sábado, 19 de setembro de 2009

Letra de médico



Aqui e acolá tenho sorte de assistir a Salomão Schvartzman apresentando suas crônicas na BandNews. Acabo de vê-lo, brilhante como sempre, a comparar o sacrifício dos farmacêuticos para traduzir as letras dos médicos e o esforço de Jean-François Champollion para decifrar, além do grego, as inscrições em egípcio demótico e em hieróglifos egípcios estampadas na pedra de Roseta.

Quem frequenta farmácias aprende a admirar a destreza dos seus balconistas. Ler determinadas receitas médicas pode exigir mais esforço mental do que os neurônios queimados por Champollion em busca de compreender o fraseado esculpido no bloco de granito negro descoberto pelas tropas de Napoleão, lá pras bandas de 1799, justo em Roseta, cidadela próxima a Alexandria.

Falo de cátedra, pois sou filho, bisneto, sobrinho e primo de médicos. Tornar-me-ia um deles não houvesse abandonado os estudos aos 16 anos, retomando-os muito posteriormente, já trabalhando em jornal. Para balancear, os avôs eram farmacêuticos, assim como o bisavô materno que também é trisavô paterno. Compliquei? Veja se melhora: mamãe é prima legítima do pai de papai.

Meu primo, digo, meu pai é homem culto, viajado, de muita leitura e texto irretocável, mas faz garrancho em letra de forma. No final dos anos 1970, ele me trouxe um presente e o guardou carinhosamente, deixando-me na cama um bilhete no qual indicava a localização do tal objeto. Precisei esperá-lo até o dia seguinte, após o plantão, porque a única coisa identificável era a assinatura.

Existem casos, no entanto, que comprometem a glória médica. Mestre Câmara Cascudo dizia que o agrônomo Vingt-un Rosado, maior editor brasileiro, tinha a letra ruim inclusive quando escrevia à máquina. Pedi-lhe certa feita que me “traduzisse” escritos seus. Depois de fitá-los com olhar grave, passando a mão no queixo, ele achou graça e disse: “Vamos pedir ajuda ao poeta Caio Muniz”.

6 comentários:

Moacy Cirne disse...

Meu caro,
confesso que não conhecia
- ou conhecia superficialmente -
seus textos.
Mas, vejo agora,
que são ótimos.
Gostaria mesmo de publicar
um ou mais alguns deles no Balaio.
Tudo bem, né?

Um abraço.

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Esta postagem foi removida pelo autor.
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Claro, Moacy. Além de tudo eu sou seu fã.

Obrigado pela atenção.

Cid

Moacy Cirne disse...

Oi,
republiquei 'Beleza é fundamental' no Balaio.
Outros textos seus serão republicados, na medida do possível.
Um abraço.

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É uma honra.

Abraço,

Cid

Moacy Cirne disse...

Oi,
Sheyla Azevedo adorou o seu texto.
Está nos comentários de hoje,
no Balaio.
Outras pessoas também gostaram.

Abraços.