segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O babaca era eu

Pedalei durante anos, até ser vítima de um assalto na Duodécimo Rosado, à época já uma das ruas mais movimentadas de Mossoró. Depois, ao superar o trauma, caí na Amaro Duarte. Estabaquei-me no chão feito jaca madura. Recentemente, por ordem da minha junta médica – ortopedista, endocrinologista, cardiologista e psiquiatra – matriculei-me na musculação e ressuscitei a bicicleta.

Um dos poucos exercícios físicos com os quais me identifico é o pedal e, mesmo assim, nem tanto. Minha vocação de “mermo-mermo” é o sedentarismo. Sou sedentário convicto e militante desde a infância. Se dependesse de mim, passaria o dia lendo e escrevendo. Aliás, embora cumprindo a obrigação de paciente bem-comportado, ainda não estou convencido da real necessidade de tanto esforço corporal.

No primeiro dia do recomeço, a bike me conduziu por 10 quilômetros. No segundo, cravei 13 em 50 minutos – e aqui não vai qualquer mensagem subliminar como o disco da Xuxa tocado de trás para frente ou a suposta guinada comunista das Havaianas. Poderia ter feito percurso maior, mas preferi não forçar a barra. Lembrei-me de Trupizupe interpretado por Nonato Santos: “Devagar com a ligeireza, que a vagareza se cansa”.

Fiz as duas últimas rotas em vias de Capim Macio e de Ponta Negra, a primeira em um início de noite e a segunda hoje de madrugada. Natal tem ótimas ciclovias, embora várias delas não me tranquilizem nem um pouco, por congregarem, no mesmo espaço, as faixas de ônibus e de bicicletas. O ciclista se sente o próprio Capitão Ahab desafiando uma Moby Dick a cada cinco minutos, no oceano de carros.

Desculpa se a comparação parece antiecológica. Reconheço que as baleias são criaturas inocentes. Elas não criam problemas, a não ser quando provocadas, diferentemente dos ônibus enfurecidos e dos carros e motos inconsequentes, que invadem a “ciclo-bus-faixa” e ultrapassam quase se esfregando em nós, para evidenciar a relação de poder desigual entre o Senhor Volante e o Senhor Pedalante.


Imagem produzida pelo Gemini

“Ok”, “ok”, “ok”, tomo por empréstimo a expressão do grande Afonso Lemos para anunciar que devo testar áreas menos caóticas nos próximos dias. A Via Costeira – entre Ponta Negra e a Ponta do Morcego – parece segura quanto ao risco de atropelamento. Há também a Rota do Sol. Posso ir ao Pium e voltar sem maior sacrifício, suponho. Só temo o vento. Na hora em que esse camarada se lança com as quatro patas nos peitos de um indigitado, parece até que as catracas estão engatadas em marcha a ré.

Qualquer coisa, se eu não aguentar o tranco, peço a Clarisse Tavares que me resgate na estrada, circunstância previsível que me lembra certa viagem que tentei fazer, com um grupo de ciclistas turbinados, de Mossoró a Assú, em Noite de Lua Nova, na contramão da ventania. Antes da metade do caminho, arreguei e pedi ajuda ao repórter fotográfico Luciano Lellys, que logo saiu em meu socorro no Fiat Uno do jornal O Mossoroense.

Para não ficar esperando na BR-304 – passava das 21h e eu ainda estava assustado com o assalto –, continuei pedalando na expectativa de alcançar Zé da Volta. De repente, vi Luciano passar, lépido e fagueiro. Gritei, gesticulei... e nada. Chegando ao posto, a cerca de 40 quilômetros de distância de Mossoró e 30 de Assú, consegui um telefone emprestado e liguei para Lellys, que há tempos acompanhava o comboio do qual eu me separara por falta de preparo físico e de velocidade.

Meu amigo voltou, ajudou-me a arrumar, no bagageiro do carro, a bicicleta que depois vendi a Gilson Cardoso. Arriamos o banco traseiro do Uno e tiramos o pneu dianteiro da bike para caber. Na volta, já na zona urbana, perguntei se o socorrista, ao passar, não havia me visto no acostamento. E ele respondeu: “Não! Eu vi um babaca quase morrendo, pedalando sozinho, e fui embora”. Pois bem, o babaca era eu.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

UMA TEMPORADA NO INFERNO DO CÉU

O Diabo Veste Prada, diz o cartaz desbotado que ilustra as ruínas imaginárias do Cine Panorama. Duvido dessa exclusividade. Penso que o Demo tem tantos figurinos – não necessariamente de grife – quanto faces no espelho do ódio. Quando o conheci, cara a cara, tête-à-tête, ele usava blusa branca e terno preto. Seria Prada? Ou Praga? Em verdade, em verdade lhe digo, em dupla negação: não entendo porra nenhuma de moda, embora minha cafonice não importe ao desfecho da narrativa.

Então, voltando ao que interessa, afirmo sem pestanejar que Satanás é angelical a olho nu. Não à toa o chamam Lúcifer, “Portador da Luz”. Nas sombras, irmão, irmã, Belzebu é sempre ele sendo ele, fazendo o que ele faz de melhor, exatamente como dizem os profetas do Apocalipse. Por isso, mesmo assumindo absoluta descrença na existência teológica do Diabo, garanto que, em carne, osso, arrogância, falsidade e sonsice, Satanás existe e faz jus – às pampas – ao doce apelido de Coisa Ruim.

Tenho autoridade pragmática para dar testemunho porque convivi com o Troço, lá no Céu, por meses que me levaram aos consultórios de uma psiquiatra e de uma psicóloga. Como assim, no Céu? Ah, você não sabe? O Caramulhão tem uma embaixada no Céu, sobre as nuvens, com a entrada voltada para o Nascente. Trata-se de uma construção de arquitetura surreal minimalista, com muros de drywall e vidro, onde vivi graças a uma inocência que muitos julgarão incoerente com a minha idade.

De toda – falta de – sorte, confesso-me diante de você, leitor, leitora, confiando na discrição e no perdão de cada um: eu, Floriano da Rocha Nogueira, pessoa irrelevante constituída em três dimensões, quase fictícia e mundialmente anônima, fui serviçal do Encardido. E isso, para decepção de mim comigo mesmo, por uma ingenuidade discrepante das rugas que ostento, do meu decréscimo lúbrico, dos males que me travam a coluna vertebral e da necessidade de mijar de madrugada.

 

Imagem produzida pelo Gemini


Espere, ouço vozes! Um debate? O medo aconselha a encerrar o assunto sem dar detalhes que possam revelar uma das identidades do Senhor das Moscas. A imprudência, contudo, guia-me os dedos nervosamente na superfície do teclado. Já não os determino, nem os meus sentidos os guiam. Trinco os dentes, concentro-me, e os dedos não param, debatem-se com força e rapidez dando-me a impressão de ouvir o “tec-tec-trim-din” da falecida máquina de datilografia sepultada no sarcófago da memória.

Assumo daqui. O que se lê doravante é coisa minha, um exercício psicográfico de si em mim. O outro não queria, mas conto, porque, sendo eu o eu oculto, não temo praga de urubu magro. É o seguinte: Coisa Ruim nasceu nos cafundós onde o nazista filho de Ferrabrás perdeu as botas. Saiu de lá menino, no verde-oliva dos 20 e poucos anos, para atormentar xarias e canguleiros. A sua voz mansa e o seu jeito falsamente simples iludiam os incautos para dominá-los e reduzi-los a estado vegetativo.

Nada prestava para Coisa Ruim. Todos eram inferiores, burros, sem direito a pensar e até a viver. Em contraponto, todos o odiavam, menos o inocente que iniciou a escrita destas mal traçadas, por acreditar na possibilidade de regeneração de homens e diabos. Não passou a odiá-lo nem depois de, graças à terapia, ter clareza daquilo a que fora submetido. O que sentia era uma espécie de nojo até agora não catalogado pela ciência. Nojo terçã que só se aplacava depois da projeção terapêutica do vômito.

Cuidado! Coisa Ruim é simpaticamente dissimulado e gentil na presença da vítima, o que o torna ainda mais letal. A maledicência, ele faz nas encolhas, conspirando, arrotando mentiras tão podres quanto o seu hálito de flores de defunto. Jamais cara a cara. Coisa Ruim, minha gente, é o famoso Cão em forma de Cão – digo, de gente. Como tem várias faces, nomes e formas de sedução, talvez você já tenha se deparado, sem perceber, com a Serpente, o Dragão de Iblis, Asmodeus, Leviatã, Mefistófeles.

O dono do corpo ateu que incorpora este desabafo não guarda mágoa. A Sertralina o ajuda a vencer negatividades. Inclusive, silenciaria se lhe fosse dado avaliar o Capeta. Enquanto vítima, dir-se-ia suspeito. Sua temporada no Inferno do Céu durou oito meses e uma manhã tardia, sem direito sequer a cerveja com Rimbaud. Traz de lá apenas o meio amargo de haver engolido, silente, leviandades ditas e escritas por Coisa Ruim sobre ele, um reles ser ficcional que se perdeu nas entrelinhas da estória.