segunda-feira, 27 de julho de 2026

AQUELE SÁBADO


O sábado nada prometia, se é que algum sábado já prometeu alguma coisa a alguém. Liso de passar verniz, arrisquei e consegui um empréstimo de 40 contos, a juros módicos, com a minha proprietária, Clarisse Tavares. A destinação do recurso, a aquisição de Alguns Livros Potiguares 2, de Chumbo Pinheiro, que estava sendo lançado justamente naquele dia, no Sebo Vermelho, do grande Abimael Silva.

A obra, como sugere o próprio título, passeia por escritos norte-rio-grandenses. É, por suposto, a continuação de um volume que ainda não li. Entre os autores comentados, muitos da minha admiração, a exemplo de Manoel Onofre Júnior, Dorian Jorge Freire, Dorian Gray Caldas, Clauder Arcanjo, Chico de Neco Carteiro, David de Medeiros Leite, Carlos Fialho e Carito Cavalcanti, nosso Poeta Elétrico.

Na calçada do sebo, prestigiando o lançamento, muita gente boa, incluindo outro homenageado de Chumbo Pinheiro: Tarcísio Gurgel, irmão de Kiko e de Deífilo, autor de Os de Macatuba, que, a propósito, está prestes a ser reeditado. Há anos não o via, embora tenhamos nos falado recentemente por telefone, e aproveitei para conversar sobre a minha pesquisa acerca dos “Poetas Malditos” de Assú.

Àquela altura, o sábado que nada prometera, mas já se revelara por demais generoso – pelo evento, pelo encontro com tanta gente maravilhosa, pelo bate-papo – foi melhorando ainda mais. Tarcísio, com a sua conhecida generosidade intelectual, pediu a Abimael que localizasse e, em dois minutos, estava em minhas mãos o “Geringonça do Nordeste” – A Fala Proibida do Povo (1989), de Geraldo Queiroz.



O livro narra a história de um glossário de expressões populares elaborado pelo professor Clementino Câmara, a quem foram negadas verbas públicas para publicação, em 1937. A brochura, segundo os censores, continha ditos “impróprios” à moral do Estado e da Igreja, “devido ao realismo de certas expressões”, como: “aparar os peidos”, “fresco”, “lambecu”, “priquito”, “tabaco” e a terrificante “três vinténs”.

Além da importância da pesquisa, o exemplar à minha frente – graças a Tarcísio e a Abimael – é dedicado ao professor Waldson Pinheiro. Entre as páginas 111 e 112, não sei se escritas por ele, encontrei um papel com duas frases em latim, uma de cada lado da folha: “Cor contrítum et humiliátum, Déus, non despicíes” e “Beátus qui cógitat de egéno et paupere: de díe málo salvábit éum dóminus”. E a tradução?

Bom, de acordo com o Google Tradutor, as orações acima são transcrições de dois salmos na Vulgata latina: “Um coração quebrantado e humilde, ó Deus, tu não desprezarás” (Salmo 50); e “Bem-aventurado aquele que se compadece do necessitado e do pobre, porque o Senhor o livrará do dia mau” (Salmo 40). Waldson lecionou do ensino básico ao superior, ensinando, inclusive, português e latim.

Saí exultante do Sebo Vermelho, acompanhado de Clarisse. Tentamos almoçar no Mercado de Petrópolis, o que não foi possível porque o quiosque pretendido estava fechado. Contudo, lá estava Falves Silva, ícone do Poema Processo, para completar o sábado com um exemplar autografado do seu Falves Silva na Contramão. É, dos concretistas adeptos dos signos não verbais, o meu antipoeta predileto.

Não bebi da cerveja de Abimael nem da cachaça de Falves. Apesar dos convites tentadores desses dois amigos queridos – e olhe que, na esteira de Oscar Wilde, eu resisto a tudo, menos às tentações – o liseu falou mais alto. Estava economicamente desprevenido e não queria abusar da boa vontade de Clarisse, que pagara o livro de Chumbo Pinheiro. Mesmo assim, sem grana, aquele sábado foi maravilhoso.