sábado, 24 de abril de 2010

Os elefantes verdes de Pirá



Trazia em minhas lembranças a certeza de que Pirá morrera de morte matada, vítima de latrocínio, mas o poeta Francisco Nolasco, no livro Grãos de Areia, afirma que isso não procede. Segundo ele, o “mecânico pinguceiro” de Tibau “morreu com problemas advindos do álcool”. Nolasco deve estar certo, pois conhecia bem o falecido, a ponto de saber o nome dele por completo, coisa que pouca gente sabe. Valdir Campos de Jesus era a graça dessa figura interessante, cujo tira-gosto preferido, durante as cachaçadas no bar de Seu Manoel Moreira, era papel de embrulho.

Raras vezes encontrei Pirá de Jesus em estado de sobriedade. Na maior parte do tempo, o sujeito estava movido pelos vapores do álcool. Numa fase avançada do alcoolismo, dizia ver elefantes verdes saindo do mar, nas imediações da Pedra do Ceará. “Não ando mais praqueles lados, de jeito nenhum, porque estou morrendo de medo dos elefantes”, contou ele no alpendre da casa de meu avô, para espanto da meninada que, mesmo conhecendo histórias ainda mais fantásticas, como as aventuras de Tidó e de Ananias, não deixava de se encantar com novas assombrações do universo tibauense.

Sempre que avisto a Pedra do Ceará ou a ela faço referência, lembro-me da história dos paquidermes, tão verdadeiros quanto as eternas naus dos sonhos vindas de Oropa, França e Bahia. Meus filhos sabem-na de cor e salteado. Há quem pergunte: “E por que os elefantes eram verdes?” O detalhe de eles emergirem das águas rasas de Tibau tornou-se secundário. O fato é que os bichos poderiam aparecer em todas as cores do mundo nas viagens psicodélicas de Pirá, porque no surrealismo das alucinações e dos sonhos, os elementos se misturam livremente sem rogar ou sugerir explicações.

Não há nada estranho no fato de alguém ver elefantes verdes saindo do mar. Vez por outra, no Rio Grande do Norte, alguém inebriado por falsas perspectivas de poder e glória surge de braços dados com a mosca azul. É normal, pode acontecer em todas as partes e com qualquer pessoa que tenha na mente uma razoável tendência à megalomania, a exemplo da bruxa Mambi, que em “O Regresso ao Mundo Mágico de Oz” pretende destruir a cidade dos ladrilhos amarelos com uma manada infernal de elefantes verdes, primos legítimos das moscas azuis dos pretensos donos do mundo.

Os elefantes verdes de Pirá nada tinham com os de Mambi nem muito menos eram parentes das moscas azuis. Na hora em que deixavam o reino das águas, faziam-no a passos lentos, com barritos alegres que, embora altos, apenas o mecânico bêbado percebia nas noites silenciosas de Tibau, ainda livres da parafernália sonora dos carros que hoje disputam o controle do Centro. Os elefantes de Pirá não agrediam nem alimentavam vaidades sinistras, queriam simplesmente fazer parte daquele mundo imaginário, tanto é que, depois da morte do amigo, eles nunca mais apareceram a ninguém.

2 comentários:

Ícaro disse...

Essa história de elefantes verdes emergindo do mar parece até com histórias apocalipticas!

Olá, seja bem-vindo. disse...

Apocalipse alcoólico. Hahaha

Cid