domingo, 2 de agosto de 2026

O DELEGADO E O SEQUESTRO DE SANTA LUZIA


1º ATO – A santa

Cheguei à casa de dona Lourdes, minha avó materna, e a encontrei apreensiva. “José Augusto comprou uma imagem de Santa Luzia para lhe dar de presente. Pelo amor de Deus, receba e não fale nada!”, disse ela, atropelando o bom-dia – ou seria o boa-tarde? Talvez o boa-noite. Faz mais de 20 anos, e só garanto que era novembro, mês do meu aniversário.

O receio dela vinha da remota possibilidade de eu recusar a oferta ou comentar sobre descrença, ateísmo, algo que soasse desagradável e pudesse ser interpretado como ofensa. Minha linda vozinha sabia que eu jamais faria nada assim, imagino, ainda por cima com um tio queridíssimo. Todavia, em se tratando de um neto com fama de doido, não custava prevenir.

2º ATO – A entronização

Recebi a imagem com incontida – e verdadeira – alegria. Embora não creia e, portanto, não seja devoto, tenho carinho por Santa Luzia, patrimônio imaterial de Mossoró. Sei até cantar o hino que Monsenhor Huberto Bruening entoava na catedral e que embala as procissões de 13 de dezembro: “Ó Santa Luzia,/ Pedi a Jesus/ Que sempre nos dê/ Dos olhos a luz”.

Fomos ao meu apartamento. Tio José Augusto, homem bom, de sorriso acolhedor, foi quem definiu o lugar da entronização da estatueta de 30 ou 40 cm de altura. De repente, um móvel antigo de vitrola – coberto por um verniz escuro – que forramos com uma tapeçaria de crochê tecida por dona Lourdinha, com linhas brancas e rosa, transformou-se em altar.



3º ATO – O delegado

A Virgem de Siracusa parecia bem naquele apartamento pequeno, de dois quartos, banheiro e cozinha integrada à sala, situado em um condomínio simples, tranquilo, sem intercorrências que inspirassem cautelas. A porta, a propósito, permanecia destrancada. A faxina, eu próprio fazia, muito embora, aqui e acolá, recorresse ao velho Zé Blebleu, o Delegado.

Como dizia o radialista Caby da Costa Lima – autor do apelido “Delegado” –, Zé Blebleu era o Chefe de Segurança da Rede Resistência de Comunicação. Caby gostava tanto dele que o infernizava toda noite com o mesmo trote. E, toda noite, Zé caía. Revelo só agora esse segredo, sem receio de semear a discórdia, porque, infelizmente, ambos nos deixaram.

A sequência, em regra, era a mesma: Caby telefonava de onde estivesse para a recepção da FM. Quando o Delegado atendia, ele, disfarçando a voz, pedia uma informação aleatória, tipo se iria chover, se o “Foimengo” havia sido rebaixado, se naquele restaurante serviam reteteu de frango. A ligação acabava, sem exceção, com a seguinte frase: “Zé, me dê o cu, Zé!”.

Ele jamais descobriu a origem dos telefonemas, mas a reação era furiosa, coisa do tipo: “Fi de rapariga! Vá dar o cu você, cabra safado...”. Os dois, para constar, eram ótimos amigos. Zé, o repórter fotográfico Luciano Lellys, o jornalista Emery Costa, o diagramador Paulo Cesar e o webdesigner Argolante Lopes sempre atuavam na logística dos livros de Caby.

Pense numa figura, o tal Delegado! Bruto com ternura, irreverente, amado. Doido por política, abandonou o posto certa feita e foi a um comício. Solto na gandaia, dançando enrolado com uma bandeira, acabou flagrado pelo diretor da firma, que perguntou: “Zé, e a rádio?”. A resposta veio de imediato, na lata: “Se ninguém carregou na cabeça, continua no canto”.

Outra vez, ao encerrar os trabalhos na redação do jornal O Mossoroense, que integrava a Rede ao lado da 93-FM, rumei para o Chap-Chap, bar do poeta Rogério Dias, sendo seguido pelo Delegado. “Zé, vai aonde?”, perguntei. “Vou junto, vou ser o seu segurança hoje à noite”, retrucou, ao que assenti: “Porra, Zé, você tá mais para insegurança. Bora beber!”

4º ATO – O sequestro

Uma semana depois da instalação da Santa Luzia, contratei Zé Blebleu para fazer uma faxina no apartamento, algo que ele executava para mim e para Caby. O pagamento, além do numerário, incluía o fornecimento de 12 latinhas de cerveja, que já ficavam na geladeira em ponto de consumo. Cerveja, vale dizer, só tomo quando não estou bebendo.

Terminada a tarefa, o Delegado me telefona. Ao atender, já fui brincando: “Acabou a cerveja? Tem uísque no armário”. “Acabou”, reagiu o interlocutor, “mas não é pra isso que tô ligando. É pra dizer que sequestrei Santa Luzia. Ela estava triste, solitária, e, sinceramente, camarada, não combina com você. Vai ficar melhor comigo, na minha casa. E tchau”.

Há em Mossoró a curiosa história do furto dos brincos da padroeira, em plena catedral. Nunca imaginei, contudo, um sequestro executado, ainda menos por um Delegado, que, no frigir dos ovos, tinha razão. Por isso, eu, meu tio e minha avó concordamos em nomeá-lo guardião de Santa Luzia, tarefa que desempenhou com amor e alegria até o fim da vida.


Nenhum comentário: