domingo, 19 de abril de 2026

Microconto nº 13

 “Mais cedo ou mais tarde, toda história de amor tem fim. Se a vida não separa, a morte dá o seu jeitinho, como diz o vigário: ‘Até que a morte os separe!’”. Esse, o mantra de Godofredo Sofrêncio, próspero vendedor de cavaco-chinês do Boi Choco, resmungado diante da inevitável separação de Semprônia Cigana, a musa das musas do Mercado do Peixe. “O que não tem remédio” – talagada de pinga – “remediado está!” – talagada de pinga. Sofrêncio repetia a frase e o gesto, a frase e o gesto, a frase e o gesto, na esperança do alívio inalcançável. Sofria! Nada lhe remendava o coração. Nem morfina. Nem cachaça. Nem palavra. Tudo inflamava. Tudo queimava. Tudo desesperava. Tudo parecia dor infinita, mas que só o maltratou por exatos três meses, contados dia após dia. No quarto, cada qual já tinha o seu cada qual, desapercebido da iniludível repetição do ciclo.




Nenhum comentário: