de urina,

O fumo enlouquecendo a vizinhança,

Uma vala escavada na lembrança,

Tantos sonhos jogados na latrina.

 

Talagada de chumbo na garganta,

A cachaça descendo pela espinha,

O traste de calcinha amarelinha,

O satanás passando-se por santa.

 

A noite ministrada pela veia,

Madrugada em azul bossa-novista,

O sol assassinando a lua-cheia.

 

A cidade está clara, está vazia,

Apagaram-se as cores de um artista,

Mundo não é mais mundo. Já é dia!

sábado, 25 de setembro de 2021

101 ANOS DE 21 ROSADO

 Nunca me lembro dos aniversários das pessoas, apesar dos avisos do Facebook. E isso inclui pai, mãe, irmãos, mulher e filhos. Beirando meio século de vida, às vésperas do exame anual de próstata, até a minha data natalícia tenho feito questão de esquecer.

Portanto, não vou mentir dizendo que recordei assim, do nada, como que tomado por uma epifania. Foi Caio César Muniz quem me escreveu ontem: “Poeta, lembrando: amanhã 101 anos de Vingt-un”.

Todo mundo elege um “braço direito”. Vingt-un, pela deficiência auditiva acentuada, precisava, na verdade, de um “ouvido direito”, que era o bom e velho Muniz, versejador inspirado, jornalista competente, editor, boêmio e mais um monte de coisa.

Tenho o privilégio de os haver apresentado, um ao outro. Depois conto essa história, que, de tão maravilhosa, merece espaço próprio.




Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, caçula dos 21 filhos de Jerônimo e Isaura Rosado, foi quem inventou a expressão “País de Mossoró”, inspirou a criação da Esam – hoje Ufersa –, da Biblioteca Ney Pontes Duarte, do Museu Lauro da Escóssia e de tantas outras instituições culturais, sendo a maior delas a Coleção Mossoroense, com milhares de títulos publicados.

Era meu tio-avô e, apesar da diferença de idade, fomos grandes amigos. Tanto que, certa vez, mandou deixar um livro para mim, na redação do jornal O Mossoroense, com uma dedicatória que demorei a decifrar – porque a letra dele, como afirmava Cascudo, era ruim até escrita à máquina –, mas que dizia: “Quem disse que eram 21? Você é o 22”.

Saudade de você, meu tio, meu mestre, meu amigo. E meu irmão.

 

ANOTEM

Se a eleição para a presidência da OAB/Mossoró fosse hoje, a votação de Vânia Furtado seria maior que a soma dos sufrágios de seus adversários. A situação de Aldo Medeiros é melhor ainda, na terra de Santa Luiza. Ele estaria dois pontos acima de Vânia.

 

GET VACCINATED

A primeira-dama Michelle Bolsonaro vacinou-se contra Covid-19 nos Estados Unidos. Ela podia tê-lo feito no Brasil desde 23 de julho, mas em um gesto altruísta para economizar os estoques de imunizantes nacionais, resolveu esperar pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O resto é mi-mi-mi da mídia golpista, lixo, esquerdopata.

 

FALANDO NISSO

A vacinação contra Covid-19 chega à galera de 12 anos ou mais, em Mossoró-RN, no Ginásio de Esporte Pedro Ciarlini e no Sesi, até as 16h00min de hoje; e também amanhã, no Ginásio de Esporte.

 

RESPEITO À VONTADE DO ELEITOR

A governadora Fátima Bezerra (PT) anuncia que sancionará na próxima semana, em Mossoró-RN, a lei que extingue a lista tríplice para nomeação de reitor e vice-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). A partir da próxima eleição, o governador que estiver no cargo terá de respeitar a vontade da comunidade acadêmica.

 

CRIANÇAS EM REDES SOCIAIS

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta: “Exposição excessiva de crianças em redes sociais pode causar danos” a longo prazo, sem mencionar o risco de utilização das imagens por “predadores em crimes de violência e abusos nas redes internacionais de pedofilia ou pornografia”, segundo a pesquisadora Evelyn Eisenstein.

 

SEM BLOQUEIO

As prefeituras receberão cerca de 26% a mais no próximo repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Outra notícia boa é que não há nenhum município do Rio Grande do Norte com bloqueio. Antigamente, em momentos assim, agiotas faziam a festa em cidades oestanas.

 

PARA O BOM ENTENDEDOR

As palavras são

a expressão máxima

do silêncio.

 

POR FIM

Para ilustrar o sábado, Carla Bruni canta “Quelqu'un m'a di”.




 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

“Jubiaba, não, seu analfabeto! É Jubiabá!”

 

Que outros se gabem das

páginas que escreveram;

orgulho-me das que li.

Borges

 

Palavras são o meu ganha-pão desde os 14 anos, quando passei a trabalhar no jornal O Mossoroense. Aquele emprego foi o último recurso paterno para tentar salvar o filho rebelde das trevas da ignorância. Rebelde sem causa, diga-se de passagem. O importante é que a partir dali a leitura e a escrita passaram a ser ofício e lazer, desespero e salvação, loucura e terapia.

Não, eu não gostava de ler. Sendo mais exato: odiava! E esse sentimento, como desabafei certa vez em uma crônica dominical, decorria do tratamento elitista e esnobe que se dá ao leitor iniciante nas instituições de ensino, a começar pela imposição de textos inadequados à idade das pessoas, bruta sacanagem que leva o indivíduo a pensar que não nasceu para a coisa.

Lá pelos 10 anos, por exemplo, a escola me obrigou a ler, em letras mínimas, as 635 páginas de Moby Dick, do escritor estadunidense Herman Melville. Para se ter ideia, a edição original publicada em 1851 tinha o título de A Baleia e era dividida em três volumes. Perco o fôlego só de lembrar a narrativa de Ismael sobre a peleja do louco Capitão Ahab com a magistral cachalote.

Depois, Ana Terra, Um Certo Capitão Rodrigo e Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo. Quase furo a página com os olhos de tanto revisitar o sexo entre Ana e Pedro – foi dos primeiros alumbramentos da infância, parodiando Bandeira. Tais obras, embora geniais, não servem para crianças nem adultos iniciantes na delicada arte de desvelar sentidos latentes além da escrita.

Certa feita, na aula de português, foi-nos exigida a leitura de Jorge Amado. No final, tentando agradar a professora com meu falso interesse, perguntei onde adquirir “Jubiaba”. Ela, mãos na cabeça, testa franzida, olhar fulminante sobre a armação grossa dos óculos, retrucou: “Jubiaba, não, seu analfabeto! É Jubiabá!”. E assim embarquei na aventura de Antônio Balduíno.

O bloqueio em relação aos livros começou a ser superado por volta dos 15 anos. Lembro que era janeiro, porque estava com a família em Tibau, quando pedi a Vingt-un Rosado, fundador da Coleção Mossoroense, que me emprestasse uma obra de história de Mossoró. Queria saber mais sobre a libertação dos escravos, o Motim das Mulheres, a batalha com os cabras de Lampião.

No outro dia, ele me deu 50 títulos relacionadas à cidade e ao Nordeste. O velho mestre, amigo querido de saudosa memória, apresentou-me ao melhor da literatura potiguar. Diante dos olhos maravilhados do menino burro desfilavam textos de Nonato, Raibrito, Cascudo, Guerra, Fausto, Milton Pedrosa, Maria Sílvia, Zila, Brasília Ferreira, Lauro da Escóssia, Jaime Hipólito.

Minha mãe, testemunha de tudo, aproveitou para dar o empurrão que faltava. Era necessário ler tudo aquilo com bastante atenção – dizia-me em tom grave –, pois o doador costumava inquirir as pessoas sobre os exemplares doados. Vingt-un nunca perguntou patavinas, mas continuou fornecendo livros e eu continuei a lê-los, linha a linha, até me encontrar no universo da linguagem.

Adiante, transitando do clássico ao popular, matando a sede em fontes de prosa e verso, fica difícil dizer das leituras que me tangem o pensamento, que se digladiam no discurso ilusoriamente meu, que empunham a caneta quando escrevo, que me constituem sujeito. Assim, sou o que sou, e o que sou é o conjunto disforme de leituras dos mundos, das pessoas e dos signos.



sexta-feira, 19 de março de 2021

BOLSONARO GENOCIDA

Tipo penal é o artigo da lei definidor de um delito e, por consequência, de uma conduta proibida. Todo ele protege determinado bem jurídico, que pode ser definido como valor ou interesse do indivíduo ou da sociedade. O art. 121 do Código Penal (homicídio), por exemplo, resguarda a “vida”, enquanto o art. 216 (estupro) tutela a “liberdade sexual”.

Usada pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) para prender o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) e pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) para pedir que o youtuber Felipe Neto fosse investigado, a famosa Lei nº 7.170/1983, símbolo da ditadura de 1964, tutela segurança nacional, ordem política e ordem social.

Felipe Neto, como se sabe, rotulou Jair Bolsonaro (sem partido), pai de Carlos, de “genocida” pelo comportamento do presidente da República ante à pandemia de Covid-19. Tal afirmação, entretanto, não representa qualquer lesão ou ameaça de dano ao território nacional, à soberania, à federação, à democracia e nem ao chefe do Poder Executivo.

Além disso, o art. 26 da Lei de Segurança Nacional, usado contra o youtuber fora do contexto de seus objetivos, é inaplicável porque a conduta atribuída a ele não se adequa ao tipo penal. Fala-se ali em “caluniar ou difamar” o chefe do Executivo, do Senado, da Câmara e do STF, mas o caso, no máximo, poderia ser enquadrado como injúria.

Calúnia (art. 138 do CP) é a atribuição de prática de fato definido como crime, sabendo ser a acusação mentirosa. Difamação (art. 139 do CP) consiste na imputação de ato que, mesmo não sendo crime, atinge a reputação da vítima. Injúria (art. 139 do CP) ocorre quando se ofende a dignidade ou o decoro com a atribuição de qualidade negativa.

Xingar alguém de “estuprador”, “ladrão”, “estelionatário” é diferente de afirmar que o dito cujo “estuprou”, “roubou” ou enganou para obter “vantagem ilícita”. Na primeira sequência, adjetiva-se depreciativamente o sujeito, injuriando-o. Na segunda hipótese, o ofendido é apontado como autor de ação criminosa e, portanto, caluniado.

Chamar Bolsonaro  de “genocida”, como se percebe, é muito diferente de dizer que Bolsonaro submeteu intencionalmente os brasileiros a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial, tanto por se omitir quanto por boicotar medidas de prevenção à pandemia de Covid-19 sugeridas pela comunidade científica.

Pelas características da polêmica, vale lembrar a “teoria da proteção débil do homem público” consagrada pela jurisprudência brasileira, inclusive a do STF, no sentido de que o ocupante de cargo público, especialmente o político, deve estar preparado para suportar críticas do povo e da mídia às suas opiniões e posturas, por severas que pareçam.

Em resumo, Felipe Neto não cometeu crime. A Justiça, a propósito, suspendeu o procedimento diante de outra aberração: a abertura por um delegado civil, a pedido de Carlos Bolsonaro, de investigação que só poderia ser feita pela PF, mediante requisição do MP, de autoridade militar responsável pela segurança interna ou do ministro da Justiça. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS

Lembra-se de Castelo? Aquele nomeado cônsul do Brasil em Havana depois de engabelar todo mundo fingindo falar javanês? Enquanto você pensa, corro para esclarecer que javanês nada tem a ver com a capital da República de Cuba. É o idioma falado na ilha de Java, na Indonésia; e na Federação da Malásia, no sudeste asiático. Se a informação for equivocada, cobre as explicações ao Houaiss.

Se nunca ouviu falar, sugiro ler O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto. É curto, leva, como diria Gilberto Gil, o “Tempo que levava Rosa/ Pra aprumar o balaio/ Quando sentia que o balaio ia escorregar”. Quem preferir, pode ouvir em algum audiolivro e até assistir no Youtube. Há uma montagem excelente da TV Escola, com Carlos Alberto Riccelli, Sérgio Mamberti, Sérgio Viotti e Zózimo Bulbul.

Leia, ouça ou assista, tanto faz. Perceba como é fácil alguém que sabe zero sobre determinado assunto nos enganar com fanfarronices, arrotos de erudição, becas e anéis de doutor. Basta falar ou escrever umas palavrinhas inusuais – para ninguém entender – que o sujeito se torna um grandessíssimo... intelectual, louvado e bajulado. Tenho visto muitos assim nesta lida de contador de história.

Há cerca de 15 anos, durante evento com discursos sem fim, recebi do poeta e jornalista Caio César Muniz, que estava sentado ao lado, um poema dizendo: “Era uma reunião/ de intelectuais./ Grandes intelectuais!/ E eu só abri a boca duas vezes:/ uma para bocejar,/ outra para me despedir...”. Cada orador querendo demonstrar maior domínio do nada e já sonhando se tornar “bacteriologista eminente”.

Eles não me incomodam. São divertidos, especialmente quando comentam livros que não leram e até que não existem. Sim, é verdade, posso garantir: eu mesmo inventei o nome da obra e apontei um colega de trabalho como autor. Os presentes confirmaram a excelência dos textos do escritor fantasma, só para não passar por ignorantes, sem saber que o homem jamais rabiscou uma linha sequer.

Em regra, tais criaturas são inofensivas. Correm apenas o risco de “explodir de vaidade”, como diria o mestre Deífilo Gurgel, esse, sim, grande na prosa, no verso e na humildade. Droga! Rimei “vaidade” e “humildade”, e me desculpo pelo mau estilo, mas aproveito para esclarecer que nem sempre a rima combina e que, embora disfarçado de leão, segundo a fábula de Esopo, o jumento um dia vai relinchar.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A pesquisa fake e a ilusão do voto útil

 

“Há no país uma legenda,/ que ladrão se mata com tiro”. Esses versos são de Carlos Drummond Andrade e foram extraídos da primeira estrofe de Morte do Leiteiro, poema integrante do livro A Rosa do Povo, de 1945, um dos meus prediletos. Vou fazer aqui uma paródia – o poeta me perdoe, se puder –, mas parece haver no país outra legenda, que pesquisa se mata com pesquisa.

Algo parecido também com a Lei de Talião: pesquisa por pesquisa, manipulação por manipulação. De manhã, o candidato dos Montecchios divulga sondagem afirmando estar 15 pontos na frente, conforme o respeitável instituto... qual? À tarde, a campanha dos Capuleto solta os números do... do... do... Ah, deixa para lá, em que supera o adversário com os mesmíssimos 15 pontos.

Lá vou eu acanalhar mais uma poesia maravilhosa, com veemente e antecipado pedido de desculpas a Vinícius de Moraes, para dizer que essa estratégia de confundir, não de explicar, provoca em nós, eleitores, a estranha sensação de que faz escuro de manhã, entardece de dia, anoitece de tarde, restando uma noite de ardor nos braços da dúvida, quando até o este quer ser norte.

O acesso a pesquisas eleitorais verdadeiras deveria ser encarado como direito fundamental dos cidadãos e cidadãs. A tentativa de influenciar a vontade da população e de animar ou desanimar militâncias partidárias com estatísticas distorcidas, conforme os interesses do contratante, insulta e fragiliza a frágil democracia brasileira, que já tem inimigos de sobra para enfrentar.

O legislador e a Justiça Eleitoral precisam refletir sobre o tema. As normas atuais não bastam para impedir as pesquisas fakes. Resta, então, proibir a divulgação de toda e qualquer sondagem nos períodos de campanha ou estabelecer critérios mais amplos de transparência dos dados coletados, além de punições severas para aqueles institutos que errarem sem querer querendo.

Quanto às de 2020, sabe-se desde ontem que a maioria mentiu – e mentiu pra cacete! –, conforme os interesses dos contratantes. E, infelizmente, fica por isso mesmo. Como ninguém será punido, nem pela opinião pública com a sua memória curta, os mesmos “estatísticos” estarão aí, em 2022,  oferecendo meios para engabelar os desavisados que apostam na ilusão do voto útil.

domingo, 8 de novembro de 2020

De qual cor?

Periodicamente, a política impõe a ditadura das cores. Nos Estados Unidos, o azul de Joe Biden triunfou sobre o vermelho de Donald Trump, espalhando-se pelo mapa americano como se fosse um tabuleiro de War, afinal, na definição de Carlos Brickmann, “a política é uma das mais cruéis modalidades de guerra”.

A situação se complica no interior do Brasil, pois o ato de se vestir com roupas de determinado matiz pode parecer declaração de apoio a candidato “A” ou “B”, motivo de simpatias e hostilidades. Quanto menor o lugar, maior o pega pra capar entre seguidores das candidaturas que se polarizam lá no topo.

Quem mora em uma cidade e trabalha em outra precisa ter cautela para evitar ruídos de informação, em especial se o patrão mistura negócios e militância. Isso porque, diferentemente do sistema binário dos EUA, a mesma cor pode ser utilizada por segmentos partidários diferentes em municípios vizinhos.

Contam que no “País de Mossoró”, aqui no caloroso sertão do Rio Grande do Norte, quando apenas o verde e o encarnado se engalfinhavam pelo poder, um juiz de fora, de origem familiar e simpatia política desconhecidas, foi designado para a comarca e, consequentemente, para presidir as eleições.

Corriam nos anos 1960. Pela liturgia do cargo, o homem só se vestia de paletó escuro e era discreto, até por ser recém-chegado no município de pouco mais de 50 mil habitantes. Era, contudo, observado amiúde pelos partidários da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Certa feita, o magistrado entrou rapidamente em uma farmácia, no Centro. Mal saiu, um olheiro que o seguia bem de perto, quase pisando no rabo da toga, indagou ao balconista o que diabos ele havia comprado. “Escova de dentes”, respondeu o funcionário, dando brecha para a pergunta fatídica: “De qual cor”?

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Os olhos dos punhais

 Cid Augusto

A faca que me corta não tem aço
Aço que acende os olhos dos punhais
Os punhais me devoram de cansaço
O cansaço dos velhos samurais

Samurais quase mortos de tristeza
Tristeza que não passa de um enfado
Enfado de quem nunca tem certeza
A certeza de estar acostumado

Acostumado a ver tanta cegueira
Cegueira dos tinhosos mal-amados
Mal-amados queimando na fogueira

Fogueira que tem aço e tem formatos
Formatos dos punhais mais afiados
Afiados na língua dos ingratos

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

2020


O número 20 é o meu predileto. O da sorte, se acreditasse em forças cósmicas capazes de alterar o destino de um vivente. A conjunção 20-20, então, nem se fala, pois, entre os signos que povoam a minha cabeça, representa a memória afetiva de duas pessoas de nome Vingt, palavra francesa que justamente significa “20”.

Dessa maneira, quando escrevo 2020, desejo feliz 2020, faço planos para 2020, preocupo-me com 2020, o inconsciente projeta não uma imagem, não um ciclo, mas um sentimento. Ou seria o conjunto caótico deles? Não arrisco traduzir em palavra. Sei apenas que me tomam as memórias de 20, meu avô; e de 20, meu irmão.

De súbito, eu, descrente, ouço vozes de outro mundo. A voz do meu avô, ensinamentos que ainda hoje tento seguir à risca. A voz de meu irmão, lições de generosidade tão fortes, tão dele, que, francamente, nunca me senti à altura. Tudo ao mesmo tempo, como na letra de Antônio Maria, “uma voz, como um homem só”.

Não menos de repente, o abraço vigoroso, tradução corpórea da ternura. E do abrigo. Vêm aromas e sabores, aventuras na Mororó, brisa em Tibau, refúgio na Dionísio Filgueira, meninice no Rabo da Gata. Mulheres. Ah, meu avô! Ah, meu irmão! Gerações muito distantes, inalcançáveis, homens muito parecidos em mim.

Bora lá, 2020! Reage logo, criatura! Vê se mostra a cara antes do Carnaval! E, puta que pariu, faz favor de ser bom do começo ao fim. Nem precisa ser ótimo, basta honrar a simbologia, porque, acima dos búzios, do tarô, das bolas de cristal, do zodíaco, da numerologia e de todos os salamaleques, governam as predições do afeto.

sábado, 23 de novembro de 2019

DUAS VERSÕES DE UM SONETO

1) O BARDO E A DONZELA

Hosana nas alturas e eu na terra,
A lua inalcançável do soneto,
Poeta sem encanto ou amuleto,
A razão e o desejo em pé de guerra.

Hosana aqui na terra e eu nas alturas,
A rosa em carnes, ossos e perfumes,
Jardineiro colhendo vaga-lumes
Em meio a fantasias e loucuras.

Hosana toda luz e eu todo escuro,
O verso restaurando a claridade
Das folhas outonais do verbo impuro.

Hosana sobre mim e eu dentro dela,
Gemendo sobre o altar da castidade
No mesmo orgasmo, o bardo e a donzela.



2) O BARDO E A DONZELA

Hosana nas alturas, eu na terra.
Poeta sem encantos, amuletos,
Com razão e desejo em pé de guerra,
Não desperta luares em sonetos.

Hosana aqui na terra, eu nas alturas.
A rosa em carnes, ossos e perfumes
Não vê no firmamento as desventuras
De um louco que cultiva vaga-lumes.

Hosana toda luz, eu todo impuro.
O verbo restaurando a claridade
Das folhas outonais do verso escuro.

Hosana sobre mim, eu dentro dela,
Rasgando, enfim, o véu da castidade
No mesmo gozo, o bardo e a donzela.

DIA SANTO


  
Na face da manhã, tudo é de tarde:
Sete horas com jeitão de meio-dia.
Nem a réstia de sol que aos olhos arde,
Afugenta a preguiça e a apatia.

A tarde tem no rosto o breu da noite:
Doze horas com semblante bem de vinte.
Não acho que uma cama que me acoite,
Seja em qualquer lugar algum acinte.

Lua, enfim, e parece madrugada:
Hora do Ângelus! Céus! Ave-maria!
Cheia de graça é minha rede armada.

O domingo é sagrado? Que besteira!
Dia santo no rastro não traria
Este cão que se diz Segunda-Feira.

A MUSA NÃO BOTA PÃO NA MESA NEM UÍSQUE NA XÍCARA



Nada de novo. Nada muda. Ou seria tudo se repete? Cansado. Na verdade, exausto. Dia a dia, a luta velha se reapresenta de maquiagem nova, corte de cabelo da moda e roupas do momento, mas com os cheiros de anteontem. E o que sobra é lutá-la arreganhando os dentes com o sorriso do primeiro enfrentamento. A despeito do cansaço. Apesar da impaciência.

Assim, vou à luta, rogando todo santo dia, e todo dia de cão também, que essa peleja de culpados e inocentes afaste-se da minha pena e me deixe partir. Na verdade, voltar. A exemplo de Ulisses, prefiro a ilha primordial, prefiro a inquietação de Ítaca ao conforto da imortalidade e ao gozo da ninfa de Calipso. Certas ilhas, disse-me um gauche, “perdem o homem”.

Vem daí a dificuldade de juntar dois ou três punhados de palavras que não carreguem na alma aquele complexo de petição, para arremessá-las e vê-las escorregar de unhas cravadas na tela estática do computador, rasgando entrelinhas abissais inundadas de suor no dorso de uma crônica indecente capaz de seduzir às profundezas e desemoçar os sentidos.

Bandeira, Bandeira! Fartei-me do lirismo estrito do artigo 5º e da erudição asseada dos doutores. Excelência, para mim, sempre foi a prosa do Beco da Bosta. E viva Dorian, que nunca disse, mas ensinou, na prática, que a glória do cronista é a indecência do texto nu, com vergonhas à mostra, despido de todos os salamaleques em direito admitidos ou exigidos.

O que se escreve e não liberta, antes angustia. Nem orgulha nem toca. Um tempo, Cid Augusto, jornalista por amor, advogado por necessidade, tangedor de prosa e poeta quando bebe, só escreverá o que quiser. Se quiser. Quando quiser. Por hoje, entretanto, há de sufocar a rebelião entre as penas, porque a musa não bota pão na mesa nem uísque na xícara.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Captain! my Captain!



“Qual a diferença entre orquestra sinfônica e orquestra filarmônica?” Perguntei sabendo a resposta – falava-se que a sinfônica era mantida pelo Estado, enquanto a filarmônica subsistia de investimentos privados –, mas foi a desculpa que me veio à mente, “de chofre”, como diria o poeta Marcos Ferreira, para abordar Hédimo Jales, o Capitão Caverna, naquela tarde, no início dos anos 1990.

De tão vivo na memória, até parece ontem. Hédimo Jales e Caby da Costa Lima conversavam na calçada do jornal O Mossoroense. Tasquei a pergunta, sem ao menos cumprimento, e Caverna prontamente respondeu aquilo o que, na verdade, aprendi com ele próprio, dias antes, num “aulão” preparatório para o vestibular da Uern, à época Urrn – Universidade Regional do Rio Grande do Norte.

Precisava ser amigo dele. De Caby, já o era, e o camaradinha nos apresentou com a velha história de que me tirou o cabaço. “No microfone!”, explicou na sequência, para apaziguar os olhares de espanto. Isso, porque me fez balbuciar alguma coisa para os ouvintes da Tapuyo, em 1980, quando, aos nove anos, entrei no estúdio da rádio e dei de cara com aquele sujeito de tamancos e cabelo black power.

Pois bem, estava decidido a me aproximar do Capitão desde quando testemunhei o cara recitar poemas de Gregório de Matos Guerra, com uma paixão contagiante... “A vós correndo vou, braços sagrados,/ Nessa cruz sacrossanta descobertos/ Que, para receber-me, estais abertos,/ E, por não castigar-me, estais cravados”... Buscando a Cristo é o título dessa obra da fase religiosa do “Boca do Inferno”.

Tornamo-nos não apenas “muito bons amigos”, tomando aqui a expressão de Caby da Costa Lima, pois da amizade, das farras, das noitadas de prosa e verso tanto no alto quanto no baixo meretrício, surgiu a admiração recíproca. De repente, não sei se motivo de orgulho ou de desespero, minhas mal traçadas tornaram-se objeto de análise em turmas de literatura de afamadas escolas de Natal.

Certa madrugada, toca o telefone. Do outro lado, Hédimo no fogo dos primeiros meses da separação conjugal, contando estar no motel com a namorada linda e nua à sua frente. “Preciso de um soneto”, ordenou-me, “e o título é Deusa Materializada”. Ponderei: “Porra, Capitão, pela caridade, somos amigos, como vou imaginar sua namorada... ?”. E ele interrompeu: “Não tenho ciúme de você!” Deu nisto:

DEUSA MATERIALIZADA

Para a deusa ser carne um só momento,
É preciso que o homem seja fera,
Um louco a encontrar a primavera
Nas folhas que o outono lança ao vento.

E vê-la assim em pelo, não se espera,
Nua e crua entre a paz e o movimento,
É ver as faces mil do encantamento,
É gozar nos espasmos da pantera.

Venha a mim, deusa-mãe da tempestade,
Filha do vento, irmã da claridade,
Bendizer essa ardente insensatez.

Venha logo, tangendo a velha chama,
Receber oferendas sobre a cama,
Fazer-se carne ao menos uma vez.

O Captain! my Captain!, eis-me aqui outra vez, o eterno aluno saudando-o com o verso de Walt Whitman, pois hoje, 12 de fevereiro de 2018, é seu aniversário e, independentemente disso, você é digno de todas as homenagens, todos os dias. Desejo-lhe saúde, saúde... e saúde para que o privilégio de sua amizade e o brilho de sua inteligência nos guie por mais 59 anos. Pelo menos!

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

MOTE
UM PINCEL ENCHARCADO DE SAUDADE
LUBRIFICA AS CATRACAS DO AMOR

GLOSA
Nas paredes da minha mocidade,
Por sobre a superfície lisa e pura,
Usei, para ocultar toda ternura,
UM PINCEL ENCHARCADO DE SAUDADE.
Queria sufocar a tempestade
Da primeira paixão, com seu ardor,
Mas, quando a cal desbota, volta a cor,
O beijo mais antigo molha os lábios,
Faz de tolos até os homens sábios,
LUBRIFICA AS CATRACAS DO AMOR.

--------------------- Assú-RN, 1º.1.2018

Mote de Dida Bola
Encomenda de Savio Tavares
Glosa de Cid Augusto

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

VERSO VAGABUNDO


Que se dane o poeta inofensivo!
Que se lasque o poeta literal!
Prefiro a poesia visceral
Do louco depravado e corrosivo.

Frequentador das trevas do prazer,
Bebedor de defuntos insepultos,
Arrastando as correntes dos insultos
Em poemas de escárnio e maldizer.

O vate que se entrega ao velho rito
De espalhar as palavras no infinito
E encontrar em si mesmo o fim do mundo.

Eu quero a musa armada de facão
E o lirismo na boca do canhão
Defendendo o meu verso vagabundo.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

João: maior que Lautrec


Texto publicado na revista "Nós, do RN" 


Nasceu João, em Mossoró. Nome usual numa cidade aparentemente comum do sertão do Rio Grande do Norte. Poderia ter sido batizado com os sobrenomes do pai, Jeremias da Rocha Nogueira. Talvez algum de sua mãe, Izabel Benigna da Cunha Viana. Mas, como se diz para lá da Reta Tabajara, Mossoró é outro país, o “País de Mossoró”, e João, que nem teve batismo católico, internacionalizou-se. Virou Escóssia.

João da Escóssia Nogueira, com dois “esses” no costume da era pseudoetimológica da língua portuguesa, veio ao mundo aos 27 de maio de 1873, durante profunda crise, digamos, político-clérigo-maçônica. Nada específico de sua terra quente e seca, coisa mesmo de âmbito nacional, que ali, onde chove bala e Lampião leva cacete há 90 anos, toda rusga tem contorno ideológico e alcança proporções de batalha.

No centro da polêmica, em posições antagônicas, o vigário Antônio Joaquim Rodrigues, líder conservador, deitando falação no púlpito da Catedral de Santa Luzia; e Jeremias, um dos chefes liberais, retorquindo no O Mossoroense, jornal que fundou com José Damião de Sousa Melo e Ricardo Vieira do Couto, aos 17 de outubro de 1872, sob a denominação: “Semanário, político, comercial, noticioso e antijesuítico”.

Para completar, o jornalista descrito pelo historiador Raimundo Nonato da Silva como o “Marat das ruas de Mossoró”, por seu estilo “incendiário”, que anunciava a morte do poder dos papas e o fim da “bárbara Roma”, era maçom integrante do grupo incumbido de erguer, naquele chão, as colunas da Loja Maçônica 24 de Junho, inaugurada justa e perfeitamente nessa data, no ano de nascimento do menino.

Batizar o infante na Igreja? Só se o genitor e o padrinho, Targino Nogueira, renunciassem à Maçonaria, primeira instância do inferno depois do Partido Liberal, na ótica do vigário jesuíta. Jeremias reagiu e, aberto o templo dos pedreiros livres, batizou-a no simbolismo em homenagem a São João da Escóssia, então considerado patrono do rito “Escocês Antigo e Aceito”. Por isso, João da Escóssia Nogueira.

Hoje, o menino pagão nomeia Loja Maçônica e avenida importante, que liga o Rabo da Gata aos condomínios de luxo dos extremos da Nova Betânia. Quem passa, além da associação à política partidária, pela militância de vários Escóssias, desde os anos 1960, talvez nem imagine tratar-se da homenagem a um gênio: artista plástico, autor teatral, cenarista, repórter, publicitário, xilógrafo, desenhista, tipógrafo.

Fundou o jornal O Echo (lê-se O Eco), em 1901. Reabriu, em 1902, o periódico fundado pelo pai dele, trazendo páginas ilustradas com xilogravuras, cujas matrizes João talhava em madeira, utilizando um canivete. Eram paisagens, caricaturas, crítica social, sátira política, ilustrações comerciais e cenas urbanas, como um assassinato na vila de Grossos, em 1903, e a famosa explosão do Pax no céu de Paris, meses antes.

Introduziu a imagem na imprensa potiguar e foi também um dos pioneiros na publicidade, conclusão esta a que chego a partir das aulas de Cassiano Arruda Câmara, de quem guardo o privilégio de haver sido aluno no curso de jornalismo da UFRN. Segundo narrava, Toulouse-Lautrec revolucionou a ilustração de cartazes para os cabarés franceses, no final do Século XIX, época em que João estava em plena atividade.

O Atelier Escóssia, de sua propriedade, misto de tipografia e loja de variedades, além das ilustrações para O Mossoroense, e o próprio jornal, produzia cartazes destinados a empresas e eventos, rótulos de produtos e remédios, entre os quais Antinevrálgico Rosado (para dor), Viperina (antiofídico) e Peitoral de Joatonca (contra tosse). Seu portfólio oferecia outros itens, como cartões e até um laboratório fotográfico.

Perdoem-me o bairrismo – o mossoroísmo! –, mas João é maior que Lautrec, mesmo sem art nouveau. Isso, comparando oportunidades de quem nasceu no semiárido nordestino, à “margem setentrional de um rio seco”, na descrição de Henry Koester traduzida por Cascudo; e na capital cultural do mundo, na Belle Époque, expressão que me remete a Tarcísio Gurgel, professor com quem tanto aprendi. E aprendo.

Anchieta Fernandes, em Desenhistas Potiguares, afirma que João da Escóssia Nogueira apresentou o gênero caricatura ao Estado, com “virtuosismo próprio” que mesclava o clássico ao seu espaço social. De tanto esmero, os desenhos, de certo modo influenciados por revistas da época – O Malho, Careta, Fon-Fon, Ilustração Brasileira –, surgiam “plenas de movimento e plasticidade”.

Para Jeová Franklin, jornalista do O Povo, de Fortaleza-CE, característica maior de João da Escóssia “era a precisão, aliada à leveza do traço, dificilmente encontradas em imagens de madeira”. Chegava, segundo diz, “a dar movimento às figuras e a destacar planos com a técnica do sombreamento, como se em lugar do canivete, estivesse trabalhando com bico-de-pena sobre o papel”.

Na análise do escritor Jayme Hipólito Dantas, esboçava “o senso da observação dos detalhes mais diminutos. Parecia ser ágil, sutil e penetrante”. Era “Uma vocação, sem dúvida, de puro retratista, que a província, na pequenez das suas proporções, no incolor da sua vida no princípio do século, não pôde devidamente valorizar”, desabafa o autor de Aprendiz de Camelô e Estórias Gerais.

Registro, por dever de honestidade e de ofício, a desconfiança do grande pesquisador Alcides Sales, que publicou artigo sobre a história da xilogravura norte-rio-grandense, na segunda edição da revista Galante, atribuindo ao jornal A República, a primazia no uso de imagens, em 1889. Assevera, entretanto, que, devido à falta de informações, não poderia negar esse feito ao mossoroense.

João da Escóssia morreu aos 14 de dezembro de 1919. Parada cardíaca, sugere o noticiário da época. Produziu pouco no fim de sua breve existência, em razão da doença reumática que lhe tirou os movimentos das pernas e, não raro, causava-lhe inchaços e dores. Na mão direita, em especial, pelo esforço repetitivo no entralhe de centenas de xilogravuras. A maioria perdida, infelizmente.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

PEQUENO AMIGO, GRANDE POETA

Devo! Não nego. Um pouco de dinheiro aos bancos, porque nunca tive intimidade com cifras nem me preocupei com patrimônio, que não fosse imaterial; e um tanto de atenção a certos amigos, porque descuidei deles, sem querer, por excesso de trabalho, carência de tempo, dúzias de problemas.

A primeira espécie de obrigação vai e vem à espera da tão sonhada Mega-Sena – sem jogar é difícil, já me disseram. A segunda, começo a saldar pela mais antiga, a falta com o poeta Joselito dos Santos, cujo livro aguardava comentário, na caixa de entrada do e-mail, desde o distante setembro de 2015.

De vergonha, parei de responder às mensagens dele, inclusive a última onde se lê o apelo: “Ajude seu pequeno amigo”. E olha que todo santo dia flertava com o arquivo, sem ânimo de abri-lo, receoso de rascunhar qualquer coisa, para cumprir tabela. Joselito merecia coisa melhor que uma qualquer.

Não sei se ainda serve ou se ao menos interessa saber. De toda forma, poeta, acabo de ler cada uma das 46 laudas de sua obra, dos 80 poemas e das oito crônicas, a começar pelo abraço de Marina, onde “me encontro/ me perco/ e me acho”, até o duplo sacrifício, seu e das sementes de sucupira.

Gostei, bicho, o livro é de primeira. É todo você, em letra e alma, com a humanidade escancarada, coração aberto, o gigante de caráter, força e sentimentos que percebi já ao ler seu primeiro livro, ainda eu morando em Natal e o amigo na Terra de Todos os Santos, antes de encontrá-lo olho no olho.

“Não conheço o autor pessoalmente, só por meio da Internet e de telefonemas”, disse aos 15 de agosto de 1999, “mas o seu trabalho é confessional de tal modo que chego a ter a impressão de convivermos há anos”. Escreveria a mesma coisa agora, se já não o conhecesse na presença física e dos versos.

É o retrato falado – seria escrito? – do artista de Alagoinhas, que “Não cabe num livro para se ler”, capaz de moldar “lembranças, perfumes e dilemas” e dar nó em pingo de orvalho com os ventos da madrugada, afinal a “Paixão é um troço que aparece” a fim de que se faça poesia entre sonhos e realidade.

Tomara que a demora em dizer algo sobre o seu verbo seja interpretada à luz de “A coisa humana”, dos universos “animalecidos” que se distanciam, por vezes, “destruindo pontes/ cortando laços”, até que um dia a palavra “faz-se do repente um instante inteiro” e se nos concede o privilégio do reencontro.

Se bem, meu caro, que a fala deste jornalista sertanejo lhe é dispensável. Sempre foi. Seu autorretrato, na crônica “Eu por mim mesmo”, basta enquanto apresentação do autor e do conjunto da produção, traduzidos na voz que se levanta do beco e vence o preconceito e a dificuldade, falando de amor.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

QUÍMICA


Cid Augusto

Tudo começa
na palavra
e a palavra
faz-se
alma
e a alma
transforma-se
em carne
com as curvas
e os olhos
verdes
de um soneto
que adora
deflorar a métrica
transar a rima
e cair na gandaia
dos meus versos
livres.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

E eu
que não creio
em deus
me pego em oração
entre
as coxas

de uma santa

JARDINEIRO


Cid Augusto - 20.10.2016 - Dia do Poeta

Tudo o quanto sacode à flor da vista
São marcas do jardim revisitado
Pelos olhos furtivos de um artista
Que se vê nas ruínas do passado.

Dos escombros, silêncios vão e gritam
Sem dó nem piedade da garganta,
Que embora se arrebente não se espanta
Com versos estridentes que a fustigam.

As palavras sussurram loucamente:
Elas riem e choram num instante,
Depois choram e riem de repente.

São vozes da loucura, a fantasia
Do jardineiro velho, delirante,
Que planta pedra e colhe poesia.
MOTE
MAS A LUA SE ESCONDEU
PARA NÃO ME VER CHORAR

GLOSA
Quando em mim anoiteceu,
Nebuloso e sem estrela,
Implorei, queria vê-la,
MAS A LUA SE ESCONDEU.
Sumiu, desapareceu
Das canções do meu olhar.
E eu fiquei a imaginar,
Entre a certeza e o talvez,
Que ela fez tudo o que fez
PARA NÃO ME VER CHORAR.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

SONETO PARA SAMARA


Ninguém pense que a História teve um fim,
Que vamos percorrer, por em diante,
Estradas um do outro o mais distante,
Sobre escombros das flores de marfim.

Nada valem os meus ou seus tropeços.
O poço, o tempo bom e um rebento
Revelam que, na paz ou no lamento,
Para nós, Deus só traça recomeços.

Nos amamos de todas as maneiras,
Numa guerra de paz e sem trincheiras,
Além da carne, a alma é nosso andor.

Assim, não dói bradar nesta cantiga:
- Saibam todos que o meu antigo amor
É agora a mais nova e doce amiga.

domingo, 8 de maio de 2016

DESCOBERTA DO MUNDO


Segundo G.H., a paixão cega.
Assim, ela me lê sem dar por lida
À luz verde que salta ensandecida
No livro dos prazeres e da entrega.

Gosto de ver Clarice nesta trama,
Pois, se a felicidade é clandestina,
Via crucis do corpo ou velha sina,
Toda maçã no escuro cai na cama.

- Onde estiveste, Flor, ontem de noite
Quando a carne, no grito e no açoite,
Rebentou a cidade sitiada?

- Legião Estrangeira! Vem! Coragem!
Que na hora da estrela anunciada,
Perto do coração, tudo é selvagem.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

O NARRADOR




Ontem fiz um discurso. Se é que meia dúzia de palavras encangadas umas nas outras merece esse rótulo, no sentido mundano da palavra. Não o discurso da Escola Francesa, não o discurso do Ciclo de Bakhtin, que se forma de todas as matérias, inclusive do silêncio e do esquecimento. Refiro-me à oratória, à técnica dos que seduzem as palavras na ponta da língua, diferentemente de mim, que já acordei com 14 anos de idade, trepado numa máquina de escrever.

Não sei dizer nada que não se imprima em letra. Outrora, no papel tabulado para suportar 30 linhas de 70 toques. Hoje, a tela do computador no formato A4 e margens que o bicho determina é a superfície onde me jogo que nem Rogério Dias, Laércio Eugênio, Everaldo Botelho, Marieta Lima, Anabela, na expectativa de pintar a cena que me chega de boca em boca, com as tintas da história e as marcas secretas das identidades de cada indivíduo que me conta algo.

Gozo quando a imagem emprenha o verbo para se procriar em Times New Roman, como se dominasse o formão que fez de um tronco, o capoeirista, de Escravo; e, de um paralelepípedo, a cabeça tridimensional, de Marcelo Amarelo. Escrever é lírico em Marcos Ferreira, militância em Caio César Muniz, tradição em Antônio Francisco, metalinguagem em Aluísio Barros. É o que me cai ao bucho, porque escrevo por função desde quando me entendo por coisa.

Meus suspiros, contudo, estão contados: li há pouco em Walter Benjamim, que “a arte de narrar está em vias de extinção”. Poucos, instigados a fazê-lo, conseguem reproduzir as experiências vivenciadas ou conhecidas por fontes indiretas, a exemplo dos livros. Sendo, no raso e no fundo, o moleque que largou a escola sem aprender a estética da criação verbal, autodidata que nem a fórceps arrancaram das entranhas da burrice, sinto-me a prumo da desinvenção.

Tivesse herdado de meu avô! Aí, sim, meu avô era “o narrador”. Recriava-se no raciocínio veloz. Narrava! Todos parados, ouvindo. Era Leskov para Benjamim, à vontade no tempo, no espaço. Conheceu o mundo e o mundo nunca lhe foi maior que a aldeia que o viu nascer, crecer, finar-se. Por isso, desvendava universos nas ruelas provincianas, na memória coletiva qual Halbwachs, e sua palavra era a convergência das palavras latentes nos sem-rosto da multidão.

Mas só trago no sangue, que falo de mim ao dizer dos outros, tendo tanto de todos quanto a multidão que sou, na esperança de existir num corpo metalinguístico disforme onde o suor não apodreça a alma. E atenção: desconheço quantos leitores há do lado de lá, se há. Escrevo como me digo aqui, conversando com esse e aquele, cara a cara, na linha melódica dos meninos Sabiás do Rabo da Gata, somente para você, às margens da prosa enlatada dos eruditos.

Fonemas engarrafados, tudo bem. Até bebo. Depois da terceira dose de modernidade líquida, sem gelo, até Zygmunt Bauman tem argumentos sólidos para descrever o caráter estático da sobriedade acadêmica, túmulo do discurso, da memória, da identidade, do enunciado, da enunciação e do infeliz que atravessa a nado o oceano de orações subordinadas e morre na praia ao saber que narrativa de gente de mermo-mermo não molha a goela do doutor.