O sábado nada prometia, se é que
algum sábado já prometeu alguma coisa a alguém. Liso de passar verniz,
arrisquei e consegui um empréstimo de 40 contos, a juros módicos, com a minha
proprietária, Clarisse Tavares. A destinação do recurso, a aquisição de Alguns
Livros Potiguares 2, de Chumbo Pinheiro, que estava sendo lançado
justamente naquele dia, no Sebo Vermelho, do grande Abimael Silva.
A obra, como sugere o próprio título,
passeia por escritos norte-rio-grandenses. É, por suposto, a continuação de um
volume que ainda não li. Entre os autores comentados, muitos da minha admiração,
a exemplo de Manoel Onofre Júnior, Dorian Jorge Freire, Dorian Gray Caldas,
Clauder Arcanjo, Chico de Neco Carteiro, David de Medeiros Leite, Carlos Fialho
e Carito Cavalcanti, nosso Poeta Elétrico.
Na calçada do sebo, prestigiando
o lançamento, muita gente boa, incluindo outro homenageado de Chumbo Pinheiro:
Tarcísio Gurgel, irmão de Kiko e de Deífilo, autor de Os de Macatuba,
que, a propósito, está prestes a ser reeditado. Há anos não o via, embora
tenhamos nos falado recentemente por telefone, e aproveitei para conversar sobre
a minha pesquisa acerca dos “Poetas Malditos” de Assú.
Àquela altura, o sábado que nada
prometera, mas já se revelara por demais generoso – pelo evento, pelo encontro
com tanta gente maravilhosa, pelo bate-papo – foi melhorando ainda mais. Tarcísio,
com a sua conhecida generosidade intelectual, pediu a Abimael que localizasse e,
em dois minutos, estava em minhas mãos o “Geringonça do Nordeste” – A Fala Proibida
do Povo (1989), de Geraldo Queiroz.
O livro narra a história de um glossário de expressões populares elaborado pelo professor Clementino Câmara, a quem foram negadas verbas públicas para publicação, em 1937. A brochura, segundo os censores, continha ditos “impróprios” à moral do Estado e da Igreja, “devido ao realismo de certas expressões”, como: “aparar os peidos”, “fresco”, “lambecu”, “priquito”, “tabaco” e a terrificante “três vinténs”.
Além da importância da pesquisa,
o exemplar à minha frente – graças a Tarcísio e a Abimael – é dedicado ao professor
Waldson Pinheiro. Entre as páginas 111 e 112, não sei se escritas por ele, encontrei
um papel com duas frases em latim, uma de cada lado da folha: “Cor contrítum
et humiliátum, Déus, non despicíes” e “Beátus qui cógitat de egéno et
paupere: de díe málo salvábit éum dóminus”. E a tradução?
Bom, de acordo com o Google
Tradutor, as orações acima são transcrições de dois salmos na Vulgata latina: “Um
coração quebrantado e humilde, ó Deus, tu não desprezarás” (Salmo 50); e “Bem-aventurado
aquele que se compadece do necessitado e do pobre, porque o Senhor o livrará do
dia mau” (Salmo 40). Waldson lecionou do ensino básico ao superior, ensinando,
inclusive, português e latim.
Saí exultante do Sebo Vermelho,
acompanhado de Clarisse. Tentamos almoçar no Mercado de Petrópolis, o que não
foi possível porque o quiosque pretendido estava fechado. Contudo, lá estava Falves
Silva, ícone do Poema Processo, para completar o sábado com um exemplar
autografado do seu Falves Silva na Contramão. É, dos concretistas
adeptos dos signos não verbais, o meu antipoeta predileto.
Não bebi da cerveja de Abimael nem
da cachaça de Falves. Apesar dos convites tentadores desses dois amigos
queridos – e olhe que, na esteira de Oscar Wilde, eu resisto a tudo, menos às
tentações – o liseu falou mais alto. Estava economicamente desprevenido e não
queria abusar da boa vontade de Clarisse, que pagara o livro de Chumbo Pinheiro.
Mesmo assim, sem grana, aquele sábado foi maravilhoso.

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