sábado, 28 de novembro de 2015

Tidó



Conhecia Tidó desde sempre. Foi ídolo de gerações. Meu pai, criança, ouvia suas aventuras. Eu, menino, viajava nas histórias sobre o Mar das Maias, as botijas, as façanhas do lendário Jeremias, o batatão, a nuvem chupando água, os mal-assombros, as pescarias épicas.

Ele e Ananias, outro lobo do mar, presenças constantes no alpendre de meu avô, ali na franja da Pedra da Sereia, perto de Zé Chorão, onde a princesa encantada era prisioneira do monstro devorador dos homens que tentavam resgatá-la do feitiço sabe-se lá de quem.

Zé Chorão tinha um restaurante no sopé do Morro das Sete Cores, ao lado de uma vertente cristalina. Lembro-me dele vagamente, embora saiba que são seus filhos Cid, Célia, Cesar, Rosalina, Vilma, Dalila e Sansão, cujos nomes Rafael da Agrotec não me deixa esquecer.

Ananias partiu faz tempo. Antes do que Pirá, o mecânico que via elefantes verdes nas imediações dos pingas. Tidó viveu 92 anos, segundo soube, tanto ou mais que Ananias, que era muito idoso, embora não saiba dizer o quanto. Pirá se foi jovem, por culpa do alcoolismo.

Meus três filhos, fiz questão de apresenta-los a Tidó. Certo dia, chamaram-me à direção da escola de Cid Filho, o do meio. Os colegas – queixavam-se pais sem imaginação – tiveram pesadelos depois de ouvirem o causo do homem que encontrou o tinhoso embaixo d’água.

A história é engraçada e foi contada por Tidó a meu tio Laete. Disse-lhe que pescava a 70 quilômetros da costa com dois companheiros numa jangada. Na hora do retorno, a fateixa (espécie de âncora) estava enganchada no fundo e ele mergulhou para resolver o problema.

Quando nosso herói aproximou-se, a surpresa: quem o esperava – de rabo, chifre, barba e bigode – era o capiroto em pessoa. Ao vê-lo, o tinhoso, o coisa ruim, começou a soltar fogo pelos olhos, enquanto girava a cabeça no próprio tronco e o desafiava de tridente em riste.

Os companheiros da lida das marés não chegaram a ver o beiçudo, porque lhes faltou a coragem do amigo para conferir o fato, mas garantem que em consequência do susto, os olhos de Tidó encostaram-se um no outro e, a partir daquele momento, o cabra ficou zarolho.

Tidó é inesquecível igual a Ananias, Pirá, Zé Chorão, que nem Josefina, a inventora das garrafas de areias coloridas, personagens da Tibau de morros exuberantes, do grude e do gelé. O velho pescador foi navegar no mar da saudade. E lá vai ele na barra do horizonte.


sábado, 17 de outubro de 2015

EU QUERO TE COMER



“Eu quero te comer”, disse a japonesinha em português. “Eu quero te comer também”, respondeu o interlocutor, enquanto apertavam-se as mãos e se curvavam em respeitosa reverência. Era a primeira vez que se viam, apresentados por um amigo comum de São Paulo, no ponto onde esperavam o ônibus que os levaria de Brighton às Seven Sisters, famosas montanhas de giz de East Sussex, no Sul da Inglaterra.

Nem estava tão gelado. Nem estava chovendo. Dia raro para um janeiro britânico. Se o Sol não fosse decorativo, se não pudesse ser encarado a olho nu, daria para tirar jaqueta, luvas, gorro e sair batendo perna por aí, sem as ceroulas por debaixo da calça jeans. As meias grossas. Tênis em vez de botas. Sem rumo. Se bem que o cenário tornava todo sacrifício confortável. A companhia de olhos apertados, idem.

O rapaz olhava a moça cima a baixo como quem chupa juízo. A moça olhava o rapaz baixo a cima como quem lambe pensamentos cabeludos. Sorriam, embora não se encontrassem nas retinas. Talvez por vergonha, apesar da suposta objetividade das palavras introdutórias. Aqui e acolá arrastavam-se em sotaques sobre o inglês de lugar nenhum. Dava pro gasto, para se entenderem, e isso bastava.   

Na primeira fila do primeiro andar do ônibus, a vista era só deslumbre. O mar quando dava o ar da graça arregalava olhos azuis atiçando a maresia. Imensos! Contraponto aos olhos verdes da terra derramada em campos largos que nem os da fazenda do avô sertanejo nos raros milagres do inverno. A civilização agarrava-se a pequenas cidades góticas, que pareciam gritar algo nonsense, algo Lewis Carroll.

O veículo parou no parque. O rapaz rústico, lorde pelas circunstâncias, porque o frio deixa qualquer pessoa elegante, ofereceu o ombro como apoio na descida da escadaria. A moça tímida, aquiesceu com o recato oriental em gestos miúdos. Caminharam. Pastos. Lagos. Sobe. Desce. Sete irmãs surgem alvas instigando com inquietante verticalidade o infinito horizontal do oceano. Quanto há tântrico, santo Deus!

Escancharam-se na cacunda de uma delas, que nem se deu conta, e contemplaram a atração do abismo até que o cansaço e a vertigem venceram e os fizeram recuar, ofegantes, ao abrigo da árvore magricela de cabelos penteados na ventania. Então, pelo clima imaginário, pelo cenário, ninguém sequer ao longe, escapuliu a pergunta fatídica: “E aquela coisa de ‘eu quero te comer’, sabes o que significa?”.

Tivesse a boca engolido a dúvida, tivesse ouvidos de mercador, tivesse estrangulado a ternura entre as pernas, talvez não acusasse o golpe. “Sim, claro que sei” – vem a resposta de sílabas realçadas no acento preciso da lâmina samurai – “indaguei ‘como vai você’, no seu idioma... Não foi?”. Aí, man, voltaram para casa, a menina ainda ingênua e o menino que não teve a coragem de lhe roubar a inocência.
 

sábado, 10 de outubro de 2015

CONTO MEIO CRÔNICA QUASE ERÓTICO



Três amigos concluíram que chegara a hora de botar ponto final na donzelice. Era segunda-feira, baixa estação no meretrício, único recurso disponível para causas da espécie numa época de moças tecnicamente recatadas, muito antes da invenção diabólica da internet, quando ninguém imaginava a democratização da libido nas redes sociais.

O tio de um deles dera o toque quanto ao lugar perfeito, o famoso Cabaré de Dorinha, no coração do bairro Santo Antônio. Indicara também a santa, Camilinha, sua amiga, linda e caridosa morena de olhar de esfinge, que se oferecera em expiação, por módicos cruzeiros, para devorar a tempestade de hormônios dos vibrantes corações juvenis.

Com 13 anos, embora a natureza contrarie a Lei, pessoas sentem desejo. Aos moleques antigos, perder o cabaço dava status. Um deles precisava inclusive lavar a honra no esperma, pois brochara com Mocinha nas ruínas da antiga Casa da MPB, no Rabo da Gata, onde a ninfeta reuniu a galera a fim de provar a uma amiga que dava conta de 10 caras.

Saiu-se mal na aposta porque um, como se sabe, não deu no couro, irritando-a a ponto desmoralizá-lo com a disseminação do fracasso. Outro jeito não restava ao rapaz, salvo aplacar a história com sexo. E Camila parecia a chance ideal, de maneira que nem pestanejou ao subir a bicicleta e pedalar com os comparsas na direção da casa de recurso.

No destino, como se não bastassem o medo e o cansaço, a cena dos meninos estacionando as magrelas na calçada chamou logo a atenção dos presentes, que gritavam em meio à risadagem geral: “Vão perder o cabaço!... Vão perder o cabaço!... Até que Nequinha, o gerente, interferiu com seu famoso “Tem nada a ver!” e os levou à suíte da moçoila.

O cômodo era minúsculo para a denominação pomposa. Dera-se por suíte, contudo, pelo fato de haver nele compartimento de asseio equipado com quartinha, bacia, sabonete Phebo e toalhas. Os lençóis da cama cheiravam a sabão de coco e o ambiente tinha um hálito de colcha de retalhos de perfume açucarado, aguardente, fumo e genitálias.

“Quanto custa”, perguntaram. “São os três, não é?”, retrucou a dona. “Sim, so...somos três”, retomaram a palavra com olhos nos peitos da dita cuja, que os desafiavam pelas frestas do vestido. “Hun... Quanto vocês têm?”. Meteram mãos nos bolsos e expuseram argumentos. “É pouco, mas a noite tá fraca e me dou por caridade. Quem é o primeiro?”.

Os espíritos gelaram. “Zerinho ou um, quem ganhar fica por último”, propôs o da decepção com Mocinha. Os demais, igualmente tensos, concordaram. “Zeriiiiiin ou um... Perdeu, vá você”. E foi assim: os colegas e a mulher que se refugiara no recinto “fugindo de um macho” assistiam Camila ler quadrinhos enquanto o garoto metia – e tirava – brasa.

Pausa do cigarro. Reinício da função. O menino 2 entra em cena e, lá para as tantas, suspende o ato e passa ao interrogatório sobre aspectos pessoais e psicológicos da figura entre suas pernas. Clima tenso e brochante domina a todos, até que o menino 3, vendo a hora perder a chance de defender sua masculinidade, sai no berro: “É minha vez!”.

Dessa feita, terminou de cabeça erguida, todavia por mera questão de honra, pois não atingiu o pretendido orgasmo para compará-lo ao das satisfações manufaturadas. Puta com as perguntas indiscretas, Camila já não foleava Gasparzinho, o fantasminha camarada, e exibia a pressa de anteontem: “Goza logo, amore, tem cliente esperando lá fora”. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

LEITURA



A leitura é um ato de subversão da alma. Quem lê transcende o senso comum, avalia melhor a realidade e desenvolve a perigosa capacidade de questionar. Não à toa, as ditaduras decidem o que os cidadãos podem ler, como se lhes colocassem daquelas viseiras de burro de carroça.

Na Idade Média, a literatura proibida era trancafiada em mosteiros idênticos ao edificado por Umberto Eco, em O Nome da Rosa, onde o monge cego Jorge de Burgos envenenou páginas de um livro, causando sete mortes, incluindo a própria, no balanço das trombetas do Apocalipse.

O Brasil ainda vive a Idade das Trevas. Em 2012, a pesquisa Retratos da Leitura revelou queda de 9,1% na quantidade de leitores, no período de quatro anos. Estranho contraponto à proliferação de cursos universitários e à propaganda sobre a diminuição do analfabetismo.

Mossoró – nossa pátria amada, idolatrada, salve! salve! – não raro dá vexame nos eventos literários, embora seja capital intergalática da cultura, chocadeira de intelectuais, criadouro de poetas, sementeira de academias, berço de bravas editoras com milhares de obras publicadas.

Faz lembrar Vingt-un, quando, entristecido com o malogro dos lançamentos realizados na cidade, fez os cálculos e perguntou no título de uma plaquete: “Em que estrela andam os 9.855 universitários da cidade de Mossoró e os seus 469 professores nas noites de autógrafos?”

De modo geral, o desinteresse decorre do tratamento elitista e esnobe que se dá à leitura nas instituições de ensino, a começar pela imposição de textos impróprios à capacidade cognitiva dos alunos, uma bruta sacanagem que leva o indigitado a pensar que não nasceu para aquilo.

Quem foi exposto a Herman Melville aos 10 anos de idade e obrigado a ler, em letras mínimas, as 635 páginas de Moby Dick, sabe do que escrevo. O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, é ar-re-ta-do, mas não para crianças dessa faixa etária, exceto talvez as superdotadas.

Adultos que não têm o hábito da leitura também não devem começar – ou recomeçar – por livros complexos nem se aventurar por assuntos que não lhes interessem. De outro modo, o que deveria ser prazeroso, um instrumento de libertação da mente, vai se converter em tortura.

Joyce, Dostoyevsky, Kafka, Flaubert, Virgínia Woolf, todos autores da melhor qualidade, para quem aprecia os seus respectivos estilos. Impor gostos particulares à coletividade e infligir letras iguais aos diferentes são formas de tirania num jogo repulsivo de dominação cultural.

Por isso, tire o seu Tolstói do caminho que eu quero passar com a crônica de Dorian, o conto de Jaime Hipólito, as 20 linhas de Antônio Rosado, o jornalismo de Emery Costa, o cangaço de Kydelmir, a poesia ferina de Rogério Dias, a historiografia de Raimundo Nonato e de Raibrito.

Quero mais a liberdade dos versos de Caio Muniz e Genildo Costa, a precisão das metáforas de Marcos Ferreira e Everaldo Botelho, a verve de Nildo da Pedra Branca, o cordel fantástico de Antônio Francisco, a lírica fescenina de Laélio Ferreira, as memórias de Chico Rodrigues.

O que digo e desejo, com a paixão de quem junta livros há anos, é poesia para quem é de poesia, prosa para quem é de prosa, pois literatura boa é literatura com a qual o cabra se identifica. Seja clássica ou popular, de Moscou, Paris ou Rabo da Gata, a leitura só presta se der tesão.